Livros para o dia das mães

Um dos piores erros que um viajante pode cometer é confundir tempo e espaço; podemos nos mover no espaço, mas a ninguém é dado viajar no tempo. Ellis Hock, personagem do novo romance de Paul Theroux, comete esta confusão fatal ao viajar para a África, depois de ver a sua vida desmoronar nos EUA: a loja da família que tocou diligentemente está em fim de linha, a mulher pede o divórcio e até a filha, depois de pedir adiantada a sua parte da herança, vira-lhe as costas. Ellis se lembra que, há 40 anos, foi feliz, muito feliz, em Malabo, um vilarejo paupérrimo no Malaui onde trabalhou como professor de inglês do Peace Corps, e é para lá que decide voltar, aos 62 anos, quando se torna redundante em Medford, Massachusetts.

Como sabe qualquer pessoa de 60 anos, 40 anos não são nada. Como sabe qualquer pessoa, 40 anos podem ser tempo demais. A Malabo de Ellis Hock, que era apenas um drama, virou — como boa parte do continente africano — uma tragédia sem remédio, um lugar no qual a única coisa sensata a fazer é fugir enquanto é tempo. Mas, como ele vai descobrir, já bem acordado do sonho que o levou até lá, a fuga não é mais uma possibilidade: ao tentar escapar de Malabo, ele cai numa aldeia de crianças doentes e ferozes, órfãos da Aids e das guerras, que vivem como uma matilha selvagem.

Paul Theroux foi feliz na África há 50 anos. Como seu personagem Ellis Hock, ele também nasceu em Bedford, também tem ancestrais italianos, também vinha de família de comerciantes e também foi voluntário do Peace Corps no Malaui. Mas as semelhanças terminam aí. Em vez de passar a vida na sua cidade natal, Theroux correu mundo. E escreveu. Muito. É um dos melhores travel writers, escritores de viagem (essa espécie que tanto invejo); é também um ficcionista de raro talento.

“O rio inferior” (Alfaguara, tradução de Cássio de Arantes Leite) é, mais do que um grande romance, um retrato da África contemporânea, vítima de todas as misérias — inclusive, na visão de Theroux, da “ajuda humanitária” de artistas de rock e celebridades em geral.

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A aldeia de crianças ferozes que aprisiona Ellis Hock me lembrou um outro grande romance, “O senhor das moscas”, de William Golding, um dos clássicos definitivos do Século XX. Por acaso, este livro extraordinário, publicado em 1954, acaba de ser reeditado em português, numa excelente tradução de Sergio Flaksman, pela mesma Alfaguara responsável por “O rio inferior”. “O senhor das moscas” foi uma das leituras mais importantes da minha vida; relendo-o esta semana, fiquei feliz em ver que não perdeu nada do seu grandioso impacto.

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Outra leitura fundamental da minha vida, outro clássico de roupa nova: “Casa-grande e senzala”, de Gilberto Freyre, que ganhou da Global Editora um primor de edição na comemoração dos seus 80 anos, com caderno especial comemorativo, fortuna crítica, poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral, mais uma completíssima bio-bibliografia do professor Edson Nery da Fonseca, que conheceu o autor como poucos e a sua obra magna como ninguém. Isso aconteceu no final do ano passado, e é algo a respeito do qual eu já devia ter falado, mas coisas e colunas foram acontecendo mais rápido do que eu imaginava, e o livro, tão importante, ficou por contar. Fica a dica, então, não só para o Dia das Mães, mas para todos os dias do ano.

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E mais um clássico, porque não é à toa que os clássicos são clássicos: “A história da arte”, de E. H. Gombrich (LTC Editora), desde 1950 a Bíblia de todo mundo que se interessa por arte. Este também em nova edição, num tamanho gostosinho e perfeito para ler, dividido em duas partes muito engenhosas: uma com o texto, outra com reproduções das obras a que o texto faz referência. Cada qual com o seu prático marcador de fitinha, para que ninguém se perca em suas mais de mil páginas. Formidável!

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Ninguém precisa necessariamente gostar de arte, porém, para se divertir (e muito!) com “Café com Lucian Freud: um retrato do artista”, de Geordie Greig (Record, tradução de Waldéa Barcellos). É que, a par de ser um dos artistas mais importantes do seu tempo, Lucian, neto daquele outro Freud que todos conhecemos, levou uma vida bastante sui generis: envolveu-se com bookmakers e marginais, viveu casos de amor com um número absurdo de mulheres e teve 14 filhos reconhecidos — mas provavelmente muitos mais. Geordie Greig, obcecado por seu personagem, é quase um stalker. Persegue Freud desde menino, namora a filha de uma de suas ex-mulheres, muda-se para o edifício onde fica o estúdio do pintor e — finalmente! — acaba se tornando seu companheiro ocasional de café da manhã. É dessas conversas, acrescidas de entrevistas com pessoas cujos destinos se cruzaram com os do artista, que recolhe a matéria prima para este livro fascinante, cujo tom está mais para revista de fofocas do que estudo da arte. Pudera não: Greig foi, durante anos, editor da “Tatler”, uma espécie de “Caras” da aristocracia britânica.

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“Psychogames” (Pro 333, tradução de Isa Melville) não é bem um livro, mas uma caixinha carregada de folhetos, cartões, desenhos e questionários, cheios daqueles testes de personalidade que tanto amamos fazer. Não tenho certeza se conseguirá responder à pergunta que se propõe na capa (“Quem é você?”) mas, com certeza, garante horas de diversão.
(O Globo, Segundo Caderno, 8.5.2014)

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5 respostas em “Livros para o dia das mães

  1. Li O Senhor das Moscas ha uns vinte anos, em Ingles, e mesmo dominando pouco o idioma (pelo menos com fins literarios), me fascinou. Nao deixa de ser um romance de aventuras, com ingredientes dos mesmos que lia avidamente quando crianca – acho que foi o que me fisgou. Mas eh, sobretudo, uma cronica das relacoes humanas e da sociedade: um microcosmo disto. Otima dica, Cora!

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