Anna Clara Herrmann e o talento para garimpar joalheiros

Quando Anna Clara Hermann fez 15 anos, ganhou um delicado colarzinho de ouro, comprado com sacrifício pelos pais, funcionários públicos. Ele foi o seu orgulho durante quase dois anos, até ser roubado num assalto. Traumatizada, decidiu, naquele momento, que nunca mais usaria joias. Decisão radical de garota assustada, e história tão comum que poderia ser definida um clássico carioca — se a vida não a tivesse levado, logo depois, aos braços de um moço talentoso chamado Antônio Bernardo, que viria a se tornar seu marido e, com o correr dos anos, um dos mais renomados joalheiros do país; e não a tivesse transformado na criadora e curadora da principal vitrine da joia brasileira, o Joia Brasil, responsável pelo lançamento de tantos designers.

É claro que a decisão de nunca mais usar joias não durou muito ao lado do marido joalheiro; mas ainda hoje, apesar de ter passado as três décadas seguintes literalmente cercada por pedras e materiais preciosos, ela conserva um jeito despojado de se enfeitar. Nós nos encontramos para esta entrevista no seu apartamento, localizado num prédio tombado do Jardim Botânico. Era um daqueles dias de trânsito infernal; o trajeto que eu faria em vinte minutos me tomou mais de uma hora, mas quando cheguei, Anna Clara ainda estava presa no caminho.

Ela chegou pouco tempo depois, esbaforida porém elegante. Vinha de um almoço com clientes do Fashion Mall, com quem percorrera a exposição que acabara de montar lá. Eu, que esperava uma usuária de jóias importantes, me surpreendi com os brincos minimalistas e a discretíssima pulseirinha de ouro. Fiz uma observação qualquer nesse sentido; foi quando ouvi a história do antigo colarzinho.

— Eu tinha acabado de passar no vestibular de Direito para a UERJ, ainda não tinha 17 anos e estava toda feliz voltando para casa quando um cara se sentou ao meu lado no ônibus vazio, encostou uma faca no meu pescoço… e lá se foram os meus trocados e o meu colar tão lindinho!

Na época, ela sonhava ser diplomata e estudava francês, inglês e alemão; mas mal começou as aulas na UERJ quando o pai foi trabalhar em São Paulo.

— Como adorei aquela cidade! Fiz prova, passei para a USP, frequentava encantada a Faculdade do Largo de São Francisco; mas eis que meu pai se desentendeu com o governador, que na época era o Maluf, e lá viemos nós de volta para o Rio. Eu passei daquele espetáculo que era a Faculdade de Direito da USP, onde tinha aula com gente como o Dalmo Dallari, para a UFRJ, onde os professores viviam em greve, os alunos viviam na rua e o prédio vivia interditado, porque o teto estava caindo — enfim, mais ou menos como hoje.

A desilusão acadêmica durou pouco, mais exatamente até a festa do casamento de uma amiga, onde conheceu o futuro marido. Escola de direito, Itamaraty, inglês, francês, alemão, tudo ficou para trás; ela só tinha olhos para ele. Literalmente: anos depois, numa outra festa, ao ser apresentada ao jornalista e escritor Edney Silvestre, ela lhe disse que ambos já se conheciam de antigos carnavais em Angra. Silvestre não se lembrava. Anna Clara identificou-se então como ex de Antônio Bernardo e ele levou um susto: “Mas você era tão quietinha! Vivia colada nele, nunca dizia nada…”

Não precisava; estava ao lado do seu príncipe encantado e ele era tudo o que ela queria. Os dois tiveram duas filhas, Barbara e Alexia (hoje com 30 anos e 27 anos, respectivamente, ambas trabalhando com o pai) e só não foram felizes para sempre porque a vida real, como a gente sabe, não é um conto de fadas. Mas a paixão deixou marcas fortes e, sobretudo, uma guinada profissional radical. De tanto acompanhar produções de moda, ela descobriu uma vocação inesperada. Foi assim que, em 1990, veio parar aqui no GLOBO, trabalhando com Patrícia Veiga e Mara Caballero, sempre como responsável pelas jóias nas produções do Ela. Foi a partir deste posto de observação privilegiado que descobriu um contingente de designers extraordinários e de pequenos joalheiros, que não tinham como mostrar a sua produção.

