Um tesouro d’além mar

Até outro dia, se alguém me falasse na cidade de Hastings — coisa que não me lembro de ter acontecido nos últimos 50 anos — a primeira coisa que me viria à mente seria a batalha que levou o seu nome e que marcou a invasão normanda da Inglaterra, nos idos de 1066. A segunda seria, é claro, a Tapeçaria de Bayeux, ilustre antepassada das histórias em quadrinhos, produzida logo a seguir, que mostra os eventos que levaram à dita batalha numa sucessão de cenas de ação, com legendas em latim e até uma participação especial do cometa de Haley, na sua primeira representação visual conhecida.

Acontece que, do outro dia metafórico lá de cima para cá, assisti a “Foyle’s war”, uma das melhores séries de televisão que já vi — e que se passa, justamente, em Hastings. De modo que, se alguém me falar atualmente na cidade, a primeira coisa que me virá à cabeça será a sua delegacia de polícia, comandada pelo fantástico detetive Christopher Foyle, representado pelo não menos fantástico ator Michael Kitchen. Quando o encontramos, ele está no ministério, pedindo transferência pela quarta vez. Corre o mês de maio de 1940, o que significa que, desde que a guerra foi declarada, o coitado pede transferência mais ou menos a cada dois meses, frustrado com o fato de continuar trabalhando numa repartição provinciana quando poderia estar no front.

Seus superiores, porém, acham que ele está muito bem onde está. Não é porque há uma matança acontecendo por atacado nos campos de batalha que a matança que acontece no varejo do cotidiano deixe de merecer a devida atenção. Numa tentativa de apaziguar Foyle, no entanto, o comandante que recusa o seu pedido aumenta o efetivo da pequena delegacia. Entram em cena, assim, o sargento Paul Milner (Anthony Howell), que acaba de perder uma perna em ação, e a motorista Samantha “Sam” Stewart (Honeysuckle Weeks), que, junto com o inspetor, irão compor o miolo da série ao longo das próximas seis temporadas.

Antes que subam os créditos finais do primeiro episódio, contudo, já teremos uma ideia bem clara de quem é Christopher Foyle. Uma mulher alemã é assassinada, mas a solução do crime não interessa às autoridades, que lhe acenam com a tão sonhada transferência — desde que deixe o caso para lá. A Inglaterra está matando o maior número possível de alemães na frente de batalha; que diferença faz uma alemã a mais ou a menos? Mas, para Foyle, não há ingleses ou alemães; há pessoas. Ele prefere passar o resto da guerra investigando crimes na cidadezinha costeira a abrir mão dos seus princípios.

o O o

Criada e escrita por Anthony Horowitz, “Foyle’s war” é a série inglesa por excelência: seus episódios são longos e bem desenvolvidos, têm uma reconstituição de época primorosa e aquele ritmo peculiar que nenhuma outra televisão do mundo tem. Cada capítulo pode ser visto isoladamente, já que cada caso se resolve na hora e meia de duração do episódio, mas o ideal é seguir a ordem certa, para acompanhar a evolução dos personagens e, sobretudo, a forma insidiosa como a guerra vai se tornando presente no dia a dia dos habitantes de Hastings.

“Foyle’s war” tem personagens e situações moralmente complexos. Tem vilões de almanaque, é claro — nenhuma série de detetive que se preze pode prescindir deles — mas tem também criminosos tão ou mais dignos de pena do que suas vítimas; o pano de fundo da guerra amplia qualidades e defeitos, e adiciona elementos inesperados ao mais clássico dos gêneros britânicos.

O detetive Foyle — assim batizado em homenagem à magnífica livraria Foyle’s — percebe as circunstâncias das personagens com quem lida melhor do que ninguém, e é frequentemente com o coração partido que cumpre o seu dever. Mas isso, é óbvio, ele nunca diz, e a gente só percebe por um gesto aqui, um olhar de relance ali, uma expressão que aparece tão rapidamente quanto desaparece. Essa humanidade profunda e sutil é mérito do extraordinário Michael Kitchen, um mestre do minimalismo cênico.

o O o

“Foyle’s war” é uma série tão boa que, quando um executivo desavisado da ITV resolveu tirá-la do ar, em 2008, o público se revoltou: foram tantas cartas e emails de protesto que ela teve que voltar a entrar em produção. A sétima temporada foi ar em 2010 com três episódios, a oitava foi exibida no ano passado e uma nona está no forno para o ano que vem. Mal posso esperar.

o O o

Assistir a “Foyle’s war” no Brasil é que são elas: é preciso falar inglês, ou pelo menos entender legendas em inglês, porque não foi traduzida. As sete primeiras temporadas estão à venda em DVD via Amazon, eBay ou qualquer boa loja online, e também podem ser encontradas no catálogo americano da Netflix; a oitava ainda não encontrei, exceto na Amazon Prime, que não vende filmes ou vídeos para usuários fora dos Estados Unidos ou da Grã Bretanha.

Ter acesso ao catálogo americano da Netflix, felizmente, não é difícil. Basta usar um serviço como o Unotelly.com ou o Unblock-us.com, que funcionam com computadores, smartphones, sistemas de home theater e tablets e mudam o “endereço” da internet; a assinatura brasileira da Netflix continua válida. O Unotelly e o Unblock-US são igualmente bons e seguros, têm instruções passo a passo fáceis de seguir nas respectivas páginas, oferecem uma semana gratuita de teste e cobram cerca de cinco dólares mensais de assinatura.

(O Globo, Segundo Caderno, 1.5.2014)

 

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