Barbante, sal, orquídeas

Antes que as sacolas plásticas tomassem de assalto o mercado, os lixões, as ruas e cada metro quadrado de território onde a mão do homem algum dia pôs o pé, as mercadorias do nosso dia-a-dia eram embrulhadas em papel. No açougue e nas peixarias usavam-se jornais, e ao que eu saiba ninguém jamais passou mal por causa da tinta, suposta razão pela qual eles perderam essa sobrevida; nas mercearias usava-se um papel cinza ou rosa, bastante grosseiro, que vinha em bobinas.

O papel das padarias tinha qualidade um pouco melhor, ou pelo menos assim me registra a memória: era o famoso papel de pão, que socorreu muita gente na hora de anotar um número de telefone às pressas. É o papel com que até hoje se fazem os saquinhos de papel.

Os embrulhos eram terminados com barbante. Nas mercearias e nas lojas de ferragens, por exemplo, havia verdadeiros especialistas em empacotamento, que não só amarravam o pacote muito bem amarradinho, como criavam, com o barbante, uma alça para que pudesse ser carregado. Lembro dos meus pais chegando em casa com esses embrulhos: um pedaço de queijo, biscoitos, alguma guloseima irresistível da Lidador.

Como vivia-se num outro mundo, ninguém jamais cortava o barbante de um embrulho. A graça era ganhar do barbante, desfazendo as suas voltas e os nós – quanto mais complicado, melhor.  E tínhamos, naturalmente, uma lata para guardá-los. Usava-se muito barbante lá em casa, sobretudo para a correspondência do meu Pai, que vivia mandando livros para os amigos espalhados pelo planeta.

As embalagens dos livros não podiam ser fechadas com cola, e volta e meia os serviços das crianças eram solicitados para a finalização dos embrulhos: enquanto uma criança segurava o meio do barbante com a ponta do dedo, um adulto se encarregava de dar o último nó. Depois disso, o livro estava pronto para seguir caminho.

Não vejo mais ninguém usando barbante para fazer embrulhos. Não entendo como uma coisa tão útil desapareceu tão rápida e completamente. Quando me mudei, ganhei da Mamãe um rolo de barbante, porque nenhuma casa podia ser chamada de lar se não tivesse um; pois passaram-se vinte anos, e o rolo de barbante continua intacto dentro do armário.

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Uma vez um amigo que trabalhava num jornal de São Paulo me contou que, anos atrás, o mais antigo assinante, um senhor do interior, cancelou a assinatura. Houve certa comoção por causa disso, e o jornal pediu a seu representante na área que fosse conversar com o assinante, para saber o que o desagradara tanto. Resposta? Nada. Apenas ele se aposentara, e vendera a quitanda. Assinava aquele jornal, especificamente, porque era o que tinha o maior número de páginas e dava para embrulhar mais coisas. Não sei se a história é verdadeira, mas me foi passada como tal.

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— Você usa barbante? – perguntei para a Laura.

— Sim, para fazer bife rolê Paris.

— Mais alguma coisa?

Longa pausa.

— Não.

Fiz a mesma pergunta para a Vanessa, a Bia, a Manoela. Vanessa, como a Laura, usa só para amarrar bifes; Bia usa de vez em quando para os balões das crianças; Manoela usou para pendurar uns saquinhos de tempero num gancho da cozinha.

Eu não me lembro mais de quando foi a última vez que usei barbante, mas essa semana mesmo recebi livros da Índia, que vieram amarrados com barbante, tal qual os pacotes que Papai enviava pelo mundo.

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Na mão inversa dos jornais embrulhando a carne e o peixe estão os insuportáveis saquinhos de sal e palitos. O que é que havia de errado com os saleiros e os paliteiros? Por que somos obrigados a usar essas coisas supostamente higienizadas, pasteurizadas, descaracterizadas? Quem é que consegue salgar o que quer que seja usando sal em saquinho?!

Há uma crença geral de que tais embalagens são produzidas por parentes de políticos, que estariam ganhando milhões com essa besteira. É uma teoria da conspiração tupiniquim e miudinha, mas não deixa de ter a sua lógica.

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Por falar em barbantes: e as orquídeas amarradas nas árvores? Existe coisa mais bonita? Um prédio compete com o outro para ver quem tem as flores mais vistosas. É uma das poucas coisas em que progredimos visivelmente: todos adoram as flores e todos as deixam em paz. Acompanhei um casal de turistas que parava a cada nova árvore para fazer mais uma foto:

— Are they real orchids?

— Sim, são orquídeas de verdade, mais autênticas impossível.

O Rio (também) tem dessas coisas.

