Universos paralelos

Já estamos tão acostumados a recorrer à internet a cada dúvida que, muitas vezes, nem nos damos mais conta de como ela ainda consegue nos surpreender, pelo inesperado: mas acontece, e aí mundos inteiramente novos se abrem à nossa frente. Comigo acaba de acontecer isso no Instagram, uma rede social de fotos, que mais de uma vez já foi definida como um Twitter de imagens.

Comecei a seguir uma usuária japonesa, @kuminz, por causa das fotos maravilhosas que faz de seu filho e de seu cachorro, um terrier preto simpaticíssimo. Acompanhar a vida do menino e do cão em algum lugar que não sei no Japão (@kuminz só escreve em japonês), virou um dos bons momentos do dia, uma gotinha de adoçante antes de ir dormir. As fotos dos dois, porém, são alternadas com fotos de comida.

Fotos de comida são uma longa tradição na rede, onde se encontram sites altamente sofisticados dedicados a tudo que o ser humano considera comestível, de kimchi, um tenebroso preparado coreano à base de repolho fermentado, a comida de avião, no célebre www.airlinemeals.net, onde refeições servidas a bordo do Concorde e da Varig continuam em exibição em toda a sua glória.

Normalmente, eu passava por cima das fotos de comida de @kuminz. Mas é curioso como o olhar registra certas coisas inconscientemente: houve um momento em que eu percebi que havia uma elegância naquela comida que merecia ser vista com atenção. Pouco depois, alguém escreveu um comentário em inglês no meio daquele mar de japonês, dizendo que adorava os “bentos” que ela preparava. Essa era uma palavra nova para mim. Googlei “Bento”, e descobri um universo paralelo.

Liguei pro Tom.

– Você sabe o que é bentô?

– Claro, aquelas caixinhas de comida japonesas, muito bem arrumadas.

Perguntei pro Paulinho:

– Você sabe o que é bentô?

– Almocei um hoje, é um PF japonês que vem numa caixinha.

Eu era a única que não sabia! Publiquei um post sobre o assunto, no blog. Fiquei me sentindo menos ignorante (várias pessoas não sabiam o que era bentô) e, ao mesmo tempo, mais instruída, porque a Suely complementou o post com uma pequena aula sobre o bento:

— “Bentôs” não se restringem a essas caixinhas nem a embalagens de isopor fechadas com filme para venda, — escreveu ela. – Bentô significa “lanche” levado pra comer em outro lugar, de modo geral. Chamamos de bentô também sanduíches ou mesmo frutas. Por exemplo: “Hoje meu bentô se resumiu a uma maçã e um mamão”. No Japão, as crianças, que estudam em tempo integral, geralmente levam bentôs em caixinhas de plástico que podem ir ao microondas. Levam também um missoshiru e chá em garrafa térmica e um “furikake”, pozinhos com tempero a serem salpicados sobre o arroz, o shirogohan (arroz branco cozido sem tempero). Muita gente usa cup noodle como bentô.

Revirando a internet, chega-se ao pool do grupo “bentoboxes”, do Flickr, que tem quase 35 mil fotos de bentôs dos mais variados, postadas por 4.332 membros. É difícil bater essa coleção em termos de quantidade e, até, qualidade: há muitas imagens triviais, mas há outras interessantíssimas.

O próprio Instagram começa a ter sua coleçãozinha de fotos de bentos. Para ter acesso a ela, vá a “Buscar no Instagram” > “Tags”. Digite “#bento” e terá mais de 1600 fotos para se familiarizar com essa tradição japonesa. Hoje, sexta-feira à tarde, quando escrevo, o total de fotos é de 1.673, e a julgar pelas últimas entradas, bentos temáticos com personagens do Angry Birds reproduzidos em bolinhos de arroz são o que há de quente na área.

Boa viagem!

(O Globo, Economia, 17.9.2011)

Os ataques, a luz e o ouriço

Eu estava dormindo quando a Laura ligou para o meu telefone vermelho, o número que não está no catálogo e que só a família e meia dúzia de amigos têm.

— Acorda, que estão bombardeando Nova York!

Ahn?

— Há prédios em chamas, ninguém sabe nada direito ainda, uma das torres gêmeas foi atingida…

No escritório eu tinha uma TV pequena que praticamente não pegava nada além de CNN e BBC. Passei muito tempo diante das imagens que a BBC ressaltava que não, não eram um filme, e que sim, estavam sendo transmitidas ao vivo. Uma das torres ardia, falava-se do choque de um avião, a confusão era enorme. Logo assisti ao choque do segundo avião e, como o resto do mundo, percebi que não era bombardeio, era algo mais sinistro, algo mais assustador, algo que a gente ainda não tinha visto.

Depois fui para a redação, onde o resto do dia se desmanchou entre o trabalho e a sensação estranha de que alguma coisa estava profundamente fora da ordem. Não me lembro do dia em detalhes, mas me lembro que, como o Xexéo, eu também nunca tinha ouvido falar em Osama Bin Laden.

Adepta que sou de teorias conspiratórias, aliás, durante muito tempo achei que Bin Laden fosse uma invenção americana, um bode expiatório para explicar o inexplicável. Não posso dizer que, hoje ainda, esteja cem por cento convencida do contrário.

