Livros, livros, livros

Até outro dia as provas dos livros enviadas antecipamente para jornalistas vinham em cópias xerox encadernadas naquelas capinhas de plástico com espiral, e era preciso um interesse muito grande pela obra para encarar a difícil leitura. De uns tempos para cá, porém, algumas editoras têm antecipado seus lançamentos mais importantes em exemplares muito bonitinhos, quase iguais à versão final que chegará às livrarias. Eles vêm frequentemente com a capa definitiva, mas não têm orelhas, e trazem, na capa ou nas primeiras páginas, a informação de que são apenas provas, sujeitas ainda a eventuais erros de revisão.

Foi nesse formato para poucos que li “Tempos extremos”, o fantástico romance da Miriam Leitão (ainda não leram? pois corram imediatamente à livraria mais próxima!) e “A verdade sobre o caso Harry Quebert”, de Joël Dicker (um policial tão incensado pela crítica europeia que acabou me desapontando por ser apenas bom), e é nele que estou às volta com “O pintassilgo”, de Donna Tartt. Os dois primeiros são lançamentos da Intrinseca, o terceiro é da Companhia das Letras. Faz sentido: ambas são grandes casas, que cuidam exemplarmente dos seus lançamentos.

Comecei a ler “O pintassilgo”, que acaba de chegar às livrarias brasileiras, pouco antes de viajar para Montreal. Embora leia muito rápido, 720 páginas são 720 páginas; dois dias antes de embarcar, eu mal havia lido cem delas. Assim, pela primeira vez na vida me vi diante de um caso de Kindle agudo: não fazia nenhum sentido levar aquele tijolão na viagem. Mas eis que, por conta da briga da Amazon com a Hachette, não havia versão digital à venda; de modo que, muito a contragosto, interrompi a leitura.

Passamos duas semanas longe um do outro, o livro e eu. Situação perigosa: um intervalo desses é suficiente para interromper qualquer leitura para sempre. “O pintassilgo” tem, no entanto, tudo o que eu gosto num livro. Tem uma história envolvente, tem personagens interessantes, tem ritmo, tem referências culturais na medida certa e, finalmente, tem tamanho: adoro livros grandes, que me oferecem mundos para explorar por muitos e muitos dias. Nesse momento, vou mais ou menos a meio do romance. Ainda falta um bocado para chegar ao fim mas, pelo menos até aqui, está valendo cada palavra.

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Estou gostando também da tradução de Sara Grünhagen, embora já tenha esbarrado duas vezes num problema que sempre me aflige em traduções de ficção: nomes de pássaros e plantas, comuns ou simples no país de origem, que acabam soando pedantes em todas as línguas que leio, e ganhando um destaque que não têm no original. Por exemplo: logo no começo, Theo Decker, o narrador, descreve a mãe como “um elegante chupim-do-brejo”.

Ora, eu amo pássaros, conheço os nomes de vários deles, mas tive que ir ao wikiaves para ver de quem se tratava: uma ave engraçadinha, mas sem nada de particularmente característico. E aí fiquei pensando, como sempre fico nesses casos, se não teria sido melhor trair o original, substituindo o chupim-do-brejo por um outro passarinho de nome menos esdrúxulo, em prol de uma leitura mais fluida (no original, Theo se refere a um “long elegant marsh-bird”, ótimo nome que já traz a explicação, “bird”, incluída no pacote — e que ainda assim é suficientemente simples para não dar-lhe ares de ornitologista ou observador de aves).

OK, OK. Eu sei que “O pintassilgo” deve ter bem umas 400 mil palavras, calculando por baixo, e eu aqui implicando com nome de passarinho. Mas não é pessoal: é que há tempos venho matutando sobre essa questão.

Pronto, passou.

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Outra questão que me pega volta e meia: o “prazo de validade” dos livros. Acho triste que sejam lançados, comentados durante um breve período, e depois desapareçam no mundo. Sei que são milhares, que a fila anda e que é preciso abrir espaço para as novidades, mas — e quando o momento em que estamos prontos para a leitura não coincide com o momento do lançamento? Digo isso porque alguns dos livros que mais me encantaram este ano, e que recomendo de coração, não são lançamentos recentes. “River Town”, de Peter Hessler, de que já falei aqui, foi publicado em 2001; “Baghdad without a map”, de Tony Horwitz, que estou lendo paralelamente a “O pintassilgo”, é de 1991; “A casa do califa”, de Tahir Shah — sim, há uma edição em português, da Roça Nova Editora — mais recente, já tem, mesmo assim, oito anos. Mas há oito anos eu não sabia que ele existia, e nessa ignorância permaneci até ir ao Marrocos no começo deste ano e começar a procurar livros sobre o país…

“A casa do califa” é a deliciosa memória da reforma e da ocupação de uma casa cheia de personalidade e de assombrações em Casablanca, e fiquei triste de não tê-lo descoberto antes de viajar, porque certamente teria visto a cidade com outros olhos. O livro foi comparado pelo mundo afora com “Um ano na Provence”, de Peter Mayle, e com “Sob o sol da Toscana”, de Frances Mayes, mas acho que é mais rico e divertido do que os dois, até porque a cultura marroquina é bem mais exótica para nós, brasileiros, do que as suas equivalentes francesa e italiana. Se eu tivesse que compará-lo com algum outro livro, seria com mais um grande favorito meu, “A city of djinns”, em que o escocês William Dalrymple conta as aventuras da sua chegada a Nova Delhi — outro livro “velhinho”, que há dez anos faz a alegria dos seus leitores.

(O Globo, Segundo Caderno, 28.8.2014)

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