Crônica de várias mortes anunciadas

E, mais uma vez, os gatinhos do CASS (Centro de Administração São Sebastião), o centro administrativo da prefeitura, estão ameaçados. As protetoras locais foram informadas de que os cerca de 150 bichinhos serão transferidos amanhã, dia de jogo do Brasil, quando o mundo inteiro estará de olho na televisão — momento ideal, portanto, para levar a cabo este ato covarde e arbitrário. A própria legalidade da remoção é questionável, já que os gatos do CASS se enquadram perfeitamente na definição de animais comunitários, sendo bem alimentados e bem cuidados, apesar da contínua sabotagem da administração.

Diz a Lei: “Fica considerado como animal comunitário aquele que, apesar de não ter proprietário definido e único, estabeleceu com membros da população do local onde vive vínculos de afeto, dependência e manutenção.” Ver a prefeitura ir frontalmente contra uma lei municipal não é o que se possa chamar de exemplo de cidadania.

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A colônia do CASS existe há mais de 15 anos. Ela começou como começam todas as colônias urbanas: com o abandono irresponsável de animais. Cresceu a princípio desordenadamente, mas logo foi adotada por funcionários da prefeitura, que passaram a cuidar dos bichinhos com atenção e amor. Hoje eles são alimentados com ração premium, são castrados e tratados em clínicas veterinárias quando adoecem. As despesas saem do bolso dos protetores e protetoras, que fazem o trabalho que o estado deveria fazer.

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No papel, a ação da prefeitura parece inofensiva. Na prática, é um ato de enorme violência, a começar pela captura dos animais, que são feridos, têm membros quebrados e frequentemente morrem atropelados ao fugir de ações deste tipo. Mais grave ainda, porém, é a destruição do equilíbrio em que vivem. Numa colônia antiga como a do CASS, há animais que nasceram e cresceram no mesmo lugar, obedecendo a uma “cultura” de hierarquias formada por grupos e famílias que aprenderam, ao longo dos anos, a dividir o espaço entre si.

Tudo isso já seria bastante grave se os gatinhos fossem levados para um espaço adequado; mas não é o que vai acontecer. Seu destino é o Gatil São Francisco de Assis, que não tem espaço sequer para os animais que para lá foram transferidos originariamente do Campo de Santana. Elogiei este gatil na época em que foi inaugurado, mas me arrependi do elogio poucos meses depois, quando os gatos tiveram que ser abrigados na Fazenda Modelo (que de modelo não tem nada) por causa da queima de fogos durante o desfile das escolas de samba: pelo menos cinquenta não voltaram desse retiro forçado.

Nenhum abrigo público do Rio de Janeiro tem um mínimo de condições para oferecer uma vida digna aos animais. No papel eles podem ser muito bons e muito bonitos, mas na vida real são meros depósitos de bichos, com falta de veterinários, sem equipes especializadas e com as famosas “escalas vermelhas”, em que os animais sadios adoecem e os doentes morrem.

“Escala vermelha”, aprendi recentemente, são aqueles fins de semana e feriados em que todo mundo falta. Precisa chegar às oito? Ora, tanto faz, chega-se ao meio-dia. É para sair às cinco? Sai-se às duas, que ninguém é de ferro. E daí se os bichos ficarem sem comer? E que diferença faz se os doentes não tomarem os remédios? São apenas gatos… Há pouco tempo uma protetora encontrou um dos siameses do gatil agonizando numa gaiola da Fazenda Modelo, esquálido, espetado num frasco de soro vazio. Este será o destino dos gatinhos do CASS, que a prefeitura quer tirar das mãos das pessoas que os alimentam regularmente, chova ou faça sol, e que não deixam de medicá-los, quando precisam.

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Recebi um pedido de socorro das protetoras, desesperadas com a decisão da prefeitura. Ele veio com fotos de 31 gatinhos, identificados pelos respectivos nomes — mas há muitas outras fotos, e cada um dos animais não só é conhecido pelo nome, como pela sua história. Nos abrigos os nomes se perdem junto com a história, e os bichos deixam de ser indivíduos para se tornarem estorvos, criaturas inconvenientes das quais a prefeitura só quer distância.

