Tudo parado

Houve um tempo em que ir à Barra era tão fácil que a Bia até estudou lá quando criança. A mãe de uma coleguinha vizinha nossa levava as meninas de manhã, eu buscava; era gostoso pegar o carro e ter uma distância boa para percorrer sem pressa e sem trânsito, ouvindo música e arrumando as ideias na cabeça, ao sabor do vento temperado de maresia que entrava pela janela. Mais gostoso ainda era voltar com as meninas no banco de trás, tagarelando sobre as novidades da escola.

Naquela época ainda fazia sentido ter carro no Rio. Também fazia sentido ir eventualmente à Barra, escola da Bia à parte. Fazíamos compras no Carrefour, íamos ao cinema ou às compras no Barra Shopping, às vezes almoçávamos no Ettore ou, aventura das aventuras, ainda mais longe, em Pedra de Guaratiba. Num que outro fim de semana frequentávamos a Prainha. Também íamos comer bacalhau no Encantado e empadinhas de camarão na Tijuca. As distâncias, contadas em quilômetros e não em horas, faziam parte de um hábito que morreu em algum momento do século passado, e que se chamava “passear de carro”.

Eu adorava passear de carro! Quando estava sozinha e tinha uma folga no trabalho, saía de casa sem destino definido, e ia aonde o dia me levasse. Explorava ruas que não conhecia, subia ladeiras, rodava por Santa Teresa, pela Muda, pelo Grajaú. Havia sempre uma surpresa interessante pelo caminho, uma casa simpática, uma árvore bonita. O Centro, engarrafado desde sempre, era um dos poucos lugares que não me atraía: era impossível passear de carro onde o trânsito exigia tanta atenção. Eu não gostava muito de dirigir, nem gostava particularmente de carros, mas a sensação de liberdade que sentia ao rodar sem destino, ampliada pela alegria de descobrir os cantinhos secretos da minha cidade, não tinha preço.

o O o

Na sexta-feira retrasada peguei um táxi em frente de casa, na altura do Corte de Cantagalo, para ir à Fonte da Saudade — uma corrida boba que, normalmente, leva cerca de dez minutos, e custa uns 12 ou 13 reais. Pois levei uma hora e meia e paguei 40 reais. Em vários momentos tive vontade de descer do carro e seguir a pé, mas fazia um calor insuportável, eu estava com uma roupa pouco apropriada para derreter ao sol e, além disso, seria covardia abandonar o motorista sozinho com o prejuízo.

Na segunda-feira passada tive que ir à Barra. A corrida, se é que se pode chamá-la assim, levou duas horas. O percurso, que antes me dava tanto prazer, há tempos se tornou um suplício; hoje só vou à Barra por absoluta necessidade, e faço o que posso para que essa necessidade seja cada vez menor. Não há comércio, restaurante ou espetáculo que justifique tanto tempo perdido.

O horrendo trânsito do Rio, que já ultrapassou São Paulo como cidade mais engarrafada do Brasil — e que ostenta o tristíssimo título de terceira cidade mais engarrafada do mundo — acaba com a alegria de qualquer um. Não é só o tempo perdido, o estresse sem fim; ficamos cada vez mais confinados aos nossos bairros, perdemos o prazer de percorrer e de descobrir a nossa cidade. A vida fica menor.

o O o

Em plena época de internet banking preciso pagar a taxa de um visto no HSBC no caixa, em dinheiro vivo. Passa um pouco das três, e há uma fila monstruosa no banco. Há também um clima de revolta, porque os caixas batem papo entre si, tranquilamente, diante da multidão que só faz crescer.

Clientes aos berros, uma criancinha histérica, vida selvagem total.

A tela que mostra o número do atendimento não funciona: desde que eu cheguei está no 133.

Um rapaz diz que está lá desde o meio-dia. Quando lembro que há legislação obrigando os bancos a atenderem em 20 minutos, no máximo 30 em véspera de feriado, todo mundo cai na gargalhada.

