O caso da suíte roubada

Era uma vez um cavalheiro de fino trato que morava num belo apartamento no Flamengo. Este cavalheiro trabalhava para uma multinacional que, um dia, ofereceu-lhe uma missão num país muito distante, no qual ele deveria permanecer durante um ano. Ora, um ano, antes da internet e das ligações internacionais baratas e descomplicadas, era muito tempo. Mas o cavalheiro pesou os prós e os contras, conversou com a família, e chegou à conclusão de que todos teriam a ganhar com a longa temporada no exterior se viajassem juntos; de modo que aceitou a proposta da companhia, fez as malas e tomou todas as providências que alguém precisa tomar quando vai passar tanto tempo fora. Avisou à escola dos filhos, autorizou o gerente do banco a receber e a pagar as suas contas, informou ao síndico e ao porteiro do prédio que o apartamento ficaria fechado durante os próximos doze meses, e partiu com os familiares para o outro lado do mundo, feliz e confiante.

A viagem foi uma beleza. O cavalheiro e os seus foram recebidos como visitas ilustres e cobertos de gentilezas. Enquanto ele desempenhava a sua missão, os filhos aprendiam os rudimentos da língua e faziam amigos na escola, ao passo que a mulher se surpreendia, a cada dia, com as maravilhas que encontrava no mercado. Todos viram coisas extraordinárias e se divertiram com os costumes da terra, muito diferentes dos nossos. O ano, que parecia tão longo visto da saída, passou voando; e, antes que conseguisse sentir saudades do Brasil, a família já estava de volta.

Os amigos e familiares que haviam ficado no Rio foram buscá-los no aeroporto em clima de festa, e ajudaram a transportar a bagagem, acrescida de muitas novidades. O dia estava lindo e o Rio brilhava, como se lhes desse as boas-vindas: toda a saudade que mal haviam sentido explodiu na alegria da volta.

A casa os esperava, aparentemente, tal qual a haviam deixado: a sala até piscou com a luz que, depois de tanto tempo, entrou pelas janelas enfim abertas. Os parentes se espalharam. Um foi para a cozinha ligar a geladeira, outros recolheram os lençóis que cobriam os móveis, outros ainda ajudaram a levar as malas para os quartos. E foi aí que todos se deram conta de que algo muito, muito estranho havia acontecido durante a ausência da família: a suíte do casal, que ficava no fim do corredor, simplesmente desaparecera. O corredor encurtara e agora terminava numa parede, um tanto matada, é verdade, mas inequivocamente parede. Nem sinal de quarto, de closet, de banheiro.
O cavalheiro convocou o síndico e o porteiro, que constataram o singular fenômeno. O apartamento, que tinha três quartos e uma suíte, estava reduzido a três quartos e um final de corredor, muito do mal acabado. Da suíte, nem sinal.

O mistério se desfez aos poucos, em meio ao espanto e à gritaria geral. Deu-se que, enquanto a família estava fora, o vizinho, um estrangeiro que usava o apartamento como pied-à-terre no Rio, aproveitou a ocasião para fazer obras. Quebrou uma parede daqui, outra dali e, já que estava nisso, quebrou também — sem que ninguém percebesse — a divisória entre os dois apartamentos. Apropriou-se da suíte e, antes que surgisse alguém para dar por falta, vendeu o seu próprio apartamento como um formidável três quartos e duas suítes. Em seguida, pegou o primeiro avião e foi embora de vez para o seu país de origem, em algum lugar das Arábias que ninguém sabia ao certo qual era.

O novo vizinho ficou bastante aborrecido, compreensivelmente, quando soube que teria que fazer obras no apartamento recém-reformado — e, ainda por cima, para dar um naco substancial da sua casa suntuosa a um camarada que nunca tinha visto na vida, e que agora se dizia proprietário de um dos seus quartos.

O caso, nem preciso dizer, foi parar na Justiça. Onde, de posse da planta original, de incontáveis testemunhas e de todos os documentos necessários, o nosso cavalheiro não teve maiores dificuldades para provar a sua causa. Mas, ainda assim, correndo, como corria, no Brasil, o caso se prolongou durante muitos e muitos anos.

A vida carioca perdeu o encanto para a família, que tomou horror ao bairro, ao apartamento, ao prédio, ao síndico, ao porteiro e, ça va sans dire, ao vizinho de porta. E que aproveitou a primeira oportunidade para embarcar em nova missão para o estrangeiro, tendo dessa vez o cuidado de deixar um parente morando na casa. Vai que.

Não sei como acabou essa história. Embora pareça boa demais para ser verdade, ela me foi contada como tal no embalo das últimas colunas, em que falei de obras inacreditáveis e de roubos audaciosos. O amigo que a contou me deu o nome e o sobrenome das vítimas, e até o endereço da cena do crime; mas eu, que sou distraída e só guardo o essencial, já não sei mais o “quem” e o “onde”, ainda que dê risadas, desde que a ouvi, a respeito do “como”.

Certeza certeza, só a de que nunca mais me queixo das obras aqui de casa.

(O Globo, Segundo Caderno, 29.5.2014)

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10 respostas em “O caso da suíte roubada

  1. Cora, fiquei esperando um corvo no ombro do proprietário, sussurrando: “Nevermore” …
    Amei, o compasso da prosa e vou relê-la no Face 🙂 pq é muito bom começar as leituras com um belo texto. Norma Cardoso

  2. Uau! Eu, que estou em fase de cavar matéria na minha memória para produzir alguns pequenos contos a que chamo de “extraordinários”, fico com inveja desse aí…

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