O homem é o único animal que lê

Na semana passada estive em Campos, participando da 8ª Bienal do Livro; já havia estado lá há dois anos e, como daquela vez, fiquei muito bem impressionada com a sua organização e simpatia, para não falar na atenção e na participação do público. De acordo com os dados oficiais, mais de 150 mil pessoas visitaram a feira, que a essa altura começa a se transformar emfesta regional, com a associação de 18 outros municípios.

Ontem me encontrei com Tatiana Salem Levy (autora do excelente “A Chave de Casa”), que veio de Portugal, onde vive hoje, para participar da Feira Pan-Amazônica do Livro em Belém amanhã — e, já no domingo, de uma feira parecida em Porto Alegre, no outro extremo do país.

Tenho acompanhado, às vezes por relato próprio, às vezes pelas colunas publicadas aqui mesmo no Globo, as andanças de Zuenir Ventura pelo Brasil afora, falando sobre a arte de escrever, que ele tão bem conhece.

Volta e meia encontro amigos que estão indo ou vindo de bienais, feiras e festas do livro nos lugares mais improváveis do Brasil, alguns deles até aqui no Rio — eu mesma já participei, com espanto, de uma mini Feira do Livro realizada num gigantesco condomínio da Barra da Tijuca. Estranhei o convite mas, quando cheguei lá, percebi que fazia todo o sentido, já que o condomínio tem mais habitantes (e certamente mais recursos) do que muitas cidades pequenas.

Ora, nada disso me parece coisa de uma arte, ou de um produto, que esteja morrendo. Mas a pergunta que invariavelmente me fazem, em cada evento do gênero de que participo, é se a internet não está matando os livros. E, de cada vez, me vejo obrigada a responder da mesmíssima forma:

— Não, a internet não está matando os livros; pelo contrário.

Há quem argumente que as pessoas têm lido menos, que não têm mais o foco e a concentração para ler que tinham antes, que as crianças estão crescendo num ambiente de tablets, games e smartphones que joga os livros para escanteio. E, no entanto, a humanidade nunca teve tantos e tão bons livros à sua disposição — graças, justamente, à essa internet, tão vilipendiada como Fonte Maior de Todas as Distrações.

Antigamente, podíamos passar a vida sem conseguir um livro que estivéssemos buscando; hoje a Amazon está aqui, aí, ali: havendo conexão e cartão de crédito, qualquer livro se materializa no mesmo instante, se estiver em formato eletrônico, ou em alguns dias, se estiver em papel. E, se estiver esgotado, há uma grande chance de se encontrá-lo na estantevirtual.com.br, que reúne sebos de todo o país.

A minha impressão pessoal é que nunca se leu tanto. Nunca houve tantos livros em circulação, o que significa que nunca houve tantos leitores, porque ainda que muita gente escreva só para si, editores estão longe de ter esse hábito. Sempre que escrevo sobre e-books e livros em papel na internet, e escrevo bastante, a resposta invariável que recebo de usuários de Kindles e similares é que nunca leram como hoje. Faz sentido: agora podemos carregar bibliotecas inteiras no bolso.

E as pesquisas que apontam o contrário?

Tenho para mim que as pesquisas, divulgadas com tanto alarde pela mídia, são, com todo respeito, mais ruído do que fato. Google-se “brasileiro lê menos” e aparecerão pesquisas negativas sobre os hábitos de leitura do país; google-se “brasileiro lê mais”, e aparecerão outras tantas positivas. O mesmo fenômeno se repete no resto do mundo.

Hoje, é verdade, temos mais distrações do que jamais tivemos. Os livros enfrentam concorrência pesada com tantos games, seriados, redes sociais e canais a cabo, para não falar em shows, cinemas, barzinhos e teatros. Mas sempre haverá quem escreva histórias, e sempre haverá quem queira lê-las.

(O Globo, Sociedade, 30.5.2014)

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21 respostas em “O homem é o único animal que lê

  1. Por que há pessoas que escrevem sem colocar letras maiúsculas ? Até o Walter Hugo Mãe já aprendeu a usá-las !

    • vou responder por mim: porque eu quero. acho muito desagradável essa mania que as pessoas têm de patrulhar a forma com que outros usam para se comunicar. é mais ou menos o mesmo que perguntar por que há pessoas que não conseguem usar a crase corretamente.
      []’s

    • Eu não me incomodo com minúsculas, mas se encontro um texto todo escrito em caixa alta desisto de ler. Curioso como cada um tem uma reação diferente a isso, né?

    • the coach, talvez o motivo seja o mesmo que leva alguém a colocar um espaço em branco entre uma palavra e a pontuação de uma frase. e não tem mesmo muito a ver com aprendizado. isso se quisermos generalizar a resposta.

      quanto a mim, nos velhos tempos de fórum, no falecido eClube, adotei o vício de, na internet, escrever somente com letras minúsculas, quando criei e administrei um grupo (clube) chamado :g (“dois pontos g”, uma brincadeira que buscava relativizar ainda mais o que nunca foi mesmo tão absoluto e que, se fosse, talvez perdesse toda a importância). morreu o eClube, morreram quase todos os fóruns, mantive o vício. costumo dizer também que, além disso, nada do que escrevo é tão relevante para merecer, de cara, qualquer destaque formal, ficando bem melhor a utilização do signo minúsculo, para que caiba à palavra seu próprio destaque, não ao signo; mas isso talvez seja apenas uma desculpa bonitinha, a outra é a verdade.

      quanto a Walter Hugo Mãe, já lhe disse na primeira vez que você aqui se referiu a ele e às minúsculas em meus textos, conheci-o pesquisando depois de sua referência – conhecer é um exagero: soube que existe. minha ignorância é grande.

      repito: isso não tem a ver com aprendizado, talvez o tenha com o uso que se faça dele… talvez.

