Clássicos para viagem

“Quando fui dar uma atualizada no velho WorldMate, excelente companheiro de viagem para usuários de PDAs, descobri que acaba de ser lançado em versão Symbian, quer dizer, compatível com certos modelos de celular — entre os quais meu fiel Nokia 7650”, escrevi em maio de 2004. “O programinha é um primor. Me dá o horário de cinco diferentes cidades simultaneamente, mostra num mapa onde é dia e onde é noite sobre a terra, oferece o tempo em todas as cidades do mundo em conexão direta com o Weather Channel e, maravilha das maravilhas, tem um conversor instantâneo que me diz automaticamente a quantos dólares ou reais equivalem os euros que vou gastar.”

Dez anos depois, continuo fã do Worldmate, um dos meus aplicativos de viagem favoritos. De lá para cá, ele passou por muitas mudanças — nem todas para melhor. O mapa mundi em que se podia ver dia e noite sobre a terra, por exemplo, não existe mais, assim como o relojinho com o horário de cinco diferentes cidades. Por outro lado, hoje ele cria sozinho um plano de viagem bem detalhado a partir dos emails de confirmação de voos e de reservas de hotéis ou de aluguel de automóveis recebidos pelo usuário, mostra os horários dos voos na agenda e permite acompanhar o seu status através de informações das companhias aéreas. Já não é o único na sua categoria, mas continua sendo uma ferramenta indispensável para quem viaja. Seu maior concorrente direto é o Tripit, mas continuo achando o Worldmate mais competente. Minha única queixa é que a sua versão para Windows Phone traz apenas o básico, ou seja, o plano de viagem. Ah, sim: os PDAs a que me referia no primeiro parágrafo eram os “Personal Digital Assistants”, categoria na qual se enquadrava o velho Palm. Quem se lembra?

O SeatGuru é outro clássico que vem dos velhos tempos pré-smartphone. Como tantos bons recursos da internet, ele também começou meio ao acaso, em 2001, quando um moço chamado Matthew Daimler resolveu dividir com outros viajantes informações sobre a disposição e os tipos de assento nas aeronaves. A página se tornou, em pouco tempo, fonte de consulta obrigatória para quem acha que “janela” e “corredor” são dados insuficientes para fazer uma escolha. Comprada pelo TripAdvisor em 2007, ganhou versões para iOS e para Android, e continua como base de dados colaborativa, mas cresceu e hoje funciona também como app para marcar passagens e estudar as melhores ofertas e itinerários.

Quando viajo, consulto o TripAdvisor (que comprou o SeatGuru, entre outras 17 empresas relacionadas a viagens) como verdadeira bíblia do turismo. Lá encontro opiniões recentes de outros viajantes a respeito de restaurantes, hotéis, atrações, voos, destinos. Alguns desconfiados suspeitam do sistema, usado hoje por mais de 32 milhões de viajantes em todo o mundo, achando que opiniões positivas podem ser plantadas pelos estabelecimentos; ao mesmo tempo, ele é alvo de polêmicas entre profissionais do setor hoteleiro, que às vezes se sentem injustamente avaliados ou sabotados por concorrentes.

Na minha experiência, porém, o TripAdvisor é bastante confiável, desde que se saiba consultá-lo. Cada viajante tem seus gostos e idiossincrasias, e é importante não considerar como defeito rotineiro algo que eventualmente aconteceu com outra pessoa. Eu, por exemplo, não presto muita atenção a reclamações sobre serviço — desde que não haja unanimidade em relação à má qualidade — porque sei que muita gente faz por merecer o mau serviço que recebe; mas levo sempre em conta aspectos menos subjetivos como localização e espaço.

Errata: escrevi errado o nome do tablet da Nokia a respeito do qual falei semana passada. Ele é o 2520, e não o 2025, que nem existe. Mil perdões!

(O Globo, Sociedade, 15.8.2014)

 

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