Sim, ainda se fazem ladrões como antigamente

Minha irmã perdeu o celular. Perdeu é modo de dizer: teve o celular roubado, o que é rotina tão rotineira na nossa cidade que já não chega a ser notícia. O que eu estranhei, quando recebi mensagens das minhas sobrinhas me avisando do acontecido, é que o roubo aconteceu enquanto ela estava no palco, tocando, durante o concerto de encerramento do IV Festival de Música Antiga da UFRJ, no Salão Leopoldo Miguez da Escola Nacional de Música, ali no Centro. Logo imaginei portas arrombadas e camarins revirados, mas mais tarde, conversando com a Laura, soube que a história foi ainda mais estranha.

(Abro o parênteses para fazer uma recomendação: se vocês ainda não conhecem o Salão Leopoldo Miguez, não deixem de aproveitar a primeira oportunidade para visitá-lo. Ele fica na Rua do Passeio, praticamente ao lado da Sala Cecília Meireles, e é uma das mais belas salas de concerto do Rio de Janeiro. Fecho o parênteses.)

Eis o que a Laura me contou:

— Foi uma tarde daquelas, em que nada dá certo. O concerto seria às 19hs, e saí bem cedo de casa para ter tempo de dar uma passada no programa com o pessoal. Esperei, esperei e nada de táxi. Liguei pro Easy Taxi, pro 99Taxi, pra tudo o que é táxi, e nada. E o tempo passando! Comecei a ficar angustiada. Corri para o metrô, o que significa que tive que andar o trecho entre a estação e a Escola Nacional de Música já de noite. E morrendo de medo, porque dia sim e outro também alguém conta uma história de roubo de instrumento em frente à ENM, e eu estava com as minhas duas flautas favoritas. Mas, tirando o fato de ter chegado esbaforida e em cima da hora, nada me aconteceu, e eu relaxei, aliviada, enquanto montava a flauta e tocava umas notinhas antes do público ocupar seus lugares.

Toquei com a Gretel Paganini, o Felipe Prazeres e o Eduardo Antonello. Acho que o concerto foi bem bonito e, em alguns lugares, realmente inspirado e tocante. Mas teve um momento de surrealismo puro. Imagine que, lá pelo meio do programa, um sujeito esquisitão, com cara de turista perdido e ligeiramente bêbado, com camiseta da Seleção Argentina, subiu trôpego ao palco, como se estivesse procurando alguma coisa, uma porta de banheiro, uma saída. Dizem que cheirava a cachaça, e que resmungava baixinho o tempo todo. Bom, ele acabou entrando pelo palco e visitando rapidamente o nosso camarim, enquanto nós quatro, desligados de tudo, fazíamos soar os acordes de Carl Philip Emmanuel Bach, enlevados pela música.

Alguns minutos depois, diante dos olhares perplexos da platéia, que ainda tentava entender como é que um sujeito maluco sobe no palco em pleno concerto, saiu meio cambaleante, desceu as escadas e sumiu na noite… carregando no bolso o iPhone da Gretel e o meu Samsung, além de todo o nosso rico dinheirinho!

— Mas como é que deixaram a porta do camarim de vocês aberta? — perguntei, já indignada com a Escola Nacional de Música.

— Não deixaram, — disse a Laura. — Você se lembra como é a sala? O camarim têm duas entradas, uma por trás, que foi fechada, e bem fechada, e uma pela frente, que dá direto no palco. A única forma de chegar a essa entrada é, justamente, pelo palco. Ou seja, só os músicos têm acesso a ela. Ou teriam, porque ninguém também imagina que um maluco vai subir pelo palco adentro durante um concerto, não é?

— Mas vocês não viram o cara? Por que não pararam o concerto e correram com ele de lá?

— Não, claro que não vimos! Quando tocamos, ficamos insensíveis ao resto do mundo, concentrados na música. Não registramos nada. Tudo isso que eu te disse eu sei porque me contaram depois, mas na hora nenhum de nós percebeu nada. Já o público não tomou nenhuma atitude porque, obviamente, todo mundo esperava que alguém da produção retirasse o intruso do palco, de preferência sem atrapalhar o concerto. E quando a produção foi atrás, ele já estava saindo.

