Adeus a uma velha estante Durante muitos e muitos anos a estética da minha vida doméstica foi uma coisa meio mambembe. Os ambientes eram simpáticos e alegres — eu nem saberia viver de outra maneira — mas o dinheiro, como um cobertor curto, não dava para tudo. Tendo comprado o apartamento, não podia comprar os móveis; tendo comprado os móveis, não podia trocar o chão; tendo trocado o chão, não podia fazer a reforma do banheiro. Era preciso escolher. E a primeira escolha que fiz, assim que a poeira da mudança assentou, foi uma estante na sala, grande o suficiente para abrigar os meus discos, os meus livros e uma imensa tevê de 30 polegadas. Ela ocupava a extensão de uma parede, e era linda: toda em pau marfim, com frisos em rádica nas portas e um bonito detalhe em mármore no cantinho do bar. Fomos felizes juntas por vários anos. Quando a Sony Trinitron foi embora, porém, ela teve que sofrer uma modificação estrutural. Não ficou ruim, mas ali, sem que nenhuma de nós percebesse na hora, começou o fim da nossa relação. As pequenas prateleiras que entraram no vão antes ocupado pela televisão eram incongruentes, assim como o ressalto projetado para abrigar aquele monstrengo com seu descomunal tubo de imagem. Mais tarde, quando a música se mudou para a nuvem, a estante, que tinha recortes cuidadosamente projetados para abrigar uns tantos CDs, deu mais um passo em direção à obsolescência. Os CDs, ao contrário da TV, nunca foram embora; mas eu olhava para o espaço fantasma e para aqueles objetos agora desnecessários e sentia o passar do tempo. Passei os dois últimos anos vendo a minha velha estante com um olhar crítico. Com as mudanças que a vida fez na casa e em mim, o que era elegância virou excesso, o que era moderno ficou datado. Comecei a implicar com a madeira escurecida pela claridade, com o espaço que ela tomava, com o seu testemunho dos anos 90. Perdi o gosto de arrumá-la, e os livros e objetos empilhados só fizeram piorar a situação. Ainda assim, relutava em trocá-la. Com toda a sua inadequação ao novo século, ela continuava sendo um belo móvel, sólido e eficiente, daqueles que as visitas elogiam, cheias de admiração: “Ah, hoje não se consegue mais fazer uma peça assim!” Eu pensava na nossa história, pensava em quanto tive que economizar para mandar fazê-la e na satisfação que senti quando ficou pronta, e ia adiando a decisão. Até que, de repente, de um dia para o outro, tomei coragem. Há três semanas ela foi começar vida nova numa instituição filantrópica em Itaipava; há cinco dias, uma nova estante ocupa o seu lugar. É o seu exato oposto, básica, magra, em ferro e madeira — pouco ferro, pouca madeira. Pouca estante. Ainda não me acostumei com a mudança. É como se a casa tivesse cortado o cabelo, trocando os seus longos cachos louros por um corte castanho bem curtinho. Às vezes, de noite, quando estamos sozinhas na sala, a nova estante e eu, sinto um aperto no coração, imaginando como estará a minha velha amiga, e se será usada como era, ou se apenas as suas prateleiras serão reaproveitadas, como os órgãos doados de um corpo morto. Sinto que traí a sua confiança: ela nunca teria esperado isso de mim. Sinto até que traí a mim mesma, uma versão mais jovem de mim que tinha uma outra visão do mundo e da casa. Mas aí os livros por arrumar me olham da sua pilha e reviram os olhos metafóricos: — Deixa de ser emotiva, Cora Rónai! Era só uma estante. Os livros por arrumar. Estamos falando de mais de vinte anos de livros, e de um tipo muito especial, aquele que os angloparlantes definem como coffee table books: livros grandes e vistosos, belos objetos de papel e tinta, comprados mais por capricho do que por necessidade. Muitos dos meus coffee table books estavam exilados nas prateleiras superiores, das quais nunca mais haviam descido; vários tinham desaparecido da minha lembrança, junto com as razões que me levaram a adquiri-los. Virar lentamente as suas páginas é reencontrar blocos do passado, numa espécie de arqueologia sentimental que expõe a longa galeria dos meus arrebatamentos — história medieval, mergulho, design, tapetes orientais, livros e bibliotecas, fotografia, animais, cinema, mapas e globos, computadores, Egito Antigo, viagens, internet, as grandes guerras, Índia e China, Veneza e Constantinopla. Quanta coisa eu já soube. Quanta coisa eu já não esqueci. o O o Hoje à noite, a partir das 19hs, participo de um bate papo com Mentor Muniz Neto na Livraria da Travessa do Leblon. Neto, um dos campeões de popularidade das redes sociais, vem ao Rio lançar “Ódio, raiva, ira e outros prazeres diários”, coleção de pequenas fábulas urbanas. Sou fã dele, e fã deste livrinho precioso cuja quarta capa escrevi de puro entusiasmo, antes mesmo de conhecer o autor pessoalmente. Neto é um observador extraordinário do cotidiano, especialista em notar o que vemos sem perceber, e mestre em apontar o ridículo universal da existência. Ele transita entre a ternura e a crueldade com desenvoltura e com um senso de humor infalível, e com isso conquistou uma legião de fãs que curtem o que ele escreve antes mesmo de ler o que foi escrito. Nós vamos conversar sobre ódio, raiva, ira e outras emoções cotidianas na internet. Apareçam! (O Globo, Segundo Caderno, 20.8.2015)

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