O recado da Motorola

Eu estava conversando com Rick Osterloh, e não conseguia tirar os olhos do telefone que ele segurava: um aparelho grande, fino, com as laterais em metal escuro e as costas num couro marrom avermelhado, sem dúvida o smartphone mais bonito que já vi, Nokias inclusive. Rick Osterloh é o principal executivo da Motorola; nós estávamos num estádio de beisebol em Chicago, e o novo Moto X seria oficialmente apresentado à imprensa no dia seguinte, num evento na sede da empresa.

Naquele momento — quarta-feira da semana passada — todos os jornalistas de tecnologia estavam com os olhos voltados para Berlim, onde se realizava a IFA, a grande feira europeia de tecnologia e eletroeletrônicos. Fazer o lançamento em Chicago foi uma aposta audaciosa da Motorola Mobility, mas quando chegamos à sua sede, na manhã do dia seguinte, entendi a ideia. A empresa atravessa um momento delicado, uma espécie de limbo corporativo: foi vendida pelo Google à gigante chinesa Lenovo em janeiro passado, mas o negócio, ainda sob análise de agencias governamentais, só deve ser concretizado no fim do ano. Os louros pelos novos lançamentos cabem à Google, mas os eventuais lucros serão da Lenovo. E a Motorola, em si, nessa história toda?

Ora, fazer o lançamento em Chicago foi uma forma de dizer, enfaticamente, que ela está onde sempre esteve — só que mais ágil e mais contemporânea, para não dizer mais elegante. A nova sede, ocupando 55 mil m2 nos quatro últimos andares de um edifício histórico no centro da cidade, adquirida logo depois da compra pelo Google, em 2011,  é um primor de arquitetura e design. As áreas são amplas, a decoração trabalha com cores vivas e materiais aparentes, e o todo remete mais à cultura leve da indústria de software do que ao mundo pesado de engenharia do hardware. E, no entanto, esse espaço estiloso abriga nada menos de sete laboratórios de tecnologia, do tipo que, até aqui, eu só tinha visto em áreas de periferia sem qualquer atrativo. O ar de prosperidade esconde o fato de que a empresa ainda está no vermelho, e revela confiança no futuro.

— Nós estamos absolutamente tranquilos em relação à Lenovo, — observou Rick Osterloh, durante a nossa conversa. — Eles conhecem bem a forma como trabalhamos e apoiam a nossa estratégia. Devemos permanecer neste curso daqui para a frente.

A estratégia, como já sabemos desde os lançamentos do ano passado, é fechar o foco em poucos e bons — na verdade, ótimos — aparelhos, e vende-los aos preços mais baratos do mercado. Graças a isso, os novos  Moto X e Moto G custam R$ 1,5 mil e R$ 700, respectivamente, na melhor relação custo-benefício da área: não há nada melhor do que eles nas suas faixas de preço. Os dois estavam disponíveis na loja da Motorola brasileira já no dia seguinte ao lançamento, trunfo que fez a alegria de Sergio Buniac, country manager da empresa. Tanto o Moto X quanto o Moto G só ganham o mundo lá para o fim do mês.

Os novos aparelhos seguem as linhas minimalistas dos seus antecessores, mas ficaram maiores, têm câmeras melhores e ganharam detalhes caprichados de acabamento. Uma das coisas de que mais gostei em relação ao Moto X, além do visual matador, foi um carregador especial, vendido à parte, que tem a capacidade de injetar-lhe mais oito horas de serviço em reles 15 minutos. O Moto G, agora com tela de 5″, segue a tradição das capinhas coloridas; o Moto X pode vir com acabamento em couro ou madeira, além do plástico tradicional.

Além deles, a Motorola apresentou em Chicago o seu relógio inteligente, o Moto 360, e um pequeno fone de ouvido, o Hint, praticamente imperceptível, que atende a comandos de voz. Ambos chegam ao Brasil no ano que vem.

(O Globo, Sociedade, 12.9.2014)

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