A cor púrpura

No mês passado, uma orquídea que sobrevive valentemente aos gatos lá de casa deu uma linda flor lilás. Fiquei encantada com a tenacidade da plantinha, e tentei fotografá-la com o iPhone.

Nota zero: a flor saiu azul e, na tentativa de encontrar a tonalidade certa, a câmera ainda me transformou uma parede mostarda em marfim. Tive mais sucesso com o Samsung Galaxy II, que leu com bastante correção as cores da flor e da parede; mas, para minha surpresa, a foto seguinte, feita com a excelente Canon S95, também saiu errada, tão distorcida quanto a do iPhone. Lembrei-me então de uma conversa que tive, tempos atrás, com o notável fotógrafo italiano Roberto Cavana, sobre a dificuldade de se capturar os tons do roxo, ou púrpura — aquele leque de tons entre o vermelho e o azul. A sua Contax reproduzia com bastante fidelidade os tons de uma violeta, ao passo que a minha Panasonic da época “lia” a flor num estranho tom de azul.

O problema é antigo e vem ainda da época do filme. Quem é que não leu sobre a impossibilidade das câmeras de captarem os olhos violeta de Elizabeth Taylor? A Wikipedia traz uma curiosidade sobre essa cor que está na raiz da questão: “O violeta é uma cor constituída pelos menores comprimentos de onda da luz visível, entre 455 e 390 nanômetros. Acima da frequência do violeta (comprimentos de onda menores do que 390 nm até 15 nm) a luz passa a não ser mais visível, denominando-se ultravioleta.”

Os filmes, afinados para reproduzir bem um certo número de cores mais comum (tons de pele, céu, grama, areia, etc.) tinham problemas com os extremos do espectro de cores. Daí a impossibilidade de capturar com fidelidade a lendária cor dos olhos de Ms. Taylor.

O mais curioso é que o problema continua com as câmeras digitais. Digitem “photographing purple” no Google e a palavra “problem” junta-se às anteriores automaticamente. Na sequencia, vem 141 milhões de entradas a esse respeito.

O problema da cor púrpura não poupa marcas, modelos ou lentes especiais. É democrático, e afeta, em maior ou menor grau, praticamente todas as câmeras existentes.

Num dos vários fóruns de discussão da questão, encontrei esta explicação, dada por um camarada chamado Dave Hartman:

“Os tons de roxo são sempre um problema, já que o roxo não é uma cor produzida por luz, mas sim por pigmentos e pela mente humana. Esses tons foram, durante décadas, um problema tradicional dos filmes a cores.”

Foi neste mesmo fórum, em indicação do mesmo Dave, que encontrei o link para “Do you believe in purple?”, um artigo que explica o mistério da cor púrpura para anglo-parlantes. Quem se interessar, pode lê-lo em bit.ly/nWp193.

Dito tudo isso, como fazer para fotografar direito violetas, orquídeas e o que mais há de roxo no mundo? Considerando que o WB não resolve a questão, os especialistas são unânimes: fazer a foto tentando acertar as demais cores, e resolver o roxo no Photoshop…

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Há uma simpática exposição dos cartazes de cinema de Fernando Pimenta no Oi Futuro, em Ipanema, ali na Praça General Osório. Fernando Pimenta fez os cartazes de mais de 300 filmes nacionais, e mesmo quem nunca ouviu falar nele conhece um bocado da sua obra.

Detalhe: não há um só cartaz de papel nas paredes. As obras estão expostas em telões, e alguns podem ser pilotados pelo público, permitindo “reinventar” os cartazes – e, depois, compartilhar o resultado com amigos, via email ou redes sociais.

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E, como ninguém é de ferro, a vossa cronista entra em férias. Até novembro!

