De volta a Montréal

Montréal, julho de 1994. Mamãe disputava, aos 70 anos, seu primeiro campeonato mundial de natação masters, e eu e o Paulinho, que na época estudava em Michigan, saímos de carro dos Estados Unidos e pegamos a estrada rumo ao Canadá. Atravessamos a fronteira numa cidade chamada Windsor, cortamos longas distâncias no meio do nada e fizemos escala em Toronto. Chegamos dois dias depois, e fomos engolidos pelo clima alegre das arquibancadas do complexo olímpico e do Festival de Jazz, que se espalhava por toda a cidade. Torcemos com orgulho por Mamãe e pelas admiráveis sereias vintage, e passamos muitas noites tentando entender o nosso esquisitíssimo hotel, metade quartos metade restaurante chinês, cheio de seguranças mal encarados e com um andar inteiro fechado ao público, plantado numa esquina movimentada da zona de meretrício com o Chinatown.

— Esse pessoal aqui de Montréal se veste de forma muito esquisita — observava Mamãe.

— Não sei por que elas usam essas saias tão curtas com todo esse frio — concordava dona Luzia, aos oitenta e tantos anos decana da equipe.

Paulinho e eu nos entreolhávamos, sem saber se explicávamos os fatos da vida às nossas véinhas, ou se as deixávamos curtindo a vizinhança bizarra na sua santa inocência. As duas apreciavam muito o fato do comércio ficar aberto durante a madrugada, já que passavam o dia na piscina, mas implicavam com a mercadoria, de gosto duvidoso mesmo nas lojas mais triviais.

Uma das cenas inesquecíveis das nossas vidas aconteceu no fim da viagem, quando saímos correndo atrás dos últimos presentes e encomendas: Mamãe e dona Luzia no mercadinho da zona, às duas da manhã, tentando encontrar esmaltes clarinhos para as amigas no meio dos vermelhos estapafúrdios e rosas escalafobéticos que enchiam as prateleiras, enquanto, à nossa volta, meninas vestidas para matar e junkies diversos olhavam, com sincero espanto, as duas senhorinhas de cabelos brancos.

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Naquela época, Montréal começava a sair da profunda crise econômica em que havia mergulhado — em parte por causa do endividamento com a realização das olimpíadas, em 1976, em parte por causa da migração de empregos e de habitantes para outras cidades canadenses, especialmente Toronto. Era uma cidade bonita mas bastante detonada, com casas e prédios vazios, muitas pichações e habitantes de rua. Havia uma falta crônica de hotéis, o que explica porque parte da turma da natação masters foi parar onde estávamos.

Vinte anos passados, e eis-nos de volta à cidade para mais um campeonato mundial de natação masters. Mamãe e eu continuamos perto de Chinatown, mas a área mudou de forma tão radical que não conseguimos sequer descobrir onde ficava o antigo hotel com cheiro de chop suey.

Hoje Montréal tem uma indústria hoteleira em franca expansão, com belos representantes de bandeiras famosas, mas isso não quer dizer que estejamos melhor acomodadas; descobrimos, ao chegar, que o que o Travelodge chama de “charme europeu” é o que nós, no Brasil, chamamos de “quartos microscópicos”. A falta de jeito do banheiro, o tamanho inviável do box e a pobreza indigente do café da manhã viraram piada entre os nadadores, que têm a abençoada característica de levar tudo na esportiva. O que é uma felicidade porque, nesse momento, não conseguiríamos mesmo mudar de pouso: 93% dos hotéis locais estão ocupados, e os 7% restantes ficam perto do aeroporto ou espalhados pelos subúrbios. Mal comparando, a cidade — que além do campeonato de esportes aquáticos abriga um festival de rock e um troféu de tênis — está parecendo com o Rio durante a Copa.

A situação não é muito melhor nas piscinas. Mais de nove mil atletas do mundo inteiro disputam as provas de natação, saltos, water polo e nado sincronizado. Há muito mais gente do que organização, e em vez do belo complexo aquático das olimpíadas, estão sendo usadas, sabe-se lá por que, duas piscinas do parque Jean Drapeau. Numa delas há um vestiário mínimo, banheiros nojentos e tendas onde os atletas podem esperar a vez ao abrigo do sol e da chuva. Na outra nem isso. Homens e mulheres usam uma e outra em dias alternados, e a chiadeira é geral.

— Você nada hoje na ruim ou na péssima? — perguntam os nadadores uns aos outros. E caem na gargalhada, porque afinal ninguém veio aqui para se aborrecer.

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Mamãe, em plena forma aos 90 anos, estreou no campeonato nadando 400 medley. Ficou em primeiro lugar, abrindo uma diferença de mais de dois minutos sobre a segunda colocada, uma senhora mexicana com o adorável nome de Rosa Segura Flores. No fim da tarde, levou outra medalha de ouro nos 50 metros borboleta, para alegria das sereias vintage e orgulho absoluto desta filha que, por mais que se esforce, jamais descobrirá o que leva pessoas aparentemente normais a saírem do conforto das suas casas e atravessarem o mundo só para cair n’água juntas.

(O Globo, Segundo Caderno, 7.8.2014)

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