Versão nova para um antigo prodígio

Vocês se lembram de uma notinha postada aqui no blog em abril do ano passado, com um link para uma extraordinária pintura chinesa?

Essa imagem é só um pedacinho de um imenso painel pintado na China entre 1085 e 1145. Ele tem 5m28 de largura por 24,8 cm de altura, e é considerado um dos grandes tesouros do país.

Recentemente, foi exposto no Museu de Arte de Hong-Kong; havia filas imensas para vê-lo, e por justa causa.

Recomendo clicar nos quadradinhos da parte debaixo, ou nos quadrados brancos que aparecem ao longo do “passeio”: eles levam a uma linda interpretação do mundo do painel.

Bom — essa paisagem fenomenal foi recriada e ampliada em formato digital, numa tapeçaria trinta vezes maior do que o original. A nova versão, exposta na Feira de Shanghai, é tão cheia de detalhes que as expressões faciais das personagens mudam, e o dia transforma-se em noite a intervalos regulares.

Video e texto contam a aventura da digitalização no Gismag (em inglês).

Para os fãs do Comissário Montalbano

Meu amigo Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, Camilleriano de carteirinha, me mandou um email muito interessante, falando sobre o nosso ídolo comum e listando os livros do Comissário Montalbano na ordem em que foram publicados:

“O homem (Camilleri) é uma máquina de produzir. Daqui a pouco, em outubro, sai mais uma aventura de Montalbano, “Una Voce di Notte”. Não faz nem três meses que publicou “A Caça ao Tesouro” e “Acqua in Bocca” (este a quatro mãos com Carlo Lucarelli). Fora os livros que não são da série Montalbano, que escreve aos montes. E tem oitenta e tantos anos. É ele nas letras e sua mãe nas piscinas…

Outra coisa: para você checar os livros da série Montalbano que você já leu, e marcar os que faltam, mando a lista completa:

  • 1994 – La forma dell’acqua – no Brasil, A Forma da Água
  • 1996 – Il cane di terracotta – no Brasil, O Cão de Terracota
  • 1996 – Il ladro di merendine – no Brasil, O Ladrão de Merendas
  • 1997 – La voce del violino – no Brasil, A Voz do Violino
  • 1998 – Un mese con Montalbano (contos) – no Brasil, Um Mês com Montalbano
  • 1999 – Gli arancini di Montalbano (contos) – no Brasil, O Ano-Novo de Montalbano
  • 2000 – La gita a Tindari – no Brasil, Excursão a Tíndari
  • 2001 – L’odore della notte – no Brasil, O Cheiro da Noite
  • 2002 – La paura di Montalbano (contos) – no Brasil, O Medo de Montalbano
  • 2003 – Il giro di boa – no Brasil, Guinada na Vida
  • 2004 – La pazienza del ragno – sem tradução no Brasil. Há, entre outras, traduções espanhola e americana (foi esta que li)
  • 2004 – La prima indagine di Montalbano (contos) – no Brasil, A Primeira Investigação de Montalbano
  • 2005 – La luna di carta – no Brasil, A Lua de Papel
  • 2006 – La vampa d’agosto – sem tradução no Brasil. Há, entre outras, traduções espanhola e americana (foi esta que li)
  • 2006 – Le ali della sfinge – sem tradução no Brasil. Há pelo menos uma tradução espanhola.
  • 2007 – La pista di sabbia – sem tradução no Brasil. Há pelo menos uma tradução espanhola.
  • 2008 – Il campo del vasaio – sem tradução no Brasil.
  • 2008 – L’età del dubbio – sem tradução no Brasil.
  • 2009 – La danza del gabbiano – sem tradução no Brasil.
  • 2010 – La caccia al tesoro – sem tradução no Brasil.
  • 2010 – Acqua in bocca (in collaborazione con Carlo Lucarelli) – sem tradução no Brasil.
  • 2010 – Una Voce di Notte – sai dia 15 de outubro na Itália
  • La Tana delle Vipere – já está pronto, na editora, não sei se ainda sai este ano ou no começo do próximo
  • Riccardino – já está pronto, na editora, com ordem de só ser publicado depois da morte de Camilleri. Será o último livro da série

    Curiosidades:

    Todos os livros de Montalbano têm o mesmo número de capítulos (18) e o mesmo número de páginas (quanto a estas, não depois de publicados, mas na formatação do computador de Camilleri). Você já tinha reparado?