 

(O Globo, Economia, 15.10.2011)

Conversa de telefone

A carta do Bruno Coletta Forner que publiquei semana passada, sobre dúvidas em relação a um sucessor para seu Nokia N95, deu o que falar.  Papo de smartphone rende muito, especialmente entre pessoas que estão em vias de mudança ou que acabam de mudar para o novo paradigma, leia-se qualquer coisa parecida com um iPhone: monobloco, touch-screen, poucos botões…

 Alguns comentários foram muito pertinentes; Carlos Emerson Junior, por exemplo, relatou a sua experiência com um Nokia E5 que vale a pena ser lida por quem ainda não se decidiu em relação ao seu próximo aparelho. O E5 é um aparelho de preço médio (cerca de R$ 500 no site da Nokia, mas mais barato nas ofertas das operadoras), com um tecladinho QWERTY logo abaixo da tela, como um Blackberry. Fala, Carlos:

“Nem o mais ferrenho fã do Steve Jobs tem como negar: o Android é um sucesso absoluto! O meu problema é que, infelizmente, não consigo me adaptar aos tecladinhos virtuais (aliás, não conheço o Swype) e não gosto do tamanho dos mais recentes aparelhos, alguns com telas com mais de 4 polegadas.

Não sou um saudosista, longe disso, mas comprei um Nokia E5 e tive uma agradável surpresa: dentro daquele corpinho, com um teclado físico QWERTY com cedilha e acentos, roda um Symbian S60 3rd, o mesmo do Nokia N95 8GB. Aliás, é uma sensação de dejá vu danada, está tudo lá, no mesmo lugar, só que funcionando mais rápido e melhor, como o GPS que acha os satélites de primeira, a mesma câmera de 5MP com um baita flash e por aí vai.

 O bichinho é pequeno, fino, muito leve, a tela é reduzida, mas, no geral, cumpre bem suas funções, como costumavam fazer todos os velhos e bons Nokias. Eu sei, o Symbian foi condenado à morte e a Nokia perdeu o rumo com a associação com a Microsoft, mas, por enquanto, dá para ter um smartphone simples, barato, bom de bateria e conexões, cabendo no bolso da camisa com total discrição.

Os estilistas não falam que cada pessoa tem o seu clássico? Então, está na hora de colocar os smartphones nessa afirmação!”

Esse comentário toca num ponto importante: a lealdade do público da Nokia. É incrível como a finlandesa conquistou corações e mentes, e, igualmente incrível, como se perdeu nos últimos tempos. A sociedade com a Microsoft, queimadíssima no mercado, não foi uma boa idéia em termos de imagem; resta ver se terá sido uma boa jogada em termos de reconquista de espaço. Isso, porém, só o futuro e os novos celulares dirão.

Vejam o que escreveu o Carlos Ribeiro:

“Sempre fui um Nokia viciado, mas depois da Nokia ter tomados caminhos estranhos, e por gostar do Google, optei pelo Android, primeiro com um Milestone e depois com um Galaxy S. Os dois são excelentes, mas confesso que ainda sinto saudades dos Nokia. ”

A mesma sensação é descrita pelo Renato Jungbluth:

“Compartilho você e o autor da carta a experiência com a Nokia. Hoje não posso negar a gradiosidade de um novo mundo cheio de possibilidades com o sistema Android. E em relação aos aparelhos, em se tratando de detalhes, não posso deixar de comentar que, ergonomicamente e em termos de design, o Sony Xperia Arc é imbatível. Ele é lindo e tem uma curvatura muito interessante, além de contar com os sistemas de tratamento de imagem da Sony e também possuir conexão HDMI.”

Caudio Rúbio, finalmente, lembra uma questão à qual nenhum de nós prestou atenção, mas que é certamente importantíssima:

“Para alguém que enxerga pouco, como eu, todos os smartphones são castigos. Não dá pra ter prazer com celulares tão cheios de recursos que só atendem aos que têm visão perfeita ou com leves defeitinhos.”

Tem toda a razão. Está mais do que em tempo de a indústria pensar um pouco menos em pirotecnia e um pouco mais em inclusão.

(O Globo, Economia, 1.10.2011)

De peixes e celulares

Essa foi uma semana curiosa, marcada por queixas contra celulares touch-screen – ótimos para tudo, menos para serem usados como telefone. Além disso, três leitores se desfizeram de aparelhos antigos e pedem a minha opinião em relação à troca. Um deles, o Bruno Coletta Forner, me mandou uma carta tão boa, que não resisto: tenho que dividi-la com vocês. Minha resposta vale para todos os três, e para quem mais esteja em dúvida: celular, hoje, é questão íntima e pessoal, já que não há mais um campeão inequívoco nas paradas.