Terminamos com um lindo trio de Quantz. Quando voltamos para o camarim é que percebemos que ele havia feito a limpa. Em pleno concerto, diante da plateia em peso, incluindo vários professores da UFRJ e o próprio diretor da casa, que ficou compreensivelmente consternado. E a Gretel e eu, apesar de muito abaladas, só pensávamos no que havia escapado — a Gretel, no seu segundo arco, e eu, na minha flauta de reserva, que ainda estava na bolsa. É claro que ia ser difícil para o sujeito sair carregando uma flauta e um arco de cello pelo palco afora e o público não perceber, mas ainda assim… Ousadia pelo menos ele tem de sobra. E celulares também, agora!

o O o

É claro que fiquei solidária com a Laura e muito revoltada com o roubo. Mas confesso uma pontinha de admiração malsã por este canalha audacioso, que me lembrou os ladrões clássicos e elegantes da literatura e do cinema, e um tempo em que a “profissão”, se é que se pode chamá-la assim, envolvia doses iguais de habilidade, criatividade e risco. Num mundo feito o nosso, em que as palavras “ladrão” e “assassino” são praticamente sinônimos, e em que a violência passou a ser elemento trivial do cotidiano, não deixa de ser curioso saber de um crime que podia ser coisa de cinema. Pré-Tarantino, bem entendido.
(O Globo, Segundo Caderno, 22.5.2014)

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8 respostas em “Sim, ainda se fazem ladrões como antigamente

  1. Querida Cora, veja só que coisa mais controvertida.
    O diretor da Escola de Música da UFRJ divulgou, logo no dia seguinte ao ocorrido, uma carta que relata os acontecimentos tão surrealistas daquele concerto de sexta-feira 16 de maio de 2014.
    Afirma que ” Um sujeito que estava no Salão Leopoldo Miguez, pretensamente assistindo ao concerto de encerramento do IV Festival de Música Antiga, subiu ao palco durante a apresentação, entrou na coxia e acessou a sala 21 pelo passadiço. Estava vestido como turista (chapéu, bermuda, sandália com meia), falava italiano e tinha cheiro de álcool.

    Os funcionários da EM interceptaram o sujeito, que disse estar procurando o banheiro. Ele foi retirado do salão e, por sua atitude suspeita, foi levado aos seguranças e sua mochila foi revistada. Nada havia que indicasse tratar-se de um furto e o sujeito foi liberado.”

    Ou seja, não apenas o senhor foi revistado como também não possuía os celulares em sua posse. Será que ele furtou os mesmos após ter sido liberado ??

    Precisamos de um detetive para elucidar este mistério…

    • Não há mistério nenhum. Só a polícia pode revistar as pessoas; seguranças não podem tocar em ninguém, só revistar bolsas e mochilas. Ele obviamente guardou os celulares e o dinheiro nos bolsos, fora do alcance da segurança da ENM.

      • Cora, o que se entende da carta do diretor é que não apenas a mochila não continha os celulares, como também não havia nenhum indicativo de que o sujeito “que falava italiano e estava vestido de argentino” houvesse perpetrado o furto, sendo o sujeito “liberado” em seguida.
        Não sou da área jurídica, mas entendo que a autoridade policial possa fazer a revista (que não distingue abrir a mochila de apalpar os bolsos por exemplo), baseada no código de processo penal.
        Art. 244 – A busca pessoal independerá de mandado, no caso de prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar.
        Desconheço se um indivíduo sem autoridade policial, como um segurança privado, esteja habilitado a fazer a revista, ou se deverá chamar a polícia. Imagino que a segunda alternativa seja a legalmente aceitável.
        Realmente as pessoas num lugar de concerto como a antiga ENM (hoje Escola de Música da UFRJ) continuam tratando a performance de maneira tão sacralizada, que nem ousam impedir alguém de subir no palco no meio da apresentação, como se fossem interromper um ato divino.
        Imaginem se fosse um serial killer…
        Abraços e toda a solidariedade à querida Laura e seus colegas vitimados.

  2. SINTO PELO OCORRIDO,MAS FIQUEI MUITO INTRIGADA, EXPLICO :”COMO ALGUEM DESCOBRE COMO AS PORTAS ESTAO,QUE EXISTEM DUAS ENTRADAS,ETC…”SEM ACUSAR NINGUEM…EMBAIXO DESSE ANGU TEM MUITO CAROÇO! ADVINHO O SURRUPIADOR NAO E ! DOS MALES O MENOR…AGORA TODO CUIDADO E POUCO…

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