Celulares e aviões

Ontem a Tam me mandou um desses questionários de satisfação de clientes, querendo saber o que achei do último voo que fiz para São Paulo. Timing perfeito! Eu estava mesmo querendo desabafar, e fiquei muito contente com a oportunidade oferecida. É que já não aguento mais o obscurantismo tecnológico que continua obrigando passageiros brasileiros a desligarem seus aparelhos eletrônicos durante pousos e decolagens, mesmo que esses aparelhos sejam inócuos como Kindles, câmeras digitais ou smartphones em modo avião.

Vocês leram a notícia aqui mesmo no jornal, há alguns dias — até a União Europeia, sempre tão prudente e conservadora, já liberou o seu uso; nos Estados Unidos, isso já acontece há pelo menos um ano. A decisão foi tomada com base no relatório final produzido por uma comissão de 28 membros representando companhias aéreas, fabricantes de aeronaves e de gadgets, pilotos e comissários de bordo. Mas, nos aviões da Tam, continua valendo a lenda urbana que reza que aparelhos eletrônicos derrubam aviões.

Reclamei disso há alguns dias, e a pequena nota que escrevi deu panos para as mangas. A maioria das pessoas não entendeu a minha postura em relação ao problema. Não é que eu ou qualquer outro passageiro não possamos passar algum tempo sem celular; é que a proibição, nos moldes em que é feita hoje, é ofensiva à inteligência de qualquer um que tenha dedicado um mínimo de reflexão ao assunto.

Se smartphones representassem qualquer perigo aos voos seriam simplesmente proibidos a bordo. É claro que não seriam jogados fora, como as indefesas tesourinhas de unha, mas seriam recolhidos antes do embarque e entregues aos passageiros depois do desembarque: isso acontece regularmente na Índia, por exemplo, com as facas dos passageiros sikhs, obrigados a carregá-las consigo por questões religiosas.

Muita gente apoia a proibição com medo de que os voos passem a ficar mais insuportáveis do que já são, com todos os passageiros falando ao mesmo tempo; mas essa é outra questão, que cabe decidir de outra maneira. Nos Estados Unidos o FCC proíbe conversas ao telefone durante toda a duração do voo, o que garante a (possível) paz a bordo, mas não impede que os passageiros leiam ebooks, trabalhem no computador, brinquem com seus joguinhos ou fotografem os pousos e decolagens.

o O o

Estamos a seis anos de uma marca histórica: em 2020, nosso consumo de dados poderá atingir 1GB por dia, o equivalente a dois filmes full HD. Isso será 122 vezes mais do que hoje, mil vezes mais do que em 2010. A previsão é da Nokia Networks, aquela parte da Nokia que não foi comprada pela MIcrosoft, e que continua funcionando firme e forte em Espoo, na Finlândia.

Faz sentido. Basta observarmos a forma como usamos os nossos smartphones, cada vez menos telefones e cada vez mais aparelhos multimídia para conexão e transferência de imagens, músicas, filmes. Mesmo os dados de quem não sabe fazer upload, e que teria dificuldade em explicar o que exatamente é “a nuvem”, são transferidos, imperceptivelmente, quando a opção de backup automático é ativada nos celulares. Com câmeras cada vez mais potentes, capazes de produzir vídeos e imagens cada vez mais pesados, não chega a ser difícil perceber como chegaremos, rápido, ao gigabyte universal.

A demanda de uso da internet móvel, aliás, promete ser um dos grandes temas da Futurecom, grande pajelança tecnológica que acontece este mês em São Paulo, reunindo o “quem é quem” da área de telecomunicações. A feira costuma ser grande e cansativa, mas é uma excelente oportunidade para se descobrir a quantas anda o mercado, e quais são as novidades que estão no forno.

(O Globo, Sociedade, 3.10.2014)

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