O pior é que a remoção de colônias já se provou inútil em todas as partes do mundo. A forma de lidar com animais de rua é controlando a sua população através de castração, adoção e campanhas educativas para coibir o abandono. Hoje se retiram 150 animais; amanhã serão abandonados outros tantos.

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O problema dos bichos abandonados não vai ser resolvido, no Rio, enquanto a prefeitura não tiver um plano a longo prazo. Não se resolve uma questão grave como o abandono, por exemplo, com a remoção de animais para depósitos insalubres onde deixam de ofender a sensibilidade de quem não gosta de peludos.

A Sepda, Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais, não é sequer uma secretaria de verdade; não tem orçamento, depende de favores daqui e dali e do humor do prefeito e de seus assessores. Faz castrações de animais, é verdade, mas em número muito inferior ao que seria necessário, e não tem cacife para combater as más intenções da subsecretaria de Vigilância, Fiscalização Sanitária e Controle de Zoonoses, que só enxerga nos animais uma ameaça à saúde pública. Mais um pouco, e vamos ver carrocinhas circulando novamente pela cidade.

Para dizer a verdade, com o desprezo que a nossa atual administração devota aos bichos, não sei como isso ainda não aconteceu.

(O Globo, Segundo Caderno, 3.7.2014)

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6 respostas em “Crônica de várias mortes anunciadas

  1. Querida Cora,
    Sou grande admiradora de sua incansável luta pelos animais e de seus brilhantes artigos. Copio abaixo mensagem que acabei de enviar para o jornal O Globo para publicação em Cartas dos Leitores. Parabéns e muito obrigado.
    “Quero parabenizar O GLOBO e Cora Ronai pelo artigo brilhante: “Crônica de várias mortes anunciadas”. A decisão do prefeito Eduardo Paes de retirar os gatos que vivem há mais de 15 anos no entorno do Centro Administrativo da prefeitura demonstra total falta de sensibilidade para com a vida (resultará em sofrimento e morte) e desconhecimento das recomendações mais modernas da OMS sobre controle de populações caninas e felinas (a remoção apenas cria novos e mais graves problemas). A atitude governamental preocupa pelo que representa de ameaça a todos os animais que vivem na cidade e por se tratar de um ato de desprezo à própria legislação municipal que ampara animais comunitários.” Mariângela de Almeida e Souza – médica veterinária, presidente da associação “Defensores dos Animais”

  2. CORA, POR FAVOR, VOLTE A ESCREVER SOBRE OS ANIMAIS E A NOSSA VIDA COTIDIANA. EMBORA, VOCÊ TENHA OPTADO PELA TECNOLOGIA, ESCREVENDO SOBRE IPOD ETC, GOSTO MUITO DE VOCÊ FALANDO SOBRE UM ASSUNTO NÃO TÃO MODERNO, MAS SEMPRE SERÁ BEM-VINDO QUANDO USADO : O CORAÇÃO !…….FATIMA

  3. Obrigada Cora, por sua crônica que expôs, mais uma vez, o enorme sofrimento dos bichinhos dessa cidade, que não tem política séria que os proteja. O que a gente mais vê é politico cara de pau tirando fotos com gatinhos e cachorrinhos pra pegar os votos dos protetores que são inúmeros. Depois que conseguem algum cargo a última coisa que fazem é cuidar deles com o mínimo de dignidade e respeito.
    A gente sabe que dinheiro gasto com animais não enche bolsos de ninguém. Só esvazia. Para políticos é mesmo melhor fazer obras faraônicas, mesmo que virem um gigantesco elefante branco.
    Mostrar para seus inúmeros leitores o que acontece com eles, só você minha querida.
    Obrigada mais uma vez.

  4. Bravo Cora ! Pela coragem de publicar na grande mídia,o que talvez as pessoas que não gostem de animais,venham a relativizar sua devida importância !
    Participei inúmeras vezes de manifestações (algumas organizadas pela incansável Rosana Guerra,guerreira) na época do Cláudio Cavalcanti,fizemos protesto bem em frente à prefeitura,
    e ele não quis receber nenhuma protetora para dialogar,se fechou à diálogos.
    E agora mais esse desmando de Dudu Paespalho …. é demais para os pobres bichinhos !
    Parece que a cada pequena vitória obtida e batalhada por eles,sempre alguma outra maldade,plano maquiavélico vem posteriormente … é quixotesco !

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