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“Quinta-avenida, 5 da manhã”, de Sam Wasson (Editora Zahar, 256 páginas, tradução de José Rubens Siqueira) é a história de um filme e de seus personagens – os da tela, e os dos bastidores. Dito assim pode parecer um trabalho especializado, recomendável apenas para cinéfilos – mas nada mais longe da verdade. O livro, que propõe Audrey Hepburn no papel de Holly Golightly como marco do surgimento da mulher moderna, é leitura deliciosa para qualquer um, até mesmo, imagino, para quem nunca tenha visto o filme. Em cena, entre outros, Audrey Hepburn, Truman Capote, Blake Edwards e Edith Head, a über-figurinista que teve que aceitar os modelitos revolucionários de Givenchy (e que, anos mais tarde, serviria de modelo para a intratável Edna “E” Moda, de “Os Incríveis”). Não percam: este pequeno tesouro está numa livraria perto de vocês.

(OGlobo, Segundo Caderno, 15.9.2011)

Compras online

Comprei dois objetos relativamente caros através do MercadoLivre, site de vendas que corresponde, no Brasil, ao norte-americano eBay. Bastou comentar o fato com amigos para ganhar status de criatura destemida, que gosta de viver perigosamente. O interessante é que eu não estava entre novatos na rede, mas sim gente bem familiarizada com a internet, com anos de estrada e muitas compras via amazon.com nas costas.

Não devia ter me surpreendido. Se ainda há quem não confie inteiramente em fazer compras online em empresas como o submarino.com.br, não é de estranhar a desconfiança num site de comércio eletrônico como o MercadoLivre, onde a negociação é feita indivíduo a indivíduo.

Todo mundo conhece alguma história de horror tendo o MercadoLivre como cenário, e o que não falta na rede são foruns e blogs de usuários lesados.

Contribuem para aumentar a ansiedade dos usuários a interface bisonha e a navegação horrenda do site, a falta de clareza dos seus textos e a ausência de um suporte no qual se sinta um mínimo de firmeza.

Mas tudo é relativo. Quantas histórias de horror todos nós não conhecemos envolvendo o comércio convencional? Nesse exato momento, a minha filha – para não ir mais longe – está às turras com uma loja de colchões safada que lhe vendeu um produto defeituoso e recusa-se a trocá-lo ou a recebê-lo de volta. Não ocorre a ninguém culpar o shopping em que a loja está localizada, porque há tempos assimilamos o fato de que um shopping é uma reunião de lojas, e não a loja em si mesma.

O MercadoLivre é essencialmente um shopping virtual, um ponto de encontro entre compradores e vendedores – mas, ao contrário dos shoppings da vida real, é, ao mesmo tempo, a grife sob a qual reúne-se toda essa gente.

“Toda essa gente”, de acordo com dados do próprio MercadoLivre, são mais de 55 milhões de pessoas, espalhadas por 13 países, que, em doze anos, foram responsáveis por meio bilhão de anúncios. São números impressionantes.

Nunca tive problemas com compras feitas por lá. No ano passado passei relativamente perto disso, mas a questão resolveu-se sem traumas: comprei um Nokia N95 de um vendedor de Salvador que, duas semanas depois, ainda não me tinha enviado o aparelho. Cancelei a operação, e ele restituiu o que eu havia pago. Final feliz, ainda que um pouco demorado. As recentes compras, feitas com dois diferentes vendedores, transcorreram sem sobressaltos.

É claro que é preciso um mínimo de cuidado na hora de gastar online. Recomendo a quem quer se aventurar em campo um mínimo de precauções. Desconfiar de preços muito maravilhosos é a principal delas: milagres não existem. Ler com cuidado a descrição do produto e as credenciais do vendedor é outro passo fundamental para quem quer evitar chateações. Cheque quantos produtos semelhantes ao que você quer ovendedor já vendeu, e leia as qualificações que recebeu de outros usuários. Não tenha medo de passar por chato, e faça, antes da compra, todas as perguntas que quiser a respeito do produto e do frete.

Pague da forma que lhe for mais conveniente em caso de produtos baratinhos, mas prefira usar o Mercado Pago quando o valor pesar no bolso. Como ele pertence ao MercadoLivre, sofre dos mesmos defeitos de nascença, da navegabilidade à clareza: acho que os dois estão entre as páginas menos amigáveis da rede. O sistema, porém, que utiliza o mesmo princípio do PayPal, é bastante seguro. O dinheiro é entregue ao Mercado Pago, que o repassa ao vendedor apenas quando o comprador confirma o recebimento da mercadoria.

A turma da foto de celular passou o 7 de setembro a postos. O Dia da Independência foi saudado por uma profusão de imagens em verde e amarelo, intercaladas por fotos das manifestações de protesto, subidas em tempo real. As fotos de hoje são exemplos do que se viu no Instagram. Passando o mouse por cima da foto, você vê o nome do autor e onde foi tirada.

(O Globo, Economia, 10.09.2011)