Sem sopapos, por favor!

Recebi um telefonema da Barbara Marcolini, colega do Globo a Mais, que estava às voltas com uma reportagem sobre a etiqueta para esses nossos tempos de smartphones, tablets e conexão 24/7, e queria uma estrevista; ao longo da semana, as redes sociais se agitaram com a troca de sopapos entre dois frequentadores do Theatro Municipal — of all places! — por causa da interminável conversa ao celular que uma moça insistia em manter durante o espetáculo, atrapalhando todos à sua volta. Vocês acompanharam, naturalmente: um rapaz francês que estava atrás da linguaruda se exaltou e pronto, confusão formada. Logo surgiu a tag (irônica: mas houve quem levasse a sério, só para vocês verem como os ânimos andam exaltados) #somostodosfranceses — porque a verdade é que ninguém aguenta mais tanta gente mal educada e sem noção.

Há quem queira, pura e simplesmente, proibir a entrada de celulares e gadgets em geral nas salas de espetáculo; mas não é por aí. Há pessoas que não podem se dar ao luxo de ficar afastadas de seus aparelhos. Sâo os profissionais que antigamente andavam com bips (lembram deles?) e que precisam estar alcançáveis 24 horas, como os médicos, por exemplo. Com o fim dos bips, a sua linha direta com o mundo passou a ser o smartphone. Mesmo pessoas que não precisam profissionalmente de conexão contínua passam por momentos em que isso é importante. Sem falar que o Twitter — usado discretamente, dentro da mochila ou embrulhado num casaco — já salvou a sanidade mental de muitos de nós em espetáculos insuportáveis.

Como sempre, e como em tudo, a solução está na educação e no bom senso. “Educação”, aqui, vai um pouco além da educação-sinônimo-de-boas-maneiras que todos, em tese, deveríamos ter: ela figura mais como adaptação, como compreensão e como aprendizagem de uma tecnologia que, apesar de tudo, ainda é relativamente nova.

Na verdade, o próprio silêncio nas salas de espetáculo foi aprendido aos poucos, no decorrer de séculos de muita conversa, bebida e comida. No The Globe, o famoso teatro de Shakespeare, o público fazia a maior algazarra, entre vendedores de cerveja e de petiscos que circulavam livremente entre as pessoas que entravam e saíam. Já uma sessão de cinema indiana é uma manifestação cultural que vai muito além da exibição de um filme na tela — muito falatório, muitos “diálogos” com a ação (mais ou menos como acontece nas apresentações de teatro para crianças, em que os pequenos avisam aos personagens que estão em perigo) e, sobretudo, muito canto e dança durante os números musicais. Essa tradição divertidíssima está, a meu ver infelizmente, por um fio: nos moderníssimos cinemas instalados nos shoppings de Nova Delhi, Bangalore e Bombaim, que poderiam estar em qualquer grande capital do mundo, a platéia também já é igual a qualquer outra platéia.

O que precisamos aprender, e o que vai acontecer no seu devido tempo, é a adaptação de hábitos antigos a novas necessidades. Sim, porque a partir do momento em que passou a ser realidade, a conexão contínua tornou-se uma necessidade — ainda que muita gente prefira considerá-la vício. Como compartilhar o filme ou a peça sem perturbar quem está ao lado é que são elas. Estamos atravessando um momento delicado, de transição, com exageros e incompreensões de parte a parte.

Dito tudo isso, resta um fato incontestável: manter o som do telefone ligado e atendê-lo durante um espetáculo é o cúmulo da falta de noção e de educação. Se a chamada que chega — silenciosamente! — é fundamental, que seja respondida por SMS. Ou que seja atendida lá fora, longe dos ouvidos de quem está tentando se concentrar no que acontece no palco.
(O Globo, Sociedade, 9.5.2014)

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13 respostas em “Sem sopapos, por favor!

  1. Se tem uma coisa que eu não entendo é a nossa necessidade de copiar os americanos.
    Mas só copiamos o que não presta.
    Nas peças em NY, TODAS, tem alguns seguranças que andam pela sala chamando a atenção, com lanternas, das pessoas que estão com os seus smartphones ligados ou filmadoras. ( estes, eu acho, chegam a levar porrada )
    Por que imitamos só o que não presta de lá ? Sei não…. Mas acho que o Brasil está se tornando o depositário de tudo que não presta no mundo ! ( lamento, Cora, mas é um simples desabafo contatacional )

  2. somos todos franceses:

    Julie Delpy and Ethan Hawke (o casal de “Before Sunrise”, “Before Sunset” e “Before Midnight”)

  3. Eu desligo…porque posso, é claro! As minhas emergência podem esperar duas horas. Um dia tomei um esporro de uma senhora atrás de mim no teatro da UFF durante um concerto da OSN, porque eu estava usando a Canon 350D (sem flash, com 2000 ISO). O problema é que uma EOS faz aquele barulho a cada disparo, mas nós que fotografamos nem notamos…
    Fiquei envergonhado por ter perturbado…

  4. quando o egoísmo se une à falta de Educação, os pequenos poderes do indivíduo são usados para pisar, humilhar e desprezar a sociedade e as regras de convivência civilizada. a pessoa precisa de educação e terapia para corrigir os dois defeitos. o smartphone é, no caso, só um veículo; poderia ser trocado por um saco de pipocas, uma bolsa, um mosquito imaginário etc. que o resultado seria o mesmo.

  5. outra característica da falta de educação é a mania que se tem de dizer aos outros como fazer seu trabalho. eu, por exemplo, se fosse você começaria esse texto assim: “estava no cinema quando senti meu celular vibrar, dei uma olhada discreta…” 😉
    []’s

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