    Se o número de capítulos, ou de páginas por capítulo, passar dessa fôrma, Camilleri volta, risca, corta, reescreve, até ficar dentro do padrão. Ele diz que o livro “não funciona” se não for assim (“Acqua in Bocca” não segue esse padrão, porque foi feito a quatro mãos; além disso, é predominantemente em italiano, não em siciliano-camilleriano).

    Camilleri diz também que não mata Montalbano, porque todos os autores de detetives famosos que mataram suas criações, morreram (será que ele mata Montalbano em “Riccardino”?).

    Ele não gosta de Livia e assegura que jamais fará Montalbano casar com ela… E no livro póstumo?

    Nos livros, Montalbano, fisicamente (muito cabelo, bigode, atualmente 57 anos), nada tem com o ator Luca Zingaretti (careca, cara rapada, mais jovem), que o interpreta na série da RAI. Inclusive, em “La Danza del Gabbiano”, há um diálogo em que Livia o chama para fazer turismo e ele diz que não vai, teme que alguém o confunda com o ator ou até mesmo receia encontrar-se com o sujeito, e tira sarro dele por não ter cabelo! Entretanto, em “Acqua in Bocca” — cuja parte gráfica reproduz o que seriam correspondências entre Montalbano (detetive de Camilleri) e Grazia Nigro (detetive de Lucarelli), e no meio desses documentos, aparece o retrato de Montalbano… e é Zingaretti!

    Recentemente, foi inaugurada uma estátua de Montalbano em Porto Empedocle. As feições são as descritas nos livros, não as de Zingaretti (isso foi objeto de muita polêmica). Há imagens na net. Há na net um texto em que Camilleri diz que se encontrou com um professor de uma universidade do sul da Itália e, quando o viu, caiu-lhe a ficha que aquele rosto era o do Montalbano que ele sempre imaginara. Tem retratos desse cara na web também.

    Boa parte das curiosidades acima tirei de uma entrevista de Camilleri que está na segunda parte do seu livro “La Tripla Vita di Michele Sparacino”. Outras colhi na rede.

    Vá ao site www.vigata.org, que tem uma montanha de coisas interessantes, e muitas receitas da cozinha montalbaniana.”

  • A hora da videochamada?

    Um dos chamarizes de venda do novo iPhone 4, que ainda não chegou oficialmente por essas bandas, é a camera frontal, que permite a realização de videochamadas – algo que a maioria dos smartphones já faz, em tese, há alguns anos. Digo “em tese” porque, na vida real, fora de eventos de demonstração de operadoras e/ou fabricantes, é muito raro ver alguém fazendo videochamada.

    O problema é antigo, e é mais cultural do que tecnológico. A idéia do videofone existe desde princípios do século passado; nos anos 70, a ATT chegou a desenvolver um telefone (fixo) que fazia videochamadas até razoáveis. Conheci um dos seus modelos avançados em meados dos anos 80, no Bell Labs. Como todos os representantes da espécie, fazia mais sucesso no laboratório do que entre os consumidores: os próprios cientistas que trabalhavam no seu desenvolvimento tinham dificuldades em fazer com que suas famílias o usassem. Os motivos eram óbvios. Uma chamada telefônica não atrapalha a privacidade de ninguém, mas o mesmo não se pode dizer de uma videochamada, que mostra cabelo despenteado, barba pelo meio, roupa de baixo, pijama ou roupa nenhuma…

    As teleconferências corporativas e as chamadas de longa distância do Skype mudaram um pouco esse panorama – mas note-se que elas são realizadas em circunstâncias muito específicas. Numa teleconferência ninguém corre o risco de ser encontrado no meio do banho. As chamadas do Skype, por sua vez, são feitas do computador, o que significa um grau de disponibilidade que quem faz ou recebe uma chamada comum de telefone nem sempre tem.

    Com os smartphones, as videochamadas passaram para um outro universo, o da mobilidade – que, se por um lado é mais complexo para quem quer ver e ser visto enquanto fala, por outro põe a tecnologia ao alcance de muito mais gente. E parece que o gosto das gentes está mudando. Afinal, não faria sentido os smartphones trazerem câmeras frontais há tanto tempo se a indústria não estivesse sentindo um mínimo de demanda por parte do público. Mas onde está essa demanda?

