Adeus, Iêmen

Não é incomum que os países que eu gosto de visitar apareçam cheios de avisos aos navegantes nos guias de viagem e na internet. No fim do ano passado, porém, buscando hotéis no Trip Advisor, esbarrei, pela primeira vez, com uma advertência oficial que recomendava aos viajantes não só não ir como, estando, sair o mais rápido possível. Isso eu ainda não tinha visto.

“O Departamento de Estado dos EUA adverte os cidadãos americanos do alerta de segurança máximo no Iêmen devido a atividades terroristas e distúrbios civis. O Departamento exorta os cidadãos americanos a adiarem viagens ao Iêmen, e aos que lá se encontram atualmente a partir.”

Não sou americana nem sou de levar muito a sério recomendações de burocratas sentados a quilômetros de distância, mas ignorar algo tão enfático não chega a ser uma atitude inteligente, de modo que lá se foi o meu antigo sonho de viagem para a prateleira dos destinos perdidos, junto com tantos outros países e cidades cujos simples nomes bastam para evocar séculos de encanto e de histórias, como Bagdá, Timbuctu, Peshawar, Kandahar, Mogadishu…

Assim como Timbuctu, hoje reduzida a 15 mil habitantes e se desfazendo nas areias do Sahara, Sanaa, a capital do Iêmen, também foi declarada Patrimônio Mundial da Unesco. As construções mais antigas e pitorescas das duas cidades não são exatamente parecidas, mas têm um certo sotaque de deserto em comum, e uma beleza tão original que chega a tirar o fôlego até em cartão postal. Em Sanaa elas podem ter nove andares, e são decoradas com pinturas que já chamavam a atenção dos visitantes no Século X.

Além dessa cidade fascinante, eu sonhava conhecer Socotra, uma espécie de Galápagos do Oceano Índico, que parece outro planeta com as suas árvores que não existem em nenhum outro lugar do mundo — mas está mesmo difícil.

Há coisa de duas semanas, Sanaa foi tomada por militantes Houthis, que assinaram um acordo de paz com o governo. Nem por isso a situação parece perto de se resolver. Os rebeldes ainda ocupam vários pontos da capital e controlam as suas vias de acesso, disputando espaço com a franquia mais violenta da Al Qaeda, natural do país. O site da nossa embaixada vai direto ao ponto:

“A situação de conflitos internos não recomenda o turismo.”

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O que faz alguém que descobre que tão cedo não vai ao Iêmen? Manda vir livros, evidentemente. Assim é que me peguei lendo Freya Stark pela primeira vez.

Esta é uma daquelas personagens excêntricas produzidas com tanta regularidade pelo antigo Império Britânico: nascida na França e educada na Itália, viveu cem anos e foi agente do governo, fotógrafa, historiadora e exploradora, na época em que a acepção dessa palavra ainda era positiva. Falava árabe e persa fluentemente e casou-se em 1947, aos 54 anos de idade, com um diplomata e historiador homossexual, do qual separou-se em 1952. Entre uma coisa e outra ainda arranjou tempo para escrever duas dúzias de títulos autobiográficos e de viagens, embora hoje seja menos lida do que festejada como exemplo de mulher que não se curvou às restrições sociais.

Alguns dos seus livros mais conhecidos continuam sendo editados nos países de língua inglesa mas, ao que eu saiba, nenhum chegou a ser publicado no Brasil. Comecei com “A winter in Arabia”, um inverno na Arábia, escrito em 1937 durante uma viagem pelo Iêmen. Não foi paixão à primeira vista.

“Observada do alto, a borda tripla, preguiçosa e rendada das ondas avançava lentamente; elas não quebravam de uma vez, mas se desenrolavam de ponta a ponta num movimento em espiral, como se fossem o coração de uma concha se desenrodilhando. Nosso avião pairava sobre o azul do mundo com asas de prata.”

Ahn? Ondas rendadas? Azul do mundo? Asas de prata? E ainda estávamos na página 1! Não, aquela leitura não prometia ir longe. Mas insisti um pouco; afinal, em 1937 aviões ainda eram suficientemente raros para justificar certos voos literários. E não é que valeu à pena? Quando não se preocupa em fazer literatura, Freya Stark é uma ótima companhia: é destemida, observadora, aprecia gente e não tem frescuras. Gosto sobretudo da irritação que manifesta em relação a uma insuportável arqueóloga com quem faz parte da viagem, e das descrições do cotidiano nas pequenas aldeias. Sua abordagem em relação às condições de higiene locais continua valendo: tomar as precauções possíveis para evitar desastres, mas sem estresse e sem deixar de aproveitar a boa comida que se encontra pelo caminho.

O mundo que ela percorre parece estar a muitos séculos de nós. Ainda havia escravos no Iêmen de 1937, e as mulheres, que passavam a vida trancadas em casa, não podiam ir a parte alguma sem estar acompanhadas por pai, marido ou irmão. Agora já não há escravos no país, pelo menos não oficialmente, mas a situação das mulheres continua a mesma, se não pior. O fato é que, há 77 anos, Freya Stark circulava sozinha pelo interior e conversava cordialmente com os homens e mulheres que encontrava, coisa que hoje já não seria possível.

Pensando bem — o que mesmo é que eu ia fazer lá, hein?

(O Globo, Segundo Caderno, 9.10.2014)

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