Prejuízo, desespero e gargalhadas

Em algum momento do ano passado, assustada com os incêndios sérios causados por curtos-circuitos que foram parar no noticiário, decidi trocar a instalação elétrica do apartamento, que continuava a mesma desde que me mudei, lá se vão vinte anos. Passei por poucas e boas até chegar a um eletricista competente e responsável. As paredes também. Achei então que uma mão de tinta não cairia mal; mas, se era para pintar tudo, por que não trocar logo as esquadrias da sala, velhas e carcomidas? E por que não dar uma olhada nos armários do quarto, de onde caía um pozinho suspeito?

Para encurtar a história, o que era para ter acabado no Natal entrou pelo Ano Novo, pelo carnaval e pela Páscoa. Meu sonho, agora, é ver a casa pronta no meu aniversário, em fins de julho — mas como há uns canos irremediavelmente entupidos num dos banheiros, pode ser que eu aproveite a ocasião para refazer o que precisa ser refeito por lá. Ou seja, tudo.

As obras vêm sendo tocadas pela Letícia e pela Thais, duas arquitetas jovens, simpáticas e competentes. Mas, como ninguém faz milagre, e como obra é obra, há sempre um momento em que a gente se arrepende amargamente de ter começado o serviço. Este momento me aconteceu pouco depois que voltei das férias. Fiz um post chorando as mágoas no Facebook — e me acabei de rir com os comentários.

“Tive um pedreiro que, ao colocar o piso nos banheiros e na cozinha, conseguiu entupir com argamassa todos os canos que ele mesmo havia trocado dias antes”, escreveu a Irene Schmidt. “Teve que quebrar tudo de novo e trocá-los, e reinstalar o piso. Depois, ao furar o piso para parafusar o vaso, furou o cano que havia trocado pela segunda vez… Outro, ao trocar as janelas, derrubou uma janela velha de três metros, com vidro e tudo, no estacionamento, dez andares abaixo, que por sorte não tinha carros estacionados naquela hora. Os rodapés de porcelanato eu mesma instalei. Coloquei o pedreiro (já a quinta equipe!) para fora quando vi que ele estava pondo todos os rodapés de cabeça para baixo… Chega ou continuo?”

As desgraças contadas pela Irene, que publiquei num post à parte, fizeram as alegrias de outros 600 sofredores, e deram origem a um daqueles momentos de catarse coletiva tão interessantes nas redes sociais.

Pojucan: “Reforma do banheiro. A caixa d’água tem que mudar de lugar. Muda de lugar e não tem pressão para o chuveiro quente. Mestre de obras alega que ele só toma banho frio. E eu? Depois de uma rápida aula sobre evolução humana desde a cuia ao chuveiro elétrico, consegui um banho quente.”

“Após um vazamento vindo do apartamento de cima, que estourou o chão da cozinha, chamei um pedreiro para refazer o piso”, contou Lindalva Cavalcante. “Como não havia mais da mesma cerâmica, comprei uma lisa combinando a cor. Fiz um desenho para que não ficasse feio, mas ele simplesmente dispôs as peças num retângulo. O resultado é que hoje a minha cozinha tem algo como se fosse um túmulo, parecido com os que existem nas antigas igrejas de Minas Gerais.” Verdade: lá está a foto que não a deixa mentir.

Sueli Nunes “O que você me diz de chegar em casa cansada do trabalho e não poder entrar pela porta da cozinha porque o piso novo foi posto?” perguntou (retoricamente) Sueli Nunes. “Tudo bem, vamos entrar pela social… mas o infeliz colocou a geladeira exatamente atrás da porta! Sentei no corredor e chorei.”

Ricky Goodwin contou um caso que poderia ter sido escrito por Roald Dahl: “Porta de pinho de Riga. Belíssima. Aquelas veias. 2,30 m de altura. Trabalhada. Um dia chegamos na reforma da casa e eles tinham picotado a porta para servir de escora de teto.”

“Meu apê em Porto Alegre era duplex”, escreveu Suzana Siqueira. “Um dia, em meio à obra, chego em casa e havia uma criança de uns oito anos, no alto da escada caracol de ferro, segurando o corrimão com as duas mãozinhas. Perguntei o que estava fazendo: “Meu pai (o eletricista) me trouxe para eu ir sentindo se vai dar choque na escada, porque o quadro de luz é bem aqui, ó…” Expulsei o assassino e quase fiquei com a criança!”

Muita gente toma atitudes drásticas. Foi o caso dos sogros do Fabiano Caruso: “Meus sogros, ela de 64 e ele 75, desistiram no ano passado, e entraram em um curso de pedreiro, por conta própria, para terminar a casa.”