    Fiz a pergunta pelo Twitter, e recebi mais de 200 respostas. A imensa maioria dos que me responderam não faz videochamadas, nunca fez e pareceu ter pouco interesse pelo assunto. Algumas pessoas não usam por dificuldades tecnológicas – a operadora não as disponibiliza, ou não há 3G, ou há algum problema com os aparelhos – mas têm interesse. Entre elas, um caso típico é o do @leonesandro:

    “Já usei, com meu filho! Mas meu aparelho deu defeito e estou sem usar há uns seis meses. Funcionava, meio mais ou menos. O sinal tinha que estar forte para funcionar legal. Acho que é uma tecnologia que ainda vai avançar…”

    Finalmente, as poucas pessoas que de fato usam o serviço gostam muito. A usuária mais empolgada que encontrei foi a @MarcellinhaRJ:

    “Eu uso! E AMO! Com qualquer pessoa que tenha um aparelho 3G. Com marido, filhos, amigos de outros estados, principalmente pra matar a saudade e pra mostrar como meus filhos cresceram!”

    E é bem possível que, afinal, o iPhone 4 desencadeie uma nova onda. Vejam o que diz o @rodrigo_x:

    “Comecei agora com o iPhone 4. Como são poucos amigos que usam o aparelho (3), só falo com eles. É indiferente a operadora no caso. Tão logo mais amigos tenham o iPhone 4, mais videochamadas farei :)”

    (O Globo, Revista Digital, 30.08.2010)

    Bem feito!

    No The Sun tem um joguinho de vingança contra Mary Bale, a mulher que jogou a gata Lola no lixo. O joguinho está plantado no meio de uma matéria sobre o caso; há uma linha em vermelho que diz Click here to play; aí é só clicar.

    A idéia é clicar sobre as tampas das latas de lixo sempre que aparecer a bruxa.

    Emergência felina!

    Essas duas lindas bichinhas estão vivendo numa situação precária, numa hospedagem, onde passam a maior parte do tempo em gaiolinhas.

    Precisam urgentemente ser adotadas; a Vivi, que as recolheu, junto com a mãe e outros cinco irmãos (já doados), não tem mais condições de pagar pela hospedagem, e nem pode levá-las para casa pois seu gatinho é FIV+.

    Por favor, espalhem a notícia e as fotos delas: vamos ver se encontramos bípedes que possam acolhe-las?

    Maiores informações com a Vivi Matos.

    Impressões de viagem

    Gotemburgo é a segunda cidade da Suécia, e a quinta maior da península escandinava. Tem cerca de 510 mil habitantes e zero carisma, mas quem chega ao excelente aeroporto de Landvetter tem a impressão de que pousou num importante centro turístico. Tudo, a começar pelo próprio aeroporto, construído em 1977 mas tinindo de bem conservado, colabora para essa impressão. Há balcões de recepção ao turista logo em frente à área de desembarque, e fileiras de prateleiras cheias de folhetos informativos sobre hotéis, restaurantes e atrações, todos caprichosamente editados em pelo menos meia dúzia de línguas.

    Mais tarde, ao longo de suas andanças, o turista ainda vai se deparar com dezenas de outros impressos (gratuitos) vendendo ou explicando a cidade, do trajeto entre as ilhas feito pela barca Rio-Niterói lá deles (com mapa do percurso e minuciosos textos sobre cada ilha) a caderninhos sofisticados distribuídos pelo comércio, passando pelo guia oficial editado em forma de revista, com 122 páginas cheias de fotos e detalhes.

    Que atrações são essas, tão alardeadas? Em primeiro lugar, um parque de diversões chamado Liseberg, bem mais simpático e menos neurótico do que os mega parques americanos, e de onde, com um mínimo de empenho, todo mundo sai com seu bicho de pelúcia ou pacote monstro de balas; depois… bem, depois é mais complicado.

    Há museus, entre eles um de design, um marítimo e um da aviação, há um veleiro ancorado que pode ser visitado, há parques e jardins, há uma roda gigante, há o já mencionado trajeto da barca, há umas duas ruas de cafés à la bairro boêmio. Há tours de ônibus vermelho, de barquinho e de trem, há o mercado de peixe e o Jardim Botânico, e vários parques e jardins menores, um deles plantado no alto da colina mais alta, a 87 metros do chão, de onde se tem ampla vista lá para baixo.

    A valente cidadezinha arranca leite de pedra para cativar os visitantes. Inventa museus e centros de convenção, distribui folhetos e constrói roda gigante, num empenho que chega a ser comovente. Mas a realidade é que, depois de dois dias – ainda assim numa estimativa otimista — Gotemburgo está amplamente vista e visitada, e qualquer tempo adicional é tempo roubado de paragens mais emocionantes.

