Winter is coming

Durante os dez dias que Mamãe, eu e as sereias vintage passamos em Montréal, um dos nossos programas favoritos era, ao fim dos dias de competição, sair para jantar nas cercanias do hotel — qualquer hotel, fosse o abominável Travelodge dos primeiros dias, ou o simpático Gouverneur, no coração do bairro gay, onde tivemos a sorte de conseguir um quarto para um final de temporada delicioso. As noites estavam lindas e frescas e fomos até premiadas com aquela super lua que tanto brilhou no hit parade.

Montréal é uma cidade calma e segura, e sinto dizer que, como cariocas, estranhamos quase tudo, a começar pelas calçadas limpas e bem conservadas, onde podíamos andar sem olhar para o chão. Estranhamos a segurança: saíamos com nossos relógios e nossas câmeras, andávamos sem pressa e sem sobressaltos, parávamos na rua para apreciar o movimento e tirar fotos, e em nenhum momento nos sentimos sequer vagamente ameaçadas. Estranhamos também a educação: os jovens sempre nos davam lugar no metrô, ninguém falava aos gritos em lugar nenhum, ninguém berrava palavrões nas ruas. Almoçamos e jantamos sem, uma única vez, ouvir o que era dito nas mesas vizinhas; e em quase todas as lojas e restaurantes reparamos, aliviadas, na ausência da música permanente que, no Brasil, faz da poluição sonora mais uma das irritações do cotidiano.

o O o

Encontramos a cidade no seu melhor. O sol se punha tarde, havia festivais acontecendo por toda a parte e havia até uma praia artificial montada no Porto, com areia e tudo, tal como fazem em Paris. Os canadenses exibiam pernas e braços muito brancos e aproveitavam cada segundo de calor. O verão caiu na semana que passamos em Montréal — e isso não é piada. Em junho choveu duas vezes mais do que o esperado, julho foi mais frio do que de costume, e já chovia torrencialmente quando o avião em que parti se preparava para decolar.

“Uma prévia do outono”, dizia a manchete de terça-feira do “Le Journal de Montréal”. No alto da página, a tragédia anunciada: dos ótimos 26 graus em que permanecera nos últimos dias, o termômetro cairia para 21 graus na quarta-feira, e depois para 18 graus, com previsão de chuvas e trovoadas. “Não é preciso entrar em desespero”, dizia a reportagem. “O outono ainda não veio para ficar, já que o sol e o calor voltam no domingo”. O meteorologista consultado tranquilizou a população: “É um parênteses mais fresco e chuvoso, mas vamos reencontrar o nosso verão. Não há motivo para inquietação.”

o O o

Mesmo no auge do verão, o inverno está sempre presente em Montréal. Ele pode ser visto nas portas duplas e pesadas das lojas, nas janelas que não se abrem, na busca incessante pela luz, sempre estranha para quem, como nós, vem de lugares que, ao contrário, anseiam por sombra. Bares e restaurantes têm paredes inteiras envidraçadas, para que a clientela que em breve se refugiará do frio possa aproveitar ao máximo as poucas horas de claridade.

Mamãe e eu ficamos muito bem impressionadas com a forma como as luzes fazem parte da arquitetura local. À noite os prédios têm detalhes iluminados, painéis coloridos, paredes lavadas em luz. No último dia é que nos demos  conta de que provavelmente isso não acontece para tornar as noites mais bonitas, mas sim para alegrar os dias curtos do inverno, quando o sol se põe no meio da tarde.

Por baixo das ruas que percorremos, há uma malha de ruas e espaços públicos subterrâneos; as saídas do metrô desembocam em galerias de loja, hotéis, cinemas e teatros. Tudo o que um ser humano precisa pode ser encontrado nessa outra cidade, construída ao abrigo das tempestades de neve.

Chegamos a pegar 30 graus em Montréal, mas esse calor, como o nosso frio, tinha um quê de irreal, de piada interna. O sol e o calor canadenses são elementos tão frágeis que a impressão que eu tenho é que se alguém matar uma borboleta na China, o inverno chega com tudo.

Winter is coming. Fato.

o O o

O inverno é só a parte mais visível do lado escuro de Montréal, uma cidade com muitas pontas soltas. O movimento separatista do Quebec, que nas últimas décadas comprometeu o desenvolvimento econômico da cidade, criou uma ditadura da língua francesa da qual os imigrantes com que conversei se ressentem, entre outras coisas porque seus filhos não podem estudar inglês nas escolas públicas.

Ao mesmo tempo, toda a civilização que se vê pelas ruas da cidade não é suficiente para dar a seus habitantes um mínimo de respeito pelos animais. Montréal cresceu graças ao comércio de peles, que continua firme e forte, travestido, agora, de “característica cultural”. Nas lojas que circundam a catedral, há porões repletos de casacos, estolas e tapetes. Um urso polar empalhado pode ser comprado por 45 mil dólares. A situação não é melhor para bichos domésticos: o estado do Quebec tem o pior histórico de maus tratos a animais no Canadá.

 

(O Globo, Segundo Caderno, 14.8.2014) 

Anúncios