Pesadelos chineses

Comprei uns brincos no Marrocos. O vendedor, lá no meio da medina milenar de Fez, os embrulhou num saquinho de pano que tirou de uma pilha enorme de saquinhos de pano. Todos nós os conhecemos: são aqueles saquinhos chineses que se encontram por toda a parte, e que guardam coisinhas miúdas e brilhantes compradas no Egito, na Colômbia, no Nepal, em Manaus ou na Rua da Alfândega.

Que porcaria de mundo globalizado!

E que país tenebroso, a China, que consegue produzir uma coisa de tão pouco valor que sai ainda mais barata, com transporte, imposto e intermediários, do que o que se faria na esquina! O Marrocos tem pano e tem mão de obra sobrando. Quanto custaria a um comerciante um saquinho de pano local? 20 centavos? 30 centavos? Em vez disso, ele compra o produto chinês, que provavelmente sai a dez centavos. A dúzia.

Imagino uma cidade na China onde todo mundo vive de fazer saquinhos de pano. De manhã à noite, chova ou faça sol, lá estão milhares de chineses, coitados, de todas as idades, fazendo a droga dos saquinhos que serão espalhados pelo mundo, tirando o emprego de pessoas que poderiam fazê-los à sua maneira e a alegria de quem curte o sabor do que vai buscar pelo mundo.

Imagino também uma pessoa, que como todas as outras pessoas do mundo só ganhou uma vida, tendo que gastá-la inteira na costura de saquinhos, em condições miseráveis, ao lado de outras pessoas nas mesmas circunstâncias.

E aí agradeço à imensa sorte que eu tive de não ser essa pessoa.

o O o

A China tem, segundo a Wikipedia, mais de um 1,36 bilhão de habitantes. É muita gente, e essa gente precisa viver de alguma coisa — nem que seja de fazer saquinhos de pano para espalhar pelo mundo. Os saquinhos que roubaram a identidade nacional das embalagens miudinhas do planeta inteiro são só uma das muitas pontas soltas de um iceberg de complicações que não tenho qualquer esperança de compreender. Há de tudo no miolo deste iceberg, que pode ser visto pelo angulo que o interlocutor quiser.

A cidade de Guiyu, por exemplo, até pequena pelos padrões chineses — tem apenas 150 mil habitantes — vive quase que exclusivamente de desmantelar aparelhos eletroeletrônicos. As 5.500 empresas da cidade dedicam-se a desmontar lixo eletrônico do mundo inteiro para garimpar o que há de materiais nobres nas placas e conectores. Os níveis de contaminação de níquel, chumbo, cobre e zinco da região são assustadores, centenas de vezes superiores aos que se consideram universalmente “normais”. Mas o mundo continua produzindo lixo eletrônico, e em algum lugar este lixo tem que ser processado; se não importasse essa porcaria toda, Guiyu não teria como manter seus 150 mil habitantes. Para eles, fazer saquinhos de pano a vida inteira deve parecer um trabalho fantástico, um sonho inatingível.

o O o

No ano de 2010, Ai Weiwei, provavelmente o mais famoso artista chinês contemporâneo, inaugurou, no Turbine Hall da Tate Modern Gallery, em Londres, uma instalação chamada “Sementes de girassol”. A instalação consistia em cem milhões de unidades, pesando ao todo uma tonelada e meia, cobrindo a superfície de mil metros quadrados da galeria até uma altura de dez centímetros. Mas aquelas sementes de girassol não eram de verdade; eram réplicas de cerâmica, individualmente moldadas e pintadas.

Jingdezhen, que tem dez vezes mais habitantes do que a desgraçada Guiyu, é famosa pela sua cerâmica desde o Século IV. Atualmente é uma cidade grande, com indústria e empresas de vários tipos, mas, durante séculos, foi, como Guiyu, uma cidade dedicada a uma única atividade. Durante a Dinastia Song (960 a 1279) ficou conhecida por um espetacular tipo de cerâmica delicadamente esverdeado chamado Qingbai; mais tarde, durante a Dinastia Ming (1368–1644), produziu a tradicional porcelana branca e azul que até hoje tira o fôlego de quem a vê.

Foi nessa cidade extraordinária, de onde ao longo dos séculos saíram maravilhas, que Ai Weiwei foi buscar a matéria prima para sua instalação. Durante mais de dois anos, 1.600 ceramistas dedicaram-se, dia e noite, a moldar e a pintar, uma por uma, cem milhões de esculturinhas minúsculas e monótonas, em forma de semente de girassol. Vi um documentário no YouTube em que alguns deles agradeciam pela oportunidade de trabalho.

O que significam cem milhões de sementes de girassol de cerâmica? Segundo Ai Weiwei, elas são uma referência a Mao Tse-Tung, tradicionalmente representado na arte governista cercado de girassóis: o ditador seria o sol, para o qual estaria voltado, feliz, o povo chinês em forma de flor. As sementes falsas, não comestíveis, seriam uma alegoria à propaganda política, na contramão da fome que vitimou milhões de pessoas durante o seu calamitoso governo.

Depois da desmontagem da instalação, Ai Weiwei a transformou numa série de obras “menores”, de apenas cem mil sementes cada. Uma foi leiloada pela Sotheby’s de Londres em fins de 2011, alcançando £ 349.250, ou cerca de £ 3,50 por semente. Talvez tenha sido um bom negócio no atacado, mas no varejo foi um grande prejuízo: hoje, no eBay, é possível encontrar as sementes de girassol falsas a partir de £ 0,43 a unidade. Claro que, sendo o mundo o que é, ninguém garante a sua autenticidade: é perfeitamente possível que as peças, postas à venda por negociantes de Hong-Kong, sejam falsas sementes de girassol falsas.

Não está fácil para ninguém.
(O Globo, Segundo Caderno, 17.4.2014)

 

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