  2. O problema é ler e entender o que leu.
    Vejo isso todo dia com os meus alunos de MBA da maior escola de administração do Brasil.
    Leem, colam ideias de quem leu e entendeu e tentam obter sucesso através deste estratagema.
    E, eventualmente conseguem, quando se deparam com professores preguiçosos.
    Professores que já desistiram de tentar corrigir os erros dos alunos que querem obter certificados que os identifiquem como sendo da elite do país, sem que o sejam.
    Isso, ler e não entender, está assolando as classes de pós-graduação de norte a sul do país.
    Minto: No Sul do país a coisa é em menor proporção.
    Acho que aquela antiga ideia de dividir o país, onde de São Paulo para baixo virassem outro país, daria um bom jeito nesta nossa “mistureba”.

  3. Gostei do comentário do Claudio Rúbio. Fiquei apoplético com a afirmação do Saramago, quando um dia afirmou ser a leitura coisa para uma minoria e que “incentivar a leitura era inutil”. A minha reação foi, ao tempo, do tamanho da minha endêmica rejeição ao escritor que, aliás, continuo detestando tanto tempo depois do seu passamento. No entanto, assim à distância, talvez eu devesse reconsiderar…

    • Mas o Saramago, a quem conheci, era um fenômeno muito esquisito. Um escritor genial… cheio de ideias burras! Nunca entendi essa contradição.

        • Guardo na memória algumas joias (de lata) de Chico, que testemunhei em talk shows de TV. Uma delas: “O povo brasileiro nada tem a ver com musica clássica”.
          Ele não deu uma definição de “povo brasileiro”, é claro…

      • Ideias burras muito proprias e apropriadas num antissemita e stalinista que o era “no DNA” (afirmação do próprio). Onde já se viu um stalinista/fascista desprovido de ideias burras? Afinal, totalitarismo em si já é uma burrice…
        Saramago era, politicamente, odioso. Sobre seus livros, houvesse ele atacado da forma desrespeitosa/insultuosa os fundamentos do islamismo como o fez ao cristianismo e ao Deus dos cristãos e por certo teria sido condenado à morte e mais perseguido que o Rushdie…

        • Estamos de inteiro acordo. Mas eu não entendo como desta cabeça absurdamente torta saíram obras-primas como Memorial do Convento, A História do Cerco de Lisboa, O Ano da Morte de Ricardo Reis…

            • Pois é…
              Por falar nisso, têm sido pavorosas as cãimbras ultimamente durante a noite. Pelo sentido, esta dieta de sal deve ter deixado alguma lacuna séria na minha cadeia química. Redução drástica de sódio + ração cotidiana de 200mg de losartana potássica. Preciso rever endos e cardios…

  4. creio que haja brasileiros lendo cada vez mais e brasileiros lendo cada vez menos, como há brasileiros que nunca leram absolutamente nada; desconfio que, em números absolutos, somente este último grupo esteja estável ou decrescendo. os demais crescem, na medida que a população e o poder aquisitivo crescem.

    cresce o grupo que se interessa cada vez mais pela leitura, como cresce o que se interessa cada vez menos e também o que nunca se interessou. acredito, também, que cresça mais o número de vendas que o interesse pela leitura.

    o que me alarma, contudo, é o crescimento assombroso no número de leitores incapazes de chegar ao cerne do texto. e voltar de lá com algo minimamente interessante e lógico. digo isso porque os outros se viram, mas esses que me assustam são capazes de cometer erros monstruosos sem entender o que os levou a isso e seguir plácidos como os magistrados.

    quanto à internet acabar com os livros, balela! até porque as árvores ainda existirão, quando a internet houver desaparecido.

  5. Cora, querida, juro que li, re-li, li de novo, e não entendi como é possível que você não tenha percebido que é preciso ler, para embarcar na sua discussão sobre o hábito de leitura.
    Leio o que você escreve, desde o Aviso aos Navegantes.
    Antes, papel jornal, hoje digital.
    Sit and tell me a good story.
    O conteúdo manda no suporte.
    Vamos acabar aprendendo a lidar com o excesso de informação, nem que seja por stress.
    Leio um livro por semana, graças ao e-book sincronizado, que se começa a ler PC e continua no Smart phone, etc.
    Quando me aposentar, talvez leia mais.
    Quem sabe ler, vai saber escolher, decidir entre entre tanta coisa que é publicada.
    O joio e o trigo continuarão a ser separados,
    Torço para que a exclusão digital não sirva como desculpa para a verdadeira exclusão, que é o analfabetismo funcional.
    Bom final de semana!

  6. O kindle me facilitou demais e não tenho certeza se leio tão mais, mas com certeza compro mais livros. No tempo do livro de papel, era encomendar e esperar o pacote da Amazon, torcendo pra não cair na mão da triagem do correio. Com o kindle é ouvir falar de um livro, pedir o sample na hora e, caso meu interesse seja aguçado, apertar um botão e receber o livro em 2 segundos. Se o livro tem letras miúdas, basta colocar letras maiores.
    Adoro um computador, rede social, seriados, mas os livros nunca perderão o seu lugar de honra na minha vida.

    • comigo é assim também, só que eu tenho certeza que atualmente, com o kindle, leio muito mais: almoço sozinho -, kindle; engarrafamento – kindle; esperando reunião, médico, detran… – kindle; e por aí vai…
      []’s

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