— A senhora não costuma ir muito a banco não, né? — pergunta o rapaz.
Não, não costumo. Faço saques e depósitos em caixas eletrônicos, e resolvo o resto da minha vida bancária pela internet. Não me lembro quando foi a última vez que tive que ir a uma agência, e sou muito grata a Vint Cerf e a todos os magos da rede por isso.

Os clientes que vêm da área dos caixas, escondida por um biombo, gritam para os que estão na fila os números liberados. Uma senhora engraçada vai além, e fica um tempo entre a área dos caixas e a área onde estamos berrando os números, como se estivéssemos num bingo. A ideia, me parece, é não só prestar um serviço aos demais, como constranger os caixas. No fim acabamos todos rindo juntos, xingando os bancos e o governo, brasileiros irmanados no descaso com que somos tratados.

o O o

As crianças, que fazem cinco anos daqui a duas semanas, descobriram a morte. Assistiram a “Thriller”, do Michael Jackson, e ficaram muito impressionadas. Querem saber o que acontece com as pessoas e com os bichos, pedem aos familiares que prometam não morrer tão cedo e estão com pavor de cemitério. Passando por acaso em frente ao São João Batista, a Bia tentou desfazer um pouco do medo:

— Olha o cemitério! Vocês estão vendo? Não tem nada de assustador, é até bonito.

Nina olhou, olhou, olhou.

— Quando as pessoas morrem viram estátuas, mamãe?
(O Globo, Segundo Caderno, 17.7.2014)

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9 respostas em “Tudo parado

  1. Pingback: Tudo parado…. | .:VaNeSsA:.

  2. há mais de 20 anos, saí de icaraí e fugi para a região oceânica de niterói. apesar de trabalhar no rio, andava pelos contornos e chegava até rápido no trabalho. e no final de semana era aquela tranquilidade. agora, isso daqui está cheio e, com a infraestrutura de merda que as autoridades deixaram do mesmo jeito que era, virou um inferno. e o último contorno que eu usava, a perimetral, também acabou. ou seja, mifu… por isso conto os dias para poder largar tudo isso e me mandar para lumiar. enquanto isso vou recitando meu mantra nos engarrafamentos: eduardo paes, vtnc; rodrigo neves, vtnc; dilma, vtnc…
    []’s

  3. Coríssima: Mimimi não resolve. Muda para Aldeia da Serra que fica a1200 metros de altura a 32 km (23 minutos) do Iguatemi da Faria Lima – não tem NADA nem parecido neste balneário outrora agradável – o MIS, a Pinacoteca, o MAM. o Central Park da Paulicéia Desvairada e a melhor pizza do mundo (tá bão não tem o Balada mas não dá para ser rico com saúde…)

  4. Pois é. Na segunda feira levei duas horas e 15 mim de Botafogo à Gávea. Cheguei super estressada e meu consultório parecia o INPS.
    Nem dá pra sonhar com o trem bala…
    Queria quem alguns políticos virassem estátuas…

  5. Eu adorava passear de carro, fazer compras no Freeway, ir a praia em Grumari. Até aqui em Itaipava já tem congestionamento.
    Adorei a tirada da Nina. Aqui em casa, quem morre vira arbusto no jardim 🙂

  6. A sua localização é interessante, porque é no meio do caminho ! Se virar à direita ou à esquerda é engarrafamento tanto pra lá quanto pra cá…. A vantagem, imagino, é que dê para ver da janela o engarrafamento lá ao fundo, perto do posto. ( isso se morar de frente para a rua e em andar alto … )

  7. Solidária com vc (tenho acompanhado suas fotos no Facebook, do ‘status’, leia-se inferno que a Lagoa se transformou). Ser ‘minhoca da terra’ no Rio virou teste de paciência.
    P.S.: Me vi em suas ‘aventuras’ peripatéticas ambulatórias. Tb desfrutava do mesmo prazer 🙂 que infelizmente perdeu a graça … Bjo Norma

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