“Não se pode fugir do inevitável. A idade chega para tudo. O tempo é implacável com tudo. Tremo de escrever… Meu Nokia N95 8G ficou ultrapassado. Sim, ficou. Já não é mais tão prático para responder emails, visitar redes sociais. Escrevo com pesar, parece que estou fazendo a confissão de um crime. Como gostamos de nossos “brinquedinhos”!

Minha relação com o N95 8G começou assim: minha esposa viajou e aproveitei a falta de marcação para gastar R$ 1.999 num celular. Até então celular para minha tinha que ter números grandes, ser leve e pequeno e já estava muito bom. Foi num sábado de noite, na Casa & Video da praia de Botafogo, por volta das 22h. Chegando em casa, sentei na primeira cadeira com tomada próxima e comecei a abrir a caixa.

Que caixa linda, cheia de fones, carregadores veiculares e, principalmente, um manual que mais parecia uma bíblia (adoro manuais). Colocado o carregador na tomada, liguei o celular… e de repente, vi duas mãos que se aproximavam e tocou aquela música.  Que música linda e que caixas de som maravilhosas. A tela me impressionou. Mexendo no celular, percebi que era para “gente grande” e que não conseguiria explorar tudo em 30 minutos. Resultado, domingo de sol e eu em casa com meu N95 8G, feliz da vida.

Na segunda-feira, recebo um email promocional das americanas.com informando que meu celular recém comprado por R$ 1.999 estava em promoção por R$ 999. Quase surtei, mas decidi engolir o prejuízo e conviver com ele por no mínimo, mas uns três ou quatro anos. E missão dada é missão cumprida. Nesses quatro anos, foram tantas conversas que tive com ele (sempre com a voz e a recepção claras), tantas fotos que tirei… Fui a Disney pela primeira vez, todos levando filmadoras, câmeras etc. e eu com o meu Nokia N95 8G sem cartão, apenas como filmadora e câmera. Resultado, baterias que se acabavam e nada do Nokia querer descansar. Depois vi que as imagens, apesar de serem 5 Megapixels, eram até melhores que de outros dispositivos dedicados a isso. Sentirei saudades, mas prometo a você que não será um fim, ele ficará sempre pronto para ser meu segundo telefone.

Agora vem a pergunta: um Motorola Atrix ou um Samsung Galaxy SII? Não gostei do N8, apesar de saber que sua câmera é insuperável. iPhone 4 não quero. Já tenho iPad, iPod e iTouch, já deixei a Apple bem riquinha.

E aí, Qual??? Gostosa a dúvida, mas nem por isso menos cruel.”

A minha resposta:

Passei por isso algumas vezes (tive três Nokias N95: o da primeira série, o da segunda, já sem cobertura para a lente da câmera, e o 8Gb) e, há alguns meses, acabei aposentando o aparelhinho. Passei para um Samsung Galaxy II. Estou muito satisfeita com a tela, a câmera é ótima, adoro o sistema Swype para escrever, acho extremamente prática a integração do Android com os aplicativos Google… mas morro de saudades do N95 quando se trata de falar ao telefone. Ergonomia zero! E todos os touchscreen são iguais nisso, do iPhone aos Motorolas.

De qualquer forma, do que há por aí, o SG II é o melhor, ou um dos melhores. O Samsung Galaxy I também é ótimo, e tem TV Digital. Mas não descarte o Atrix sem compará-los na loja. O Motorola é poderoso e muito bonito, e tem conexão HDMI. No fundo, deve ser uma questão de simpatia entre você e o aparelho.

Eu não tinha problema em recomendar o N95, porque ele era claramente superior aos demais. Mas nessa leva de touch screens, todos são parecidos demais, tanto em virtudes quanto em defeitos. O que vai fazer a diferença é um detalhe pequeno, pessoal, que não é o mesmo para todos.

