Ainda o email

A coluna da semana passada sobre o ocaso dos emails provocou, como seria de se esperar, um bocado de… emails! Todos para me provar, por A + B, que o email não está morto. Mas isso nem eu, que estou a um (pequeno) passo de odiar de morte as minhas caixas postais, tenho coragem de afirmar. A palavra que usei no título, “ocaso”, não é sinônimo de fim, mas de “declínio”; ainda não há, no horizonte, nenhuma ferramenta que possa substituí-lo satisfatoriamente no lado burocrático, tributável, da vida. É na área de lazer que ele perde cada vez mais terreno para as redes sociais e as ferramentas de comunicação instantânea, como o WhatsApp. Como bem observou o Marcelo Temer, no Facebook, “O email é o novo telefone fixo”.

(Ao que a Stella Melo, registre-se, respondeu, muito sabiamente: “É… pode ser… mas quando entrevistam pessoas com celular, a ligação volta e meia cai ou é ruidosa. Daí o entrevistador fala assim: Tem um fixo aí perto de você?”)

A minha pesquisa informal no Facebook e no Twitter sobre o uso do email e de como as pessoas se sentem em relação às suas caixas postais trouxe, aliás, algumas definições muito boas:

André Diniz: “Lido com minha conta de e-mail com o entusiasmo de quem põe o lixo na rua.”

Adri Lapenda: “Email me faz lembrar o voto obrigatório.”

Milagros Figallo: “É claro que o email no trabalho é imprescindível, pois é um documento. Ele agora substitui o antigo ‘Assina aqui’, ou seja, o velho protocolo.”

Flávio Fachel: “Email é coisa de quem ainda usa relógio de pulso…”

É, o nível de entusiasmo despertado pelas velhas mailboxes não é mais o mesmo. Chega a ser difícil explicar para os nativos digitais o que era a emoção de baixar pacotes de emails na época dos BBS, ali pelo Pleistoceno, quando tudo em relação à computação pessoal era novidade. Mas muita gente ainda tem carinho por esta ferramenta vintage. Que o diga Luiz Aviz, por exemplo, que chegou a publicar seis livros, cinco pela Editora Record e um pela Porto Editora, uma das maiores de Portugal, que juntos venderam mais de 80 mil exemplares, só compilando e organizando emails de piadas, que recebe desde 1998. Quando comentei que ele certamente soube fazer uma boa limonada do spam recebido, Luiz esclareceu que não, nada daquilo era spam:

— O primeiro email que recebi era uma piada. Gostei, e respondi a todos: ‘Mandem mais’. E nunca mais parou!

Já Simone Lazzarini gosta das suas caixas de correio por outras razões — as mesmas, por sinal, que muita gente que ainda gosta de email apontou: “Eu me sinto bem em relação às minhas mailboxes porque o email facilita demais a organização das informações, ao contrário das redes sociais, onde tudo fica meio solto, meio disperso. Além disso, sou das antigas: acho que nada substitui a formalidade de uma carta, ainda que agora ela venha em meio eletrônico. Eu, particularmente, sou muito mais cuidadosa com a forma e com o conteúdo do que escrevo quando envio um e-mail. Nos WhatsApp e Facebook da vida, relaxo bem mais. Acredito que o email sempre terá o seu lugar, porque ele traz em si uma certa seriedade, um certo verniz de refinamento, algo que as redes sociais nunca vão ter.”

Reconheço isso; no entanto, fecho com Antonia Leite Barbosa: “Estou com horror aos emails, mas dependo tanto deles! Não tenho coragem de simplesmente deletar e ignorar uma mensagem, então deixo ela ali num limbo (no inbox) que pode durar meses. Nunca tive o prazer de ter uma caixa vazia. Acho que vai ser mais fácil fazer outro filho, criar, educar, do que dar cabo em todas as mensagens. E preciso confessar que me apego por elas. Crio pastinhas com nomes como “interessante, home care, amigos, contatos formais”… e isso vai me custando um HD cada vez maior.”
(O Globo, Sociedade, 14.6.2014)

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3 respostas em “Ainda o email

  1. Para mim o email é uma maneira segura de ter documentos importantes. A questão de escrever, prestar atenção com a ortografia, redação é uma prática que vai nos mantendo em forma… Mas, o velho entusiasmo não existe mais. Hoje há uma dinâmica diferente e ficar horas lendo anexos, realmente não faz bem à saúde: a circulação das pernas fica prejudicada, a coluna desalinhada… Enfim, email só para aquilo que é importante mesmo e que precisa ser guardado. Mantinha várias pastas arquivo dentro do email e confesso que acabava esquecendo o que havia lá dentro. Atualmente, enxuguei muito – só o importante fica. Adoro deletar! Mas, não abro mão do velho email.

  2. Oi,
    Há duas formas de ver isso: Se você somente se comunica com seus pares para falar da vida, do que anda fazendo, do que comeu ou comerá hoje ou amanhã. etc… pode usar FB, What´sApp, etc…
    Mas se você tem uma atividade profissional e precisa se comunicar, de forma séria, de forma profissional, aí não tem jeito: Só com e-mail !

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