Volta ao lar

Montreal é uma festa para quem gosta de mídia. A cidade tem quase 30 estações de rádio, nove estações de TV, quatro jornais diários (“La Presse”, “Le Journal de Montréal” e “Le Devoir”, em francês, e “The Gazette”, em inglês), três tablóides gratuitos e uma infinidade de publicações menores com periodicidade semanal, quinzenal ou mensal, do “The Suburban”, maior semanário do Quebec, com 145 mil exemplares, ao -“Corriere Italiano”, que circula entre cerca de 14 mil famílias de oriundi.

Mas, se sobram jornais, falta notícia. Para quem vem do Brasil, onde escândalos políticos, crimes e tragédias se sucedem com tal velocidade que ninguém consegue acompanhar direito o noticiário, a especialidade da imprensa canadense parece ser tirar leite de pedra. A intensa vida cultural da cidade recebe grande cobertura, e o clima, compreensivelmente, ganha manchetes e longas matérias; mas, tirando isso, há muito pouco enredo. A civilizada vida do Quebec, fraquíssima em emoções fortes, gera jornais tão anêmicos quanto o café local.  

Por exemplo, entre as notícias mais lidas no site do “The Gazette”, anteontem, estavam o caso de um web designer que conseguiu prender um menor que lhe vendeu um celular falsificado graças ao Google Maps, e o incrível roubo de 16 mil barris de xarope de bordo, o famoso maple syrup que faz a alegria de quem vai ao Canadá, estimados em 20 milhões de dólares.

Não sei se conseguiria viver no país, que é reserva natural da Kibon, mas com certeza conseguiria viver com essas notícias.

o O o.

Primeiro domingo de volta ao Rio, e lá fui eu com uma amiga ao cinema. Quando saímos do Estação Ipanema, o fim de tarde estava bonito e resolvemos voltar a pé pela Visconde de Pirajá. Caminhamos dois quarteirões, olhamos vitrines, tomamos café num botequim e nos indagamos o que faziam dois helicópteros sobrevoando a área. De repente, na altura do Bob’s, demos com a rua fechada e com uns carros de polícia. Fomos assuntar, e ficamos sabendo que um ladrão havia entrado na igreja da Praça Nossa Senhora da Paz e feito o padre refém, depois de assaltar uma farmácia e a loja da Nike, e trocar tiros com policiais.

Ficamos mais curiosas do que surpresas ou assustadas. As pessoas com quem cruzávamos na rua trocavam informações conosco sem sobressalto, amáveis vizinhos vivendo o cotidiano do bairro. Em frente à igreja, isolada com aquelas fitas amarelas e pretas de cena de crime, havia homens armados, mais viaturas e uma pequena multidão. Àquela altura, já sabíamos que o refém não era o padre, que o assaltante se refugiara na igreja mais ou menos à hora em que nos refugiáramos no cinema, e que a loja da Nike havia sido apenas alvejada, mas não assaltada.

Alguns gringos de bermuda e sandália havaiana olhavam de longe, muito impressionados. Eles haviam lido sobre a violência no Rio, acharam que era exagero dos guias de viagem e vieram mesmo assim. Esperavam tudo, menos uma cena de faroeste num domingo à tarde. Vão ter uma história e tanto para contar quando voltarem para casa.

O clima entre os moradores era de curiosidade e de revolta. Todo mundo queria ver no que ia dar aquele reality show, que só não era mais familiar porque ninguém se lembrava de jamais ter visto assaltante invadindo igreja. Já a revolta era dirigida ao governo e ao judiciário, unanimemente condenado por soltar os bandidos que a polícia prende.

— E olha que estamos em Ipanema, a vitrine da cidade — me disse uma moça que vinha da padaria. — Imagina o resto como não está…

— Isso não é nada, minha filha: imagina como não vai ficar tudo com esses candidatos que temos! — lembrou uma senhora que havia estado naquela missa fatídica, azedando de vez o humor de quem ainda mantinha alguma esportiva.

Como não podíamos seguir em frente, desistimos de voltar a pé. Minha amiga mora a três prédios de mim e, quando nos aproximamos do nosso destino, pedimos ao motorista para parar um pouco antes, para pegar um casal que esperava táxi na nossa rua.

— Muito obrigado pelo táxi! — agradeceu o rapaz. — Evitem ir a Ipanema, porque há um assaltante refugiado na igreja, e há polícia por todos os lados.

— Nós sabemos. Estamos vindo de lá, justamente.

— Nossa! Que risco vocês correram…

— Pois é: cenas da vida carioca.

o O o

E qual era o filme que fomos assistir? Era “Chef”, de Jon Favreau, que foi ao mesmo tempo roteirista, produtor, diretor e protagonista desse  suculento petisco. Favreau é Carl Casper, o badalado chef de um restaurante chique que, um dia, recebe uma crítica demolidora de um blogueiro de gastronomia. A partir daí — e com um bom empurrão das redes sociais — a sua vida se transforma. Não gostei muito do visual dos pratos preparados pelo chef, em geral pesados e gordurosos demais, mas, em compensação, adorei a história, leve e perfeita para quem quer ir ao cinema e deixar o mundo lá fora durante o tempo de uma sessão.

 

(O Globo, Segundo Caderno,  21.8.2014)

 

Anúncios