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O aplicativo de hoje é o Peixes Marinhos – Guia de Identificação para iPad, iPhone e iPod Touch, em português, inglês e espanhol, um lançamento brasileiríssimo de Marcelo Szpilman.

— Além de pescadores e mergulhadores, até as donas de casa poderão utilizá-lo para identificar os peixes na peixaria, — diz o autor. E é verdade: o guia é lindinho, e além de cobrir os aspectos práticos, traz ainda dois ótimos joguinhos para quem gosta de peixes.

Breve, num Android perto de você.

(O Globo, Economia, 24.9.2011)

Universos paralelos

Já estamos tão acostumados a recorrer à internet a cada dúvida que, muitas vezes, nem nos damos mais conta de como ela ainda consegue nos surpreender, pelo inesperado: mas acontece, e aí mundos inteiramente novos se abrem à nossa frente. Comigo acaba de acontecer isso no Instagram, uma rede social de fotos, que mais de uma vez já foi definida como um Twitter de imagens.

Comecei a seguir uma usuária japonesa, @kuminz, por causa das fotos maravilhosas que faz de seu filho e de seu cachorro, um terrier preto simpaticíssimo. Acompanhar a vida do menino e do cão em algum lugar que não sei no Japão (@kuminz só escreve em japonês), virou um dos bons momentos do dia, uma gotinha de adoçante antes de ir dormir. As fotos dos dois, porém, são alternadas com fotos de comida.

Fotos de comida são uma longa tradição na rede, onde se encontram sites altamente sofisticados dedicados a tudo que o ser humano considera comestível, de kimchi, um tenebroso preparado coreano à base de repolho fermentado, a comida de avião, no célebre www.airlinemeals.net, onde refeições servidas a bordo do Concorde e da Varig continuam em exibição em toda a sua glória.

Normalmente, eu passava por cima das fotos de comida de @kuminz. Mas é curioso como o olhar registra certas coisas inconscientemente: houve um momento em que eu percebi que havia uma elegância naquela comida que merecia ser vista com atenção. Pouco depois, alguém escreveu um comentário em inglês no meio daquele mar de japonês, dizendo que adorava os “bentos” que ela preparava. Essa era uma palavra nova para mim. Googlei “Bento”, e descobri um universo paralelo.

Liguei pro Tom.

– Você sabe o que é bentô?

– Claro, aquelas caixinhas de comida japonesas, muito bem arrumadas.

Perguntei pro Paulinho:

– Você sabe o que é bentô?

– Almocei um hoje, é um PF japonês que vem numa caixinha.

Eu era a única que não sabia! Publiquei um post sobre o assunto, no blog. Fiquei me sentindo menos ignorante (várias pessoas não sabiam o que era bentô) e, ao mesmo tempo, mais instruída, porque a Suely complementou o post com uma pequena aula sobre o bento:

— “Bentôs” não se restringem a essas caixinhas nem a embalagens de isopor fechadas com filme para venda, — escreveu ela. – Bentô significa “lanche” levado pra comer em outro lugar, de modo geral. Chamamos de bentô também sanduíches ou mesmo frutas. Por exemplo: “Hoje meu bentô se resumiu a uma maçã e um mamão”. No Japão, as crianças, que estudam em tempo integral, geralmente levam bentôs em caixinhas de plástico que podem ir ao microondas. Levam também um missoshiru e chá em garrafa térmica e um “furikake”, pozinhos com tempero a serem salpicados sobre o arroz, o shirogohan (arroz branco cozido sem tempero). Muita gente usa cup noodle como bentô.

Revirando a internet, chega-se ao pool do grupo “bentoboxes”, do Flickr, que tem quase 35 mil fotos de bentôs dos mais variados, postadas por 4.332 membros. É difícil bater essa coleção em termos de quantidade e, até, qualidade: há muitas imagens triviais, mas há outras interessantíssimas.

O próprio Instagram começa a ter sua coleçãozinha de fotos de bentos. Para ter acesso a ela, vá a “Buscar no Instagram” > “Tags”. Digite “#bento” e terá mais de 1600 fotos para se familiarizar com essa tradição japonesa. Hoje, sexta-feira à tarde, quando escrevo, o total de fotos é de 1.673, e a julgar pelas últimas entradas, bentos temáticos com personagens do Angry Birds reproduzidos em bolinhos de arroz são o que há de quente na área.

