O menos indiano dos filmes indianos

O serviço de entrega de marmitas de Bombaim ainda não foi reconhecido pela Unesco, mas é, com certeza, uma das maravilhas do mundo moderno: todas as manhãs, chova ou faça sol, cerca de cinco mil dabba wallahs recolhem em casa e entregam no escritório, com a máxima pontualidade, quase 200 mil marmitas; à tarde, percorrem o caminho inverso. Como fazer para que a comida preparada por determinada esposa chegue ao respectivo marido numa das cidades mais congestionadas e caóticas do planeta é um daqueles mistérios indianos que ninguém explica, ainda mais porque boa parte dos dabba wallahs é analfabeta, e guia-se apenas por sinais e códigos de cores pintados nas marmitas.

A margem de erro do serviço é praticamente zero, e ele já foi alvo de estudos acadêmicos, documentários e reportagens nos mais importantes jornais e revistas. Recebeu certificado de qualidade ISO 9001 e até o Príncipe Charles, da Inglaterra, fez questão de conhecer os dabba wallahs na sua visita à Índia.

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Parênteses semântico: “dabba” é marmita em hindi. Na Índia usa-se também o termo “tiffin” para as quentinhas empilhadas, tanto que a entidade que reúne os entregadores milagrosos de Bombaim atende por Mumbai Tiffin Box Supplier’s Association. Já “wallah” é o sufixo que se usa junto com um substantivo para designar certas profissões: chai wallah, por exemplo, é, em tradução quase literal, “o cara do chá”. Um dos bons filmes da dupla Merchant Ivory, que conta as aventuras de uma trupe mambembe de atores ingleses nos anos finais do Raj, chama-se, justamente, “Shakespeare wallah”.

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Tipicamente, um dabba wallah recolhe, ao fim da manhã, um determinado número de marmitas, e as leva, de bicicleta, até a estação de trem mais próxima. Lá, as dabbas são separadas por destino e embarcadas num vagão especial. Em cada estação subsequente, há wallahs para receber, encaminhar e, finalmente, entregar as refeições, ainda quentinhas, aos destinatários. Os dabba wallahs são autônomos, trabalham em cooperativa e a profissão passa de pai para filho; os lucros são repartidos entre todos, sem distinção de função, e correspondem a um salário mensal aproximado de oito mil rúpias, coisa de uns R$ 300. O serviço existe há 124 anos e só saiu do ar uma vez, em 2011, quando os dabba wallahs se juntaram a um movimento de greve geral pelo fim da corrupção na Índia. Coitados.

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É um raríssimo erro de entrega de marmita que põe em ação a história de “The lunchbox”, um dos filmes mais delicados e simpáticos que vi nos últimos tempos. Sajaan Fernandes (Irrfan Khan, que fez Pi adulto em “A vida de Pi”, lembram?) está a um mês da aposentadoria. Trabalha num escritório de contabilidade das antigas, cheio de papéis e de aborrecimentos, e está longe de ser a alegria da festa. É viúvo, solitário, mal humorado e muito mais velho do que os seus anos. Como não há nada de ruim que não possa piorar, ele ainda tem que conviver com o insuportável novato Shaik (Nawazuddin Siddiqui), que em breve assumirá o seu cargo.

Na outra ponta da cidade vive Ila (Nimrat Kaur), jovem, bonita e casada com um marido que não a merece. Ela passa os dias conversando pela janela com a tia que mora no andar de cima, cuidando da filha e tentando inventar receitas que despertem um mínimo de entusiasmo naquele marido sem remédio. Mas, um dia, a comida deliciosa de Ila vai parar, por engano, na mesa de Sajaan. Que, ao contrário do marido chato, raspa a marmita. Ela descobre o erro, e no dia seguinte manda um bilhetinho para o desconhecido que tanto apreciou os seus pratos; ele responde, reclamando do sal. A partir daí começa uma curiosa troca de bilhetes — e uma bela amizade, ainda que à distância.

A conversa com Ila e a boa comida não chegam a transformar Sajaan no campeão de popularidade da firma, mas suavizam as suas arestas e promovem, de certa forma, as suas pazes com a humanidade; os bilhetes de Sajaan preenchem as tardes de Ila e põem uma pitada de sonho numa vida sem perspectivas.

“The Lunchbox” foi escrito e dirigido pelo estreante Ritesh Batra. É inegavelmente um filme indiano, mas está a léguas de distância do que se entende por “filme indiano” — dura apenas 105 minutos, não tem números de canto e dança e é tão sutil na forma quanto no conteúdo. Ou seja, passa ao largo de Bollywood, embora faça, aqui e ali, umas referências gentis ao velho cinemão.

Infelizmente, peguei esta verdadeira jóia em fim de carreira no circuito carioca. Quando voltei do Marrocos, amigas que conhecem a minha paixão pela Índia e pelo cinema indiano insistiram para que fosse assisti-lo — mas, entre obras em casa, braço quebrado e todos os acontecimentos que cercaram a minha reentrada na atmosfera, só consegui tempo agora, no feriadão.

“The Lunchbox” resiste bravamente no Laura Alvim e no Espaço Itaú, em dois míseros horários. Se vocês ainda não assistiram, não deixem essa última chance escapar.
(O Globo, Segundo Caderno, 24.4.2014)

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8 respostas em “O menos indiano dos filmes indianos

  1. Oi Cora! Assisti a “the Lunchbox” aqui em Montreal e, tenho que dizer: Que filme bonito. Tao suave, tao simples e delicado. Muito obrigada pela recomendacao. Sem ela este filme poderia ter passado batido 🙂

  2. “dabba wallahs” – apresentado ao sistema (palavra e conceito) p/1ª vez, hoje. O dia mal começou e já aprendi algo novo :). Texto redondinho – como sempre. Por tudo, agradeço com reverências. Bjo Norma

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