Lumia 530: nas nuvens

Olhei para baixo. No gramado da Hípica de Santo Amaro, em São Paulo, dois cavalinhos, montados pelos respectivos cavaleiros, faziam evoluções. Estavam longe, não se viam muitos detalhes; confesso que eu também não conseguia olhar com atenção. É que eu estava a 50 metros do chão, sentada numa cadeira que, em tese, flutuava na atmosfera enquanto eu almoçava. Só em tese. Na prática, ela fazia parte de uma estrutura de ferro, muito solidamente implementada, que unia uma grande mesa a 22 cadeiras; mas não havia chão sob os meus pés, e uma das várias coisas que me angustiavam era o medo de que os meus sapatos caíssem lá de cima. Medos, como sabemos, são frequentemente irracionais; os mocassins que eu estava usando só saem dos pés se forem propositadamente descalçados. Mas desconfio que, mesmo que estivesse de botas muito bem amarradas, eu sentiria a mesma sensação.

Vivi essa experiência esquisita com um grupo de colegas convidados pela Microsoft para o lançamento do Lumia 530, pequeno e poderoso smartphone que acaba de chegar às lojas. Almoçamos nas nuvens, suspensos por um guindaste, em homenagem aos 15GB de espaço no OneDrive que ele oferece, gratuitamente, aos seus usuários. E ainda há quem diga que a tecnologia não é uma área de emoções fortes…

Mas, lançamento criativo ou não, o fato é que a Microsoft tem todos os motivos para festejar este aparelho: ele é o primeiro smartphone dual chip competente e atualizado a custar menos de RS 400 (o preço oficial, de R$ 399, ainda deve cair nas promoções das operadoras). Rodando o WP 8.1, que só agora começa a chegar aos demais aparelhos da plataforma, e com tela LCD de 4″, câmera de 5MP, 512MB RAM, 4GB de memória interna (expansíveis até 128GB com cartão SD), processador Qualcomm Snapdragon 200 de 1,2GHz, ótima bateria e aplicativos importantes como o Office e o Here Maps pré-instalados, ele tem especificações técnicas surpreendentes para a faixa de preço, e é muito bonitinho e bem acabado.

Seu antecessor 520, que custava 25% a mais na época do lançamento, há cerca de um ano, fez tanto sucesso, mas tanto sucesso, que acabou sendo um dos grandes responsáveis pela expansão do Windows Phone no país: a plataforma móvel da Microsoft, atualmente em segundo lugar na preferência dos brasileiros, superou em volume de vendas o iOS da Apple. O Lumia 530 deve ampliar a vantagem por uma boa margem, já que a concorrência direta, os Androids da mesma faixa de preço, não chegam aos seus pés nem no visual, nem no desempenho.

A estratégia da Microsft está à altura dessa belezinha de aparelho. O ponto fraco do Windows Phone ainda é a loja de aplicativos, e ela só poderá fazer frente às lojas da Apple e do Android quando tiver uma base de usuários suficientemente grande para convencer os desenvolvedores a criarem versões WP para os seus produtos. Ora, essa base não se cria só com topos de linha. A extraordinária expansão do Android, que hoje domina o universo dos smartphones, aconteceu graças à oferta de aparelhos em todas as faixas de preço: uma pesquisa rápida no Buscapé mostra LGs, Samsungs e Orions a partir de R$ 200. Sim, é verdade que eles têm câmeras de 2MP e sistemas operacionais inteiramente desatualizados, mas estão aí, são vendidos e é através deles que muitas pessoas descobrem o mundo maravilhoso dos smartphones. Quando elas estiverem prontas para fazer upgrade, é provável que busquem outros Androids, até para não perderem os aplicativos eventualmente adquiridos.

(O Globo, Sociedade, 29.8.2014)

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