Lumia 2520: o último dos finlandeses

No ano passado, numa viagem aos Estados Unidos, não resisti à publicidade, ao estande bonitinho na Best Buy e à curiosidade, e comprei um Surface, o híbrido de tablet e notebook da Microsoft. Detestei este aparelho com tanta intensidade que, dois dias depois, o devolvi à loja, coisa que não me lembro de ter feito antes com nenhum outro equipamento. Ele era desconfortável para usar tanto como tablet quanto como notebook, e além disso não gostei nada do RT, uma daquelas encarnações nefastas do Windows que fazem com que os usuários sonhem todos os dias com um downgrade.

Foi com muita desconfiança, portanto, que abri a embalagem do Lumia 2520 recebido para teste. Único tablet fabricado pela saudosa Nokia, ele também roda o infeliz RT (na versão 8.1), e achei que este seria um grave entrave ao nosso bom relacionamento. Mas fiz um esforço, pus o preconceito de lado e decidi estudar o 2520 como se nunca tivesse tido qualquer contato com uma máquina Windows RT antes. 

Foi uma boa decisão. Continuo implicando com a natureza ambígua do RT, que tem tanto uma interface tradicional à maneira do velho Windows quanto uma interface de quadradinhos igual à do Windows 8 (ou à do fantástico WP 8.1 de que tanto gosto no meu smartphone), mas a qualidade do hardware me conquistou, e me fez lamentar, pela enésima vez, o fim da Nokia que tanto amei.

O Lumia 2520 é, antes de mais nada, um objeto lindíssimo, produzido em policarbonato e Gorilla Glass. É também muito bom de pegar, graças às costas levemente abauladas e ao acabamento preto com toque de borracha. De todos os tablets que conheço, por sinal, é o primeiro que prefiro usar sem capa, o que é uma felicidade, já que é um pouco mais pesado do que outros topos de linha de 10 polegadas. 

A capa do 2520 é, porém, digna de nota, já que vai além de simples proteção. Ela é também um teclado (como a capa do Surface), uma reserva de bateria e uma extensão de trabalho, com duas saídas USB. O Lumia 2520 tem, no entanto, tanto uma USB quanto uma HDMI disfarçadas na lateral. Para quem quer um tablet que possa eventualmente funcionar como notebook, esses são detalhes relevantes — assim como o Microsoft Office completo pré-instalado.

Gostei muito também da tela. Ainda que outras telas de tablets topo de linha se gabem de maior resolução, não vi nenhuma ainda com o mesmo grau de legibilidade. Não cheguei a levar o Lumia 2520 para a praia, mas não tive qualquer dificuldade em ver o que ele mostrava em frente à janela, que nessa época do ano recebe um sol da tarde destituído de qualquer comiseração pelas nossas retinas. 

Com conexão LTE, 2 GB de memória RAM, 32 GB de memória interna (expansíveis em até 32 GB com cartões micro SD), lente Zeiss de 6,7 megapixels na câmera traseira e câmera frontal de 2 megapixels, o Lumia 2520 é hardware para ninguém botar defeito. 

A mesma coisa, infelizmente, não se pode dizer do seu sistema operacional. Embora venha equipado com os excelentes programas da Nokia, o tablet está preso a um ecossistema que, por enquanto, de fato sofre com a falta de aplicativos, já que não se podem usar no RT os apps escritos para o Windows 8 ou para o WP.

Este é um ponto delicado, que deve ser levado em consideração por quem quiser comprar o Lumia 2520 (R$ 2.599, desbloqueado). Ele é excelente para assistir videos e muito bom para acessar a internet; equipado com a capa/teclado, pode até pegar no batente com bastante eficiência. Mas se você for viciado num jogo ou não conseguir viver sem um determinado app, dê uma olhada na Windows Store para ver se o seu queridinho está disponível antes de ir às compras. 

(O Globo, Sociedade, 8.8.2014)

 

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