Não cheguei ao ponto de achar que os ataques do 11 de setembro fossem obra do governo americano, mas acreditei – e às vezes, dependendo do meu estado de espírito, ainda acredito – que o governo sabia dos atentados e deixou correr solto, para poder levar adiante a sua política de guerras equivocadas e supressão dos direitos e liberdades civis. Dou a Bush e seus comparsas o benefício da dúvida: embora sabedores dos atentados, eles não tinham como avaliar a sua magnitude. E só.

Por maluquice que pareça isso, mais maluquice ainda me parece a possibilidade de que, na maior potência mundial, meia dúzia de cidadãos suspeitos pudesse embarcar à vontade em aviões lotados, seqüestra-los, mudar seu rumo e atira-los contra os alvos de sua escolha.

Nenhum serviço secreto sabia disso?

Ninguém desconfiou de nada?

Também tenho dúvidas se o famoso vôo 93, que caiu na Pennsylvania, foi mesmo derrubado pelos passageiros. Acho mais provável que tenha sido abatido por uma aeronave militar, mas é mais fácil vender ao público a história de um grupo de passageiros heróicos do que a incomoda idéia de que aeronaves militares podem abater aviões suspeitos.

Às vezes desconfio das minhas desconfianças; às vezes tenho certeza delas. O fato é que o meu júri interno ainda não decidiu muita coisa em relação ao 11 de setembro, que me parece, com todo o respeito, uma história mal contada.

Pior do que conviver com os vários furos e inconsistências da História oficial, porém, é constatar que, dez anos passados, os norte-americanos não aprenderam nada. As palmas destinadas a Bush na cerimônia em Nova York me deixaram de cabelo em pé: para mim, se o mundo fosse justo, este homem deveria estar sentado no banco dos réus de um tribunal internacional de crimes contra a Humanidade.

♦ ♦ ♦

Na terça-feira, por acaso, o Joaquim deu nome e foto do responsável pelas barbaridades luminosas que vêm sendo perpetradas contra o Cristo. É padre Omar Raposo, responsável pelo santuário. Dou um replay para quem perdeu:

“Padre Omar Raposo, responsável pelo santuário do Cristo Redentor, inaugurou uma era hi-tech no monumento. Ele chega a mudar a cor da iluminação de LED do Cristo de qualquer lugar do mundo onde esteja:

— Tenho um aplicativo no meu iPad que me permite fazer as mudanças, — conta ele, orgulhoso. ”

José Canosa Miguez, autor da linda iluminação que o Cristo ostentou até a “era hi-tech”, acertou na mosca. Lembram do que ele escreveu?

“Usar monumentos emblemáticos como se fossem telas em branco, livremente disponíveis para devaneios luminosos, está se tornando uma prática incentivada por deslumbrados pelas possibilidades da nova tecnologia com LEDs.”

Mais deslumbrado do que o Padre Omar, pelo jeito, impossível. A quem podemos pedir socorro?!

♦ ♦ ♦

Em meados de julho, falei aqui de um ouriço atropelado no Jardim Botânico. Na época, as pessoas que o encontraram, agonizando, ligaram para o Ibama, e receberam a resposta de que seriam atendidas em “sete dias úteis”, o que me encheu de indignação e revolta. Como assim, Ibama?!

O bichinho acabou sendo atendido numa clínica veterinária particular, onde foi constatado que estava com a coluna fraturada em diversos lugares, e onde, finalmente, acabou sendo sacrificado.

Mais ou menos na mesma época, o SOS Aves recebeu um pedido de resgate semelhante: um outro ouriço foi encontrado muito ferido e debilitado, também no Jardim Botânico. Mas essa história, ao contrário da outra, tem Final Feliz.

Na segunda-feira, me telefonou o Paulo Maia, do SOS Aves, para contar, todo contente, que, no domingo à tarde, havia devolvido à mata o animalzinho, agora forte e saudável. Paulo ficou inteiramente apaixonado por ele:

— É incrivel como ele é sensível! Tem um olhar de abandono tão tristonho, e uma aparênciazinha tão frágil… Parece completamente despreparado para enfrentar o mundo, e cortou o meu coração na hora do “até um dia”… Mas fizemos a nossa parte, agora a natureza faz a parte dela, né?

É de se esperar que, a essa altura, o pequeno ouriço, que vocês vêem na foto, esteja se virando direitinho no seu habitat. Como diz o Ancelmo, que seja feliz.

(OGlobo, Segundo Caderno, 15.9.2011)

Internet é cultura

Liguei pro Tom.

— Você sabe o que é bento, no Japão?

— Claro, aquelas caixinhas de comida.

Perguntei pro Paulinho:

— Você sabe o que é bento, no Japão?

— Almocei um hoje, é um PF japonês que vem numa caixinha.

Eu era a única que não sabia! E só descobri essa falha na minha cultura graças à internet, e mais propriamente ao Instagram, onde comecei a seguir uma usuária japonesa por causa das fotos do cachorro, que é a coisa mais linda, e acabei fisgada pelas marmitinhas que ela arruma todos os dias.

As caixinhas da minha amiga @kuminz são “normais”, mas pelo que andei lendo e vendo na rede, há bentos incrivelmente sofisticados, como o casal de aves de shitake (?) da foto. São lindos como arte, mas assim a nível de gastronomia, enquanto comida, acho que sou mais um ovo frito com arroz…

Update: AQUI há um link para as quase 35 mil fotos do grupo Bento Boxes, do Flickr.