Já o Marcos Figueira conhece uma história imbatível: “Um grande amigo estava reformando a cozinha. Guardou os móveis no quarto de empregada e, como sabia que a atividade do dia era a lixação, solicitou ao energúmeno, antes de sair para o trabalho: “Darcy, antes de começar a lixar a cozinha, por favor feche o quarto de empregada”. Quando voltou, o Darcy tinha retirado o portal e a porta e “fechado” literalmente o quarto de empregada. Estava orgulhoso pois tinha conseguido até mesmo dar o acabamento onde ficava a tal porta emparedada. Quero ver alguém superar essa!”

Flórida Barreiros Rodrigues não contou nenhum caso horripilante, mas deu uma boa dica: “Para quem trocar os canos, recomendo fotografar, a média distância, cada cano, antes de assentar o revestimento. Assim, diminuímos o risco de furar os canos depois de tudo fechado. É claro que tem que ser de um ângulo que dê para entender a foto depois.”

Para quem quiser apreciar o conjunto completo da obra (!), post e comentários completos estão em on.fb.me/ROLyet.

(O Globo, Segundo Caderno, 15.5.2014)

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6 respostas em “Prejuízo, desespero e gargalhadas

  1. Cora, nada a ver com nada da crônica, mas peço um help; meu monitor apareceu sem mais nem aquela com uma linha vermelha vertical, bem fininha, quase no meio da tela. Já andei bisbilhotando em alguns sites sobre dúvidas a respeito de tudo, mas não entendi bem as respostas e de nada adiantou… Ontem fiz várias “atualizações”, meu computador (é notebook)estava mais do que ótimo e de repente isso…Tomara que vc leia esse meu “apelo” (a dramática!) e possa me ajudar. Quanto a obras, conheço uma história de um amigo que mandou consertar o telhado da casa de campo ,e à noite mais parecia aquela música “a lua furando nosso zinco(!) salpicava de estrelas nosso chão”…Muito lindo na música, péssimo na vida real…

  2. Sofri obras sem sair do apê e digo: Não tem nenhuma graça mesmo! E olha que só as vivi pela metade, porque a outra metade eu estava no mar.Quanto à Nina, bem…Quem corre por gosto não cansa; ela adora uma obrinha em casa!

  3. Cora, meu super-obrigada por essa sua compilação de casos de obra !!

    >> Além de me fazer rir muuuuito lendo tudo para minha mãe rir também,
    seu post serviu para afastar de mim a idéia de construir um segundo pavimento
    em nossa casa (devo reconhecer: adoro pensar em obras, projetar, imaginar nova
    organização para os espaços).
    >> Só mesmo você para nos fazer rir com as “furadas” causadas por gente
    gente completamente despreparada, que se diz “profissional”. O pior é
    que mesmo sem qualificação, todos, invariavelmente, parecem se
    achar o “rei do pedaço” e cobram valores exorbitantes…
    >> E o que dizer da explosão de franquias do tipo “fulano resolve”, “marido de aluguel” etc etc
    que também não garantem a mínima qualidade da mão-de-obra contratada.
    >> Não sei o que dá mais raiva: contratar um pedreiro, gesseiro, pintor ou algo assim e se aborrecer (e gastar) com o serviço mal executado ou agendar uma visita para orçamento, alterar toda a sua rotina por causa disso e ficar esperando, esperando sem que o sujeito apareça ou dê algum retorno ?!?!?!
    >> O pior é que mesmo se contratando arquiteto/engenheiro, existe grande possibilidade
    de não se ter o serviço entregue a contento porque a formação desses profissionais
    também já não a mesma …
    >> Muita pesquisa por indicações, bastante auto-controle e uma “reza forte” antes de iniciar qualquer obra ou reparo parecem ser cada vez mais necessários.

  4. somente pérolas, se quisermos levar no bom humor, mas, se levarmos a sério – como deve ser quando precisamos dos mesmos serviços – a coletânea serve de curso preparatório para todo aquele que se atreve a iniciar “uma pequena e inocente reforma rápida”. [algum cineasta talentoso também pode recorrer aos escritos para bolar um roteiro de filme de horror digno de Oscar.]

  5. Tentei ler a cronica para o meu marido, mas ria tanto que ele acabou não entendendo nada do que eu dizia, mas também ria a bandeiras despregadas. Deve ter sido de desespero já que ele trabalhou com construção em Cabo Frio lugar que é sabido te,r se não a pior, uma das piores mãos-de-obra do país.

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