Uma de suas “descobertas” foi Bia Vasconcellos, artista plástica que faz jóias grandes, lindas e multicoloridas, e que tem uma história parecida com a sua: um dia, a empregada eficiente, simpática e recém contratada foi embora… levando consigo todas as joias da patroa.

— Fiquei tão traumatizada que passei dias chorando, em estado de choque, — relembra Bia. — Aí, como a Anna Clara, decidi que nunca mais teria joias, com exceção de três anéis que decidi fazer para mim mesma, quase como terapia. Aconteceu, então, de algumas clientes se apaixonarem pelos anéis e me pedirem para fazer peças para elas também. Eu concordei. E foi aí que apareceu a Anna Clara, que viu algumas pessoas usando joias minhas, gostou, e me pediu uma entrevista. E me deu página inteira! Mais tarde, quando fez o primeiro Jóia Brasil, me chamou. De modo que, se me tornei essencialmente joalheira, devo isso a ela.

A história se repete com muitos e muitos profissionais, que atribuem a Anna Clara e à sua persistência em levar adiante o Jóia Brasil a visibilidade que passaram a ter.

Tudo começou em 2002, quando Eloyza Simão, então responsável pelo Fashion Rio, fez uma reunião informal com as jornalistas da área para ouvir as suas propostas em relação ao evento. Anna Clara propôs um espaço especial para joias, foi voto vencido mas, quanto mais pensava na ideia, melhor ela lhe parecia; de modo que resolveu tocar o projeto sozinha. Convocou os designers, com eles alugou o restaurante do MAM para um almoço fechado e chamou a imprensa, sobretudo estrangeira. O sucesso foi tão grande, e os resultados tão bons, que, no semestre seguinte, o Joia Brasil estreou em espaço próprio, na Sala Lygia Clark. Resultado: Anna Clara deixou o jornal, e mergulhou de cabeça na produção e curadoria do salão.

— A grande invenção da Anna Clara foi criar uma vitrine para os pequenos ateliers e para os designers em geral numa época em que a joia brasileira era definida pelos grandes fabricantes — diz Francisca Bastos, designer hoje reconhecida internacionalmente, e que participa do Joia Brasil desde aquela primeira exposição. — Essa projeção foi muito importante para o estabelecimento de uma identidade autoral em relação às joias brasileiras, não só aqui, como no exterior.

Francisca observa que, ao mesmo tempo em que apresentava as joias ao público, o Joia Brasil apresentava também os designers de todo o país uns aos outros.

— O nosso trabalho é normalmente muito solitário, ainda mais quando temos ateliers de portas fechadas, como é o meu caso. Cada qual trabalha para o seu lado. De repente, você está numa exposição ao lado de pessoas que usam os mesmos materiais que você usa, usam as mesmas pedras, mas produzem peças completamente diferentes… Até por este contato e essa troca, não dá para subestimar a importância do trabalho da Anna Clara. Imagina tantos anos disso, contra todas as adversidades e mudanças de lugar, mas sempre com a maior receptividade; imagina quanta gente não passou por essas exposições, entre público e designers. E imagina quanta gente não descobriu um mundo que nem sabia que existia.

o O o

Como todo mundo que faz alguma coisa no Brasil, Anna Clara vem se especializando, cada vez mais, no jogo de cintura. Ela tem que lidar com as dificuldades habituais dos empreendedores brasileiros e, de quebra, com alguns fatores muito peculiares da sua área. O país tem uma relação ambivalente com joias, vistas como celebração, por um lado, e, por outro, como ostentação e excesso; a violência piora a situação, porque ninguém tem mais coragem de sair com nada na rua. Isso para não falar no famigerado custo Brasil, que, de uns anos para cá, tem dificultado enormemente as exposições no exterior: o público de lá vê os nossos preços e cai na gargalhada.

O Jóia Brasil sobreviveu galhardamente aos solavancos e às mudanças do Fashion Rio, mas, paralelamente, Anna Clara está sempre em busca de novos espaços. Ela consegue abrir janelas onde menos se imaginaria encontrar uma vitrine de joias, como no Casa Cor, por exemplo, ou em festivais de cinema brasileiro, e é expert em descobrir associações no mínimo inesperadas: a exposição da qual voltava no dia em que nos encontramos unia jóia e, imaginem, gastronomia — e foi um tremendo sucesso!