Boa viagem!

(O Globo, Economia, 17.9.2011)

Compras online

Comprei dois objetos relativamente caros através do MercadoLivre, site de vendas que corresponde, no Brasil, ao norte-americano eBay. Bastou comentar o fato com amigos para ganhar status de criatura destemida, que gosta de viver perigosamente. O interessante é que eu não estava entre novatos na rede, mas sim gente bem familiarizada com a internet, com anos de estrada e muitas compras via amazon.com nas costas.

Não devia ter me surpreendido. Se ainda há quem não confie inteiramente em fazer compras online em empresas como o submarino.com.br, não é de estranhar a desconfiança num site de comércio eletrônico como o MercadoLivre, onde a negociação é feita indivíduo a indivíduo.

Todo mundo conhece alguma história de horror tendo o MercadoLivre como cenário, e o que não falta na rede são foruns e blogs de usuários lesados.

Contribuem para aumentar a ansiedade dos usuários a interface bisonha e a navegação horrenda do site, a falta de clareza dos seus textos e a ausência de um suporte no qual se sinta um mínimo de firmeza.

Mas tudo é relativo. Quantas histórias de horror todos nós não conhecemos envolvendo o comércio convencional? Nesse exato momento, a minha filha – para não ir mais longe – está às turras com uma loja de colchões safada que lhe vendeu um produto defeituoso e recusa-se a trocá-lo ou a recebê-lo de volta. Não ocorre a ninguém culpar o shopping em que a loja está localizada, porque há tempos assimilamos o fato de que um shopping é uma reunião de lojas, e não a loja em si mesma.

O MercadoLivre é essencialmente um shopping virtual, um ponto de encontro entre compradores e vendedores – mas, ao contrário dos shoppings da vida real, é, ao mesmo tempo, a grife sob a qual reúne-se toda essa gente.

“Toda essa gente”, de acordo com dados do próprio MercadoLivre, são mais de 55 milhões de pessoas, espalhadas por 13 países, que, em doze anos, foram responsáveis por meio bilhão de anúncios. São números impressionantes.

Nunca tive problemas com compras feitas por lá. No ano passado passei relativamente perto disso, mas a questão resolveu-se sem traumas: comprei um Nokia N95 de um vendedor de Salvador que, duas semanas depois, ainda não me tinha enviado o aparelho. Cancelei a operação, e ele restituiu o que eu havia pago. Final feliz, ainda que um pouco demorado. As recentes compras, feitas com dois diferentes vendedores, transcorreram sem sobressaltos.

É claro que é preciso um mínimo de cuidado na hora de gastar online. Recomendo a quem quer se aventurar em campo um mínimo de precauções. Desconfiar de preços muito maravilhosos é a principal delas: milagres não existem. Ler com cuidado a descrição do produto e as credenciais do vendedor é outro passo fundamental para quem quer evitar chateações. Cheque quantos produtos semelhantes ao que você quer ovendedor já vendeu, e leia as qualificações que recebeu de outros usuários. Não tenha medo de passar por chato, e faça, antes da compra, todas as perguntas que quiser a respeito do produto e do frete.

Pague da forma que lhe for mais conveniente em caso de produtos baratinhos, mas prefira usar o Mercado Pago quando o valor pesar no bolso. Como ele pertence ao MercadoLivre, sofre dos mesmos defeitos de nascença, da navegabilidade à clareza: acho que os dois estão entre as páginas menos amigáveis da rede. O sistema, porém, que utiliza o mesmo princípio do PayPal, é bastante seguro. O dinheiro é entregue ao Mercado Pago, que o repassa ao vendedor apenas quando o comprador confirma o recebimento da mercadoria.

A turma da foto de celular passou o 7 de setembro a postos. O Dia da Independência foi saudado por uma profusão de imagens em verde e amarelo, intercaladas por fotos das manifestações de protesto, subidas em tempo real. As fotos de hoje são exemplos do que se viu no Instagram. Passando o mouse por cima da foto, você vê o nome do autor e onde foi tirada.

