O Fiat, o contrabandista e a mãe de santo

“– Sempre achei que essa história seria bem compreendida no Brasil, onde os rituais do candomblé são tão parecidos com os dos exorcistas marroquinos” — concluiu Tahir Shah (depois de contar como livrou a Casa do Califa de uma infestação de espíritos). Eu estava pronta para contestar, do alto do meu ateísmo e da minha descrença universal, quando me lembrei de um caso que me aconteceu há muitos e muitos anos, e que envolveu um Fiat 147, um contrabandista e uma mãe de santo. Eu contaria essa história agora com o maior prazer, mas como o espaço já está no fim, ela fica para a semana que vem.”

Assim terminou a crônica da semana passada. Cumpro a promessa:

O caso aconteceu há muito tempo, no começo de um ano de que não lembro mais. Eu havia passado o Réveillon no sítio, em Nova Friburgo, e já no dia primeiro estava na estrada, sozinha, a bordo do meu Fiat 147, voltando para o batente. Vinha distraída numa reta quando fui parada por um grupo de pessoas nervosas:

— Para! Para!

— Um desastre!

— Dois carros!

— Uma família inteira…

— As crianças, coitadas!

— Muito sangue!

— Uma desgraça, uma desgraça!

Todos falavam ao mesmo tempo. Ali na frente, a poucos metros, os dois veículos destruídos, uma figura que eu não sabia se estava viva ou morta no meio da estrada, mais adiante um carro branco com as portas abertas, cercado por outras pessoas.

É curioso como funcionam as nossas lembranças: eu não me lembro de ter registrado se o corpo na estrada era de homem ou de mulher, mas me lembro do carro branco em detalhes, um adesivo horizontal no vidro traseiro. Também me lembro de ter me perguntado de onde havia saído aquela gente toda, já que além dos carros envolvidos no acidente não havia nada na estrada a não ser o tal carro branco, mas logo percebi uma birosca na beira do mato e umas casinhas miúdas.

— Moça, você leva a mulher do carro, que está muito mal.

Não era uma pergunta. Também não era uma ordem. Era apenas a conclusão a que alguém havia chegado a respeito do que devia ser feito. Antes que eu pudesse responder, a porta traseira do Fiat já estava sendo aberta, e uma senhora, que sangrava muito, foi deitada no banco. Um dos homens que a havia trazido bateu a porta e me mandou correr.

— Ali adiante tem um hospital, não fica longe.

Pode até ser que ficasse perto, mas o tempo de chegar me pareceu uma eternidade. Era evidente até para mim, que nunca havia visto uma pessoa agonizante, que a pobre mulher estava morrendo: respirava em bolhas, fazendo um barulho surdo, terrível. Depois de um tempo o barulho acabou, mas o silêncio era ainda pior. No meio do caminho, um carro da polícia havia emparelhado com o meu, e sinalizado para que o seguisse. Os policiais me escoltaram até o hospital, tomaram todas as providências necessárias e me disseram que eu não precisava me preocupar com mais nada: meu nome não constaria do BO.

Cheguei ao Rio moída, as lembranças horríveis martelando na cabeça. Não consegui dormir. No dia seguinte bem cedo fui até o posto para lavar o Fiat, mas quando viram aquela sangueira toda os funcionários se recusaram a tocar no carro. Percorri os outros postos da vizinhança, e em todos encontrei a mesma reação. Finalmente voltei para casa e o porteiro cuidou do assunto.

Mas o carro ficou esquisito; algo continuava errado. Mandei lavá-lo num lavajato. Não adiantou. Levei-o ao posto que, segundo meus amigos, fazia a limpeza mais bacana da cidade. Troquei os tapetes. E nada. Passei a me sentir muito mal dentro do querido Fiat e, muito a contragosto, decidi vendê-lo.

— Mas vai vender o carro novinho, que acabou de comprar? — perguntou o My
Friend, meu amigo contrabandista. — Por que?

Contei o que havia acontecido.

— É, a energia ficou pesada, — constatou. — Liga para a Mãe Deocleciana, ela pode dar um jeito nisso.

Fazia sentido. Com quem mais eu poderia resolver um problema daqueles? De modo que, no dia seguinte, liguei para o número que ele me havia dado. Mãe Deocleciana atendeu do outro lado, muito gentil. Eu disse quem era, falei do My Friend e contei a história.

— Que coisa, minha filha. Você tem um bom advogado?

— Tenho sim.

— Perfeito, perfeito. Isso é o mais importante. Pessoa morta, sangue no carro, não se pode facilitar com essas coisas… Agora você vai levar esse carro numa encruzilhada, vai acender uma vela em cada esquina e vai queimar uma buchinha de café dentro dele, viu?

Ela me ensinou como fazer a tal buchinha e, na calada da noite, lá fui eu para uma encruzilhada no Andaraí, morta de medo de ser vista por algum amigo. Cumpri as instruções, envergonhadíssima por ter embarcado naquela bobagem.

Mas, no dia seguinte, quando peguei o carro para levá-lo à revendedora, ele estava curado: voltara a ser o meu lindo Fiat 147, com as boas vibrações de sempre. Continuamos juntos e felizes ainda por vários anos. Quando liguei para Mãe Deocleciana para agradecer e para perguntar quanto lhe devia, ela respondeu que não era nada, ora essa. E despediu-se com um conselho:

— Cuidado na estrada!

(O Globo, Segundo Caderno, 2.10.2014)

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