O escritor e os exorcistas

Quando, numa fria tarde londrina, Tahir Shah perguntou à mulher o que ela achava de mudarem-se de armas e bagagens para o Marrocos, a resposta foi tão calorosa, e tão cheia de entusiasmo, que ele atirou-se imediatamente à procura de uma casa. Sua alegria, porém, durou pouco. Em vez de “Morocco”, nome do país em inglês, Rachana tinha entendido “Monaco”; e, quando ela passou a estranhar as suas constantes referências a Casablanca, Fez e Marrakech, ele se deu conta de que estava diante de um sério caso de ruído na comunicação. Assim começou uma aventura que já dura dez anos, e que deu origem a um dos melhores livros que li ultimamente, “A casa do califa” — aquele mesmo que recomendei há algumas semanas.

Descobri Tahir Shah assim que voltei do Marrocos, no começo deste ano. Fiquei tão encantada com o país que decidi aprender mais a seu respeito, e mandei vir uma quantidade de livros da Amazon. Comecei com “A house in Fez”, em que a neo-zelandesa Suzana Clarke conta como comprou e reformou uma casa na fantástica citadela medieval, mas este livrinho, ainda que bem escrito, não chegou a me cativar. Parti então para “A casa do califa”, de que gostei tanto que, ainda no segundo capítulo, fui novamente ao site da Amazon, para pedir o que mais o autor houvesse escrito.

Nem precisava ter ido tão longe: além de “A casa…”, a editora Roça Nova também já publicou aqui “Nas noites árabes”, uma espécie de continuação do primeiro, em que às histórias da adaptação da família à vida em Casablanca misturam-se contos das “Mil e uma noites”. Este foi outro volume que devorei em dois tempos, e do qual custei a me separar. Mesmo depois de terminada a leitura, voltei várias vezes ao livro, um capítulo aqui, outro ali, para reencontrar o Oriente mágico dos meus sonhos, infelizmente cada vez mais distante na vida real.

Eu ainda estava nesse namoro quando uma amiga me mandou um email perguntando se eu gostaria de bater papo com Tahir Shah na Livraria da Travessa. Ora, como não! Assim foi que, na segunda-feira passada, lá estávamos os dois, conversando sobre viagens, travel writing — aquele gênero literário que ainda não tem tradução adequada em português — e, claro, a famosa casa do califa. Para mim, foi como se Tahir Shah tivesse se materializado por um passe de mágica, ou saído de uma lâmpada maravilhosa. Afinal, quais são as probabilidades de que o autor que você mal acabou de descobrir esteja de viagem marcada para a sua cidade?

Como sabem os que leram o livro, a velha casa, que passara uma década desabitada, estava caindo aos pedaços quando Tahir, Rochana e seus filhos Ariane e Timur se mudaram para lá. Tudo precisava ser refeito, rejuntado, repintado. Este tipo de obra é uma dor de cabeça em qualquer lugar do mundo, mas no Marrocos, como em boa parte do mundo árabe, há um problema adicional: os djinns, espíritos que, supostamente, habitam todos os cantos. Ora, segundo os guardiões de Dhar Khalifa, a casa estava infestada deles, que precisavam ser despachados para que ela se tornasse de novo habitável. De início, ninguém deu muita bola à advertência, mas logo coisas estranhas começaram a acontecer. Objetos sumiam, manchas surgiam nas paredes do nada, móveis mudavam de lugar. Um dia, os gatos da família apareceram mortos.

Para mim, isso teria bastado para atravessar o oceano e nunca mais pôr os pés na vizinhança — não sem antes demitir os empregados! –, mas Tahir Shah é do tipo que não desiste nunca. Ele chamou os seus funcionários, que já viviam na casa há gerações, e perguntou o que é que achavam que devia ser feito para resolver o problema. E seguiu o seu conselho:

— Se eu morasse em Londres ou em Paris teria tido muita dificuldade para encontrar exorcistas, — contou ele, durante a nossa conversa. — Mas achar exorcistas no Marrocos não chega a ser um problema, e sai até bastante em conta. De modo que contratei vinte exorcistas, que trouxeram outros quatro de lambuja. Durante vários dias e várias noites eles ocuparam a casa, fazendo barulhos, dançando, tocando instrumentos. Sacrificaram diversas cabras, que depois comeram com gosto. A casa ficou ensopada de sangue. Minha mulher estava histérica, queria que os mandasse embora imediatamente; mas eles disseram que só iriam quando tivessem terminado o serviço. Concordei, até porque estava fascinado com aqueles rituais. Um belo dia, sem quê nem por que, os exorcistas entraram no caminhão em que haviam chegado e foram embora. Antes de partir, me entregaram uma folha de papel vagabundo rabiscada à mão: era um certificado de conclusão dos trabalhos, atestando que a casa estava livre de djinns pelos próximos vinte anos. Desde então, não tivemos mais problemas com eles.

— Sempre achei que essa história seria bem compreendida no Brasil, onde os rituais do candomblé são tão parecidos com os dos exorcistas marroquinos, — concluiu nosso herói. Eu estava pronta para contestar, do alto do meu ateísmo e da minha descrença universal, quando me lembrei de um caso que me aconteceu há muitos e muitos anos, e que envolveu um Fiat 147, um contrabandista e uma mãe de santo.

Eu contaria essa história agora com o maior prazer, mas como o espaço já está no fim, ela fica para a semana que vem.

(O Globo, Segundo Caderno, 25.9.2014)

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