A caminho do mundo conectado

Desde que o computador pessoal virou realidade, em meados dos anos 80, dois conceitos ganharam corpo entre os cientistas e pesquisadores da área: o da computação ubíqua, que estaria em todos os lugares sem que mal nos déssemos conta de sua presença, e o do acesso universal à tecnologia. Ambos eram quimeras do mesmo quilate. Pensar em pervasive computing — ou, mais simplesmente everyware –numa época em que os computadores ainda não eram sequer transportáveis exigia um esforço de imaginação tão grande quanto sonhar que, um dia, todo mundo teria acesso àqueles aparelhos tão caros.

Mais tarde, durante um curto espaço de tempo, houve ainda uma terceira ideia no campo da popularização da tecnologia, que sustentava que, um dia, computadores e aparelhos de TV seriam um objeto só — mas esta era essencialmente equivocada, não por impossibilidade tecnológica, mas por simples motivos ergonômicos. Telas de TV e telas de computador são  parecidas, mas escrivaninhas e sofás são animais inteiramente distintos. Ainda assim, algumas bisonhas TVs equipadas com teclado chegaram a circular brevemente, para logo desaparecer no purgatório das boas intenções.

O que ninguém previa, naquele tempo, era que todos esses conceitos acabariam convergindo, não através dos PCs, mas sim dos celulares; e que a argamassa dessa convergência seria o acesso à internet. Onde os inúmeros projetos de computadores populares falharam, os smartphones triunfaram. Eles nos permitem usar computação em qualquer lugar, interagindo eventualmente com outros objetos (o princípio básico da computação ubíqua); eles estão cada vez mais difundidos; e são, ao mesmo tempo, objetos de trabalho e de lazer.

Uma pesquisa divulgada no começo do mês pela Ericsson não deixa dúvidas em relação a isso. De acordo com a empresa, que regularmente monitora os índices de mobilidade mundiais, o número de assinaturas de serviços móveis em geral cresceu cerca de 7 por cento em relação ao primeiro trimestre do ano passado — mas o percentual de assinaturas de banda larga móvel literalmente explodiu no período, alcançando impressionantes 35 por cento e elevando o total mundial de assinaturas a 2,3 bilhões. Ao mesmo tempo, 65 por cento dos aparelhos móveis vendidos ao longo do ano foram smartphones, contra os 50 por cento no ano passado.

É bom ter em conta que este número de assinaturas não coincide, necessariamente, com o número de novos usuários de banda larga móvel. Há diferenças acentuadas de uso de região para região. Enquanto o aumento nos países em desenvolvimento se dá sobretudo através de novos usuários, na América do Norte e na Europa Ocidental o crescimento se dá através de novos serviços e novos aparelhos, com usuários adquirindo mais um tablet, por exemplo, ou passando a usar dois smartphones diferentes, um para casa e outro para o trabalho.

Ainda assim, caminhamos, rapidamente, para um mundo inteiramente conectado. A Ericsson prevê que, até 2019, chegaremos a 9,2 bilhões de assinaturas, sendo 80 por cento delas de banda larga. Diferenças regionais continuarão presentes, e certas áreas chegarão ao futuro antes de outras. Nos próximos cinco anos a Europa chegará à marca de 765 milhões de smartphones, mais do que toda a sua população; enquanto isso, na África e no Oriente Médio, metade dos aparelhos móveis em circulação continuará sendo composta por celulares comuns.

A América Latina deve chegar a 2019 com cerca de 900 milhões de assinaturas móveis. Até lá, o tráfego de dados terá decuplicado em relação a 2013, impulsionado sobretudo pela transmissão de vídeos, que serão responsáveis por nada menos do que 50 por cento do movimento.

Atualmente, as redes 2G alcançam 85% da população mundial; mas, daqui a cinco anos, 90% dos habitantes do planeta poderão se conectar à internet usando redes 3G, realizando, enfim, o antigo sonho dos magos do século passado.

(O Globo, Sociedade, 20.6.2014)

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2 respostas em “A caminho do mundo conectado

  1. Um pouco preocupado com a curva decrescente do meu interesse pela curva crescente da tecnologia.
    Pode ser o ocaso (natural, esperado,) misturado com nostalgia quando se fala em tempos de pioneirismo e sonhos.

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