A organizadora do Jóia Brasil também sobreviveu à sua cota de solavancos pessoais. Há pouco mais de cinco anos, num exame de rotina, descobriu um câncer. Esteve muito, muito mal, até hoje sente o gosto da quimio na boca quando fala no assunto, mas em nenhum momento deixou de trabalhar. Há dois meses, enfim, recebeu a notícia que tanto queria ouvir: está curada.

De cabelos novamente longos, pronta para novas batalhas, sonda o horizonte em busca de espaços a conquistar. E, se alguém lhe pergunta como vão as coisas, responde, com a ironia do óbvio:

— Tudo jóia!

(O Globo, Rio, 22.6.2014)

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9 respostas em “Anna Clara Herrmann e o talento para garimpar joalheiros

  1. O que aconteceu com a Anna Clara e Bia Vasconcellos aconteceu comigo.
    Fui comprando aos poucos as lindas peças do Antônio Bernardo e minha felicidade era gigante com cada uma que adquiria. Todas lindíssimas.
    Uma empregada levou as melhores e depois outra diarista o restante. Só me sobrou um lindo, simples e bem desenhado brinquinho de ouro branco, que nunca mais tirei. Gosto imensamente dele e ele me basta. Minha moeda agora é o que eu compraria em ração comprando tal joia. Ganham os gatinhos. Não preciso de nada mais, que a felicidade de retirá-los das ruas, tratá-los, vê-los muito mais lindos e felizes, prontos para sua oitava vida, num novo e amoroso lar!
    Isso é uma joia dentro do meu coração.

  2. Prezada Cora, também fora do tópico, mas foi o único meio de contato com você que encontrei. É sobre as capivaras da Lagoa: há meses tenho caminhado e visto as mesmas quase que diariamente. Era uma família de cinco. Um filhote sumiu/morreu logo no início ficando apenas o casal e dois filhotes. Há aproximadamente uma semana, o macho sumiu. E acredito que ontem, outro filhote também sumiu, ficando somente a mãe e 1 filhote. E ela hoje, estava com cara completamente desnorteada como se estivesse sentindo essas perdas. Será que essas capivaras não deveriam ser removidas para outro lugar mais seguro ou até mesmo para o zoológico? Do jeito que está, essas também vão sumir ou morrer… fiquei extremamente triste com a cena de hoje e talvez você tenham melhores conhecimentos para obter ajuda… o que acha? Obrigado e abs, Eduardo Marciano (emarciano@bol.com.br)

    • Será que sumiram mesmo ou só não apareceram, Ana Luiza? Eu já as encontrei separadas algumas vezes. Vou torcer muito para que reapareçam… A cidade não tem a menor infra para lidar com os seus animais. A última capivara removida da Lagoa foi enviada para a Reduc, ao lado da refinaria Duque de Caxias, área frequentada por caçadores, onde foi prontamente abatida. 😦

  3. De ligação com as joias, eu tenho: Familia da parte de mãe de tradicionais comerciantes de joias desde tempos imemoriais e uma admiração pessoal por quem, com engenho e arte, as cria!
    Muito interessante, o tema e a coluna!

  4. Completamente fora de tópico, mas há tempos quero perguntar. Cora, acompanho seu blog há anos, e não me lembro de jamais ter visto uma entrada ou qualquer consideração sobre a Jhumpa Lahiri, uma de minhas escritoras contemporâneas com ascendência indiana favoritas. Sempre me pergunto o porquê. A Jhumpa é a convidada da FLIP esse ano, portanto, aproveitando a deixa: você não gosta ou não conhece o trabalho dela, gosta mas não o considera digno de considerações?

    Espero que não se aborreça com tamanha “inquisição”. Considerando-a uma mentora em assuntos indianos, eu precisava perguntar!

    • Eu já escrevi sobre ela sim, Lilian, e recomendei livros dela para Natal ou Dia das Mães, nem sei mais. Sou FÃ da Jhumpa Lahiri, assim mesmo, em caixa alta; leio tudo o que encontro dela.

  5. Segunda leitura do dia e segunda ‘aula’ de como ser um cronista da Vida, que tende a dar certo, quando se flui junto. Saber contar, engrandece o fato. Grata. Bom dia! Norma Cardoso

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