    Impossível não fazer a inevitável comparação com o Rio, e a sua constelação de atrações, cada qual mais rica. Enquanto Gotemburgo chama e se esforça, o Rio dá de ombros, como se não estivesse nem aí. Lá o turista é paparicado, aqui vira coadjuvante de tiroteio em hotel de luxo; lá conduções limpas, baratas e eficientes o levam aos principais pontos da cidade, aqui ele é roubado até o último centavo por máfias oficiais de vans em lugares como o Corcovado — onde, supostamente, deveria sentir-se protegido. Lá ele encontra balcões de informação e literatura aonde quer que vá, aqui não tem quem o socorra.

    A sensação que se tem em Gotemburgo é que, se a cidade quisesse sediar uma Olimpíada, estaria pronta para isso amanhã. Aqui no Rio, ao contrário, a possibilidade de realização das Olímpiadas parece ser, cada vez mais, uma péssima idéia.

    * * *

    Em Gotemburgo – como em Oslo, em Copenhague e em outras cidades que visitamos – o sol se punha às onze da noite, e às duas, três da manhã já ameaçava nascer de novo. Mas a primeira coisa que criaturas tropicais descobrem naquela latitude é que claridade e luminosidade não são sinônimos. O sol escandinavo, mesmo às duas da tarde, mesmo no mais radioso dia de verão, inclementes 24 graus Celsius castigando o asfalto, é um astro pálido, que brilha pedindo desculpas e ilumina discretamente, como se escondido por véus de musselina. As cores resultam pálidas, e o mundo parece desenhado a pastel. Não há uma cor forte e vibrante à vista; nem mesmo o vermelho dos carros de bombeiro parece um vermelho como o daqui.

    Esse sol tímido explica o design dos móveis escandinavos, com suas linhas essenciais e suas madeiras claras, e as cores das cortinas e estofados da região, elegantes meios tons em que nada fala mais alto. Gritar, como gritam as cores mexicanas, por exemplo, nem pensar.

    As cores, por sua vez, ajudam a entender as pessoas, também elas calmas e distintas, conversando num tom de voz sempre educado. Em lugar nenhum se vê a paixão e balbúrdia dos trópicos, a natureza over das gentes e dos objetos que vivem sob o signo do sol.

    * * *

    Nunca vi tanta gente bonita por metro quadrado quanto na Suécia: todos são altos, louros e longilíneos, e ostentam o mesmo nariz orgulhosamente arrebitado. As crianças, então, parecem saídas de propagandas de produtos infantis, rosadinhas e com os cabelos quase brancos de tão claros.

    Todos, é engraçado observar, igualmente despreparados para o calor, ou para o que imaginam que seja calor; a única coisa mais mal ajambrada do que um carioca no inverno é um sueco no verão. Nada combina com nada, há shorts curtos demais usados com camisetas demasiado longas, sapatos deslocados, meias mal resolvidas, uma confusão.

    Mas a multidão sueca impressiona. Primeiro, constata-se como fica bem a espécie depois de algumas gerações de bons tratos e alto IDH; depois, percebe-se como, apesar de tudo, a uniformidade é monótona. Passadas algumas centenas de louros altos e esbeltos, o olhar busca, ansioso, uma pele morena, um olho castanho, uma cabeleira negra.

    Moral da história? Quanto mais misturada, mais divertida fica a humanidade.

    (O Globo, Segundo Caderno, 26.08.2010)

    E a mulher que jogou o gatinho no lixo?

    A essa altura todo mundo já viu esse video, não?

    A boa notícia é que a assassina em potencial foi identificada em menos de 24 horas pelos pelotões da web: chama-se Mary Bale, mora em Coventry, Inglaterra, tem 50 anos, trabalha para um banco — e agora está sob proteção policial, porque, como a gente sabe, os gatos têm poder na internet, e ela ficou assustada com os milhares de comentários… digamos, desfavoráveis… com que se deparou na rede.

    O gatinho que escapou de boa é uma gata, chama-se Lola, vive com Stephanie Andrews-Mann e seu marido Darryl, e já conquistou milhares de internautas indignados. A coitadinha passou 15 horas presa na lata de lixo até os donos verem a fita e descobrirem onde ela estava.


    Lola, sã e salva, cercada por alguns dos presentes que ganhou de pessoas que ficaram revoltadas com a sua história; a foto é do The Sun.

    Quem traz uma boa cobertura do caso é o boing-boing.

    Perigoso até para vampiros

    Deu no Gawker:

    “A recente crise de reféns em hotel na segunda maior cidade brasileira assustou os produtores do quarto filme da série “Crepúsculo”, que planejavam filmar algumas cenas por lá. Boa sorte a todos que estão indo para a Copa e para as Olimpíadas.”

    A nota é para lá de mal redigida, mas o pior é que, do jeito que a coisa está, a gente merece.