(O Globo, Economia, 10.09.2011)

Dez anos de internETC.

O ano de 2001 começou com uma novidade chamada blog. O formato existia desde 1999, mas só em fins de 2000 começou a se difundir, a partir do lançamento do Blogger.com, um site que permitia a qualquer um criar o que, até então, exigia bons conhecimentos de HTML, servidor próprio e determinação. O blog, inicialmente conhecido como weblog, era uma espécie de diário online, onde você comentava assuntos do seu interesse, escrevia contos e poesias e, sobretudo, contava para as outras pessoas como a vida estava te tratando. Não tinha muita utilidade, e fazia sucesso sobretudo com adolescentes. Aqui e ali, porém, a turma mais conectada começou a fazer o que, hoje, se chama “produzir conteúdo”.

Criei um blog em abril de 2001, para ver que ferramenta era aquela, mas, de início, não tinha idéia do que fazer com ela. Em agosto, finalmente, cheguei à conclusão de que usaria aquele espaço para publicar o excedente de notícias que não conseguia por no jornal; assim, no dia 26, publiquei o meu primeiro post, falando dos bastidores de um Roda-Viva com Steve Ballmer, de que havia participado em São Paulo.

Steve Ballmer já era, então, o CEO da Microsoft, e me surpreendeu agradavelmente no contraste com Bill Gates, que eu entrevistara algumas vezes ao longo do tempo. Ballmer era simpático, e vivia o auge da sua fama pop: há semanas circulava pela internet uma esquisitíssima espécie de dança tribal que ele fazia para motivar a galera da Microsoft, e que havia sido filmada num encontro com desenvolvedores. O vídeo era ridículo e, consequentemente, fazia muito sucesso.

Naquele primeiro post, que ontem fez dez anos, me dei ao trabalho de calcular, com base no seu salário conhecido, quanto valiam as duas horas que ele havia dedicado à TV Cultura: US$ 159.817,35. Lembro ainda hoje que a cifra me deixou deprimida durante um bom tempo.

Depois disso, entre fotos, links, textinhos pequenos, pensatas variadas e reprodução das crônicas e colunas que escrevo para o jornal, foram 13.917 posts – que decidi, enfim, transferir de endereço. Desde que nasceu, o blog era escrito e publicado no Blogger, que, há dez anos, era a melhor ferramenta para isso. Hoje, defasado e antigo, ele sobrevive das glórias passadas e do fato de pertencer ao Google.

No último dia 20, publiquei, enfim, o primeiro post na casa nova, cujo endereço é – anotem – cronai.wordpress.com. Nele falei do processo de transferência e comentei algumas coisas que observei no WordPress. De todas, a mais irritante é a tradução aleijada, pela metade, que traz comandos em português, mas abre janelas de diálogo em inglês. Detesto isso!

Ora, por que me dei ao trabalho da mudança se, ainda outro dia, escrevi sobre o fim dos blogs? Por um só motivo: os blogs não vão acabar amanhã, e eu já não agüentava a incompetência do Blogger em relação às fontes vindas do Word. Fiquei triste em deixar para trás o lindo template que o Mario Amaya desenhou para mim há quase dez anos – as primeiras edições do blog usavam um template básico do Blogger; fiquei feliz com o aspecto limpo e despojado do novo blog e, sobretudo, com o recurso de rodízio automático da foto do cabeçalho.

O mais importante é que o novo blog foi aprovado pela maioria dos leitores. Fiz uma enquete em que 76,44% acharam a nova versão melhor do que a antiga, 13,09% acharam pior, e 10,47% têm a impressão de que dá na mesma. No total, votaram 191 pessoas.

Ainda estou aprendendo uns truques aqui e outros ali, mas, de modo geral, estou contente com o WordPress. Recomendo a mudança a usuários do Blogger, que não perderão nem textos nem comentários feitos nas caixas do próprio Blogger, e ganharão em rapidez e flexibilidade.

Aos que ainda não têm blog mas têm vontade de ter um, recomendo na verdade o Facebook, onde cada nota é um post com direito a comentários e onde, maravilha das maravilhas, a audiência já vem prontinha.

