Um encontro contra a discriminação

Essa semana, enquanto a internet discutia se #somostodosmacacos ou #somostodosbananas, um pequeno grupo muito especial de pessoas, reunidas sob os auspícios da Unicef no Berkman Center for Internet & Society, da Universidade de Harvard, aprofundava a questão: o que é que se pode fazer, efetivamente, para acabar com a discriminação, essa irmã gêmea igualmente horrenda do racismo? Como dar voz às comunidades carentes, às favelas, às tribos, às áreas mais frágeis da sociedade?

Todos sabemos que é conversando que a gente se entende — mas, para que esse entendimento seja possível, é preciso, antes, que a conversa se dê em pé de igualdade, e que todos sejam ouvidos. Nisso, infelizmente, o universo digital ainda deixa tanto a desejar quanto o mundo em que (fisicamente) vivemos. Basta lembrar que cerca de um terço do planeta ainda não tem acesso à internet; e que ter este acesso é apenas um primeiro passo.

O Digitally Connected reuniu pesquisadores, ativistas e jovens comunicadores de diversos países para pensar sobre isso. Como melhorar e democratizar o uso da Internet para quem mais precisa dela?

O Brasil foi representado por Rene Silva, que criou o jornalzinho “Voz da comunidade” no Alemão quando ainda era criança, e que hoje, aos 21 anos, já tem larga experiência em comunicação, e por Paulo Rogério Nunes, do Instituto Mídia Étnica, uma organização modelar no combate ao racismo na mídia. Paulo Rogério é editor do Correio Nagô, um blog de notícias dedicado à diversidade e aos direitos humanos, que tem jovens correspondentes em várias comunidades do Brasil; ele é Fellow da Ashoka e escreve para a revista “Americas quarterly” sobre inclusão social no Brasil. Ele está testando, com jovens quilombolas da Ilha da Maré, na Bahia, uma tecnologia pioneira chamada VOJO, que prescinde de smartphones, computadores ou tablets para o acesso à internet. Conversei com ele, por email, sobre o Digitally Connected: valeu a pena?

“Foi muito positivo” — avaliou. “Saímos com muitos contatos e ideias para aprimorar nossos projetos. No caso do VOJO estamos tentando envolver outros pesquisadores do MIT e de Harvard para colaborar com o projeto, bem como fazer cooperação com outros países: já estamos em contatos com grupos que trabalham na Colômbia e na Etiópia. Nossa ideia também é nacionalizar o projeto, tornando a ferramenta disponível para outras comunidades, especialmente rurais e historicamente discriminadas.”

Um dos grandes problemas do mundo digital é a assimetria nas relações entre o que hoje se denomina Norte global, a parte teoricamente mais desenvolvida do planeta, e Sul global, a sua contraparte ainda em desenvolvimento.

“O evento discutiu como podemos criar relações mais simétricas, a partir da ideia de que há muitas tecnologias criadas no Sul global que são mais representativas, e que podem ser usadas em outros países com problemas similares” — observa Paulo Rogério. “Esse foi um dos principais pontos discutidos no encontro. Vale dizer que, no caso do VOJO, a tecnologia não foi desenvolvida no Sul, mas está sendo adaptada aqui, e a ideia é que, por meio do nosso trabalho, o Brasil seja o país a liderar o seu uso e desenvolvimento.”

Outro problema: não basta dar às pessoas a oportunidade de falarem. É preciso, sobretudo, lhes dar condições de serem ouvidas. Como resolver isso?

“Em relação ao VOJO, a ideia é, justamente, fazer com que as histórias sejam ouvidas — em nível local, nacional e até mesmo internacional. Para isso, estamos trabalhando para que as rádios comunitárias e públicas, e a mídia de um modo geral, possam ter acesso a esses conteúdos e escrever histórias a seu respeito. Ou seja, queremos viabilizar meios para que grupos que estão fora da “sociedade digital” possam ter as suas narrativas ouvidas.”

Que ninguém espere lendas ou contos de fadas: o que a parte esquecida da humanidade tem para contar são histórias de desastres ambientais, de remoções forçadas, de desigualdade racial e de violência de todos os tipos.
(O Globo, Sociedade, 2.5.2014)

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3 respostas em “Um encontro contra a discriminação

  1. Eu continuo achando que a discriminação é principalmente cultural e social. No dia que a maioria tiver educação – pelo menos conseguir ler e entender o que leu, dizer o que pensa e ser entendido – já vai ser um enorme passo.

  2. nada nivela mais que a educação. qualquer outra tentativa é balela !!!!!!!!!!!!!

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