(O Globo, Economia, 27.8.2011)

Uma janelinha para o futuro

Houve um tempo em que as perguntas que eram feitas a nós, jornalistas da área de tecnologia, eram relativamente fáceis de responder:

— O que é hardware?

— O que é software?

— Mac ou PC?

Para as duas primeiras, Sérgio Faria, homem por trás do Catarro Verde, blog de grande sucesso, inventou uma definição hoje clássica: “Hardware é o que você chuta, software é o que você xinga”. Em relação à terceira, posso garantir uma coisa: se todas as palavras escritas sobre o assunto fossem colocadas uma ao lado da outra, a lista iria da Terra a Plutão e daria a volta. Tudo isso, vejam vocês, é do tempo em que Plutão ainda era um planeta.

As perguntas hoje são muito mais complicadas, porque envolvem, entre outras coisas, o futuro dos livros e do jornalismo e, de permeio, pegam o fator tablet. Semana sim outra também, recebo questionários de alunos aflitos que precisam entregar a pesquisa para ontem.

— Quais foram as mudanças que a web trouxe para o jornalismo?

— Como deve ser o jornalismo nos tablets?

— Em quantos anos acaba o jornalismo em papel?

— Os livros vão acabar?

Não, os livros não vão acabar porque, para dizer a verdade, dá para escrever um livro inteiro a partir de cada uma dessas perguntas (lidos daqui a cinco anos, porém, todos parecerão incrivelmente ingênuos e datados). Estamos, mal e mal, dando os primeiros passos de um caminho desconhecido, que nem imaginamos para onde nos levará. O “The Daily”, lançado para iPad por Rupert Murdoch para ser o jornal dos novos tempos, não me parece estar fazendo sucesso. Não sei quantos exemplares são baixados diariamente, mas a ausência de referências ao que quer que tenha publicado é conspícua. Em compensação, notícias dos bons e velhos jornais de papel, eventualmente em suas personas virtuais, não saem das caixas de ressonância da web.

Curiosamente, onde melhor vislumbro o que se pode ver da vastidão à nossa frente é na área dos livros, e não para o Kindle, onde apenas apresentam, em nova mídia, o seu conteúdo tradicional, mas nos tablets, onde experimentam a tecnologia que está a seu alcance. Os lançamentos mais criativos são, como seria de se esperar, na área dos livros infantis; mas, como já comentei aqui uma vez, há o exemplo encantador de uma tabela periódica (“The elements”) que é um sonho para qualquer um.

Há poucos dias, baixei “The fantastic flying books of Mr. Morris Lessmore”, da Moonbot Books, um encanto para qualquer angloparlante, grande ou pequeno. Seus autores, William Joyce e Brandon Oldenburg, contam que se inspiraram, em igual medida, no furacão Katrina, em Buster Keaton, no Mágico de Oz e na paixão pelos livros. A história, curiosa e paradoxalmente, é um hino de amor aos livros em papel: conta as aventuras de Morris Lessmore (cujo nome, em inglês, lê-se como “mais é menos mais”, more is less more), para quem a vida é um grande livro, e o que lhe acontece num maravilhoso ninho de livros voadores.

No “livro” do iPad, as crianças podem colorir a paisagem, mudar a direção dos ventos, tocar piano – mas, com tudo isso, a história segue sendo a principal atração. Não é um feito pequeno, e recomendo a todos os interessados em publicação eletrônica o download dessa pequena e poética amostra de futuro. Para quem não tem iPad, um pulo à página morrislessmore.com, na web, diz muita coisa.

O aplicativo de hoje é o Filter Mania, para o esquadrão do Instagram. O aplicativo, para iOS (leia-se Apple), destaca-se entre a multidão de semelhantes pelos filtros engenhosos e originais, como vocês podem ver pelas fotos. É gratuito, mas oferece pacotes de filtros adicionais pagos.
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(O Globo, Economia, 20.8.2011)
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Pequeninas poderosas


  
Uma das minhas lojas online favoritas é a americana Photojojo.com. Através de um design descolado, de muita interação com os clientes e de uma newsletter cheia de boas idéias (e não só produtos) ela conseguiu conquistar o coração de todo mundo que gosta de brincar de fotografia.

Brincar de fotografia, reparem, não é o mesmo que fotografar. A Photojojo.com não é uma B&H da vida, carregada com os equipamentos mais sofisticados; ao contrário, ela se especializa em soluções low-tech e em brinquedinhos, mesmo, como miniaturinhas de câmeras, canecas que, na parte exterior, imitam nos mínimos detalhes lentes poderosas – com modelos Canon e Nikon para satisfazer a todos – e coisinhas que fazem a alegria de quem gosta dessa brincadeira.

Exemplo típico do espírito da loja é uma lente Diana para DSLRs. Ou seja: por apenas US$ 60, você pode transformar a sua carésima e sofisticadésima câmera Canon ou Nikon numa verdadeira Lomo, e conseguir fotos horríveis e fora de foco sem qualquer esforço! O pior, confesso, é que fiquei muito tentada…

Mas o que mais gosto no estoque da Photojojo são os acessórios para celular. Essa semana, recebi minha compra mais recente: três minúsculas lentes que aumentam potencialmente o poder fotográfico dos aparelhos. Para quem usa celular em vez de câmera, elas representam um upgrade bem superior ao seu valor de US$ 49 (mais US$ 31 para envio – rápido – para o Brasil).

As lentinhas são uma tele, uma grande angular que se transforma em macro e, maravilha das maravilhas, uma olho de peixe sensacional. Das três, a menos relevante é a tele; a diferença que faz é pequena.

A grande angular cumpre bem o seu serviço. Faz um pouco de vignetting (aquelas manchas pretas que às vezes aparecem nos cantos da foto) mas, caramba, estamos falando de uma lentinha minúscula de alguns tostões, e não de uma lente Sigma de centenas de dólares…

Já a macro, que aparece quando a gente desenrosca a parte superior da grande angular, é ótima e difícil de usar, como acontece com as macros: é preciso achar a distância certa no olho e ter uma mão muito firme.

E a fisheye, ou olho de peixe, é uma das coisas mais divertidas que já vi. Imaginem transformar a humilde câmera do seu aparelho numa potência capaz de captar todo o entorno? Ela é ótima para paisagens, fotos de grupo, o que for.

O sistema, que se adapta a praticamente qualquer celular com câmera, é muito bem pensado, e vem com um anel de ferro achatadinho que se cola ao redor da lente do próprio celular (cada lente vem com dois desses anéis, de modo que comprando o trio fica-se com anéis de sobra para eventualidades); elas têm ímãs poderosos na base que se agarram ao anel e ficam bem presas. A sensação do conjunto na mão é de um instrumento estável, tanto que tive coragem de por o celular com lentinha e tudo para fora da janela para fotografar.

Os resultados dessas três belezinhas vocês conferem aqui na página.

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Fiz uma outra compra na Photojojo que ainda não testei, mas que me pareceu muito prática: um rebatedor de flash para flashes embutidos de DSLRs. Detesto flash, mas quando a luz é dirigida para o teto, aquele efeito horrível melhora muito. Este rebatedor é uma clássica solução low-tech, uma peça de plástico espelhada por dentro que se põe por cima do popup da câmera. Na semana que vem eu conto (e mostro) como funciona.

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O aplicativo da semana é o Photo Caddy, que existe tanto em versões Android quanto iOS. Não é novo, mas é excelente: um guia de bolso para as diversas situações que alguém que fotografa pode encontrar: aéreas, submarinas, lua, fogos de artifício, plantas, por aí vai.  Abre-se o tópico desejado e lá estão dicas e sugestões, equipamento ideal, espaço para notas individuais e observações de outros usuários. Excelente! Dois detalhes, porém: ele é em inglês e é pago (US$ 3,99).



(O Globo, Economia, 13.8.2011)


Quem quiser brincar de QR com o smartphone, é só apontar pro código acima para ver o álbum que fiz com as fotos das lentes; para quem quiser ver por aqui mesmo, basta clicar AQUI.