Uma noite no Saara

Acordei só assim, do nada, no meio da noite. Eram 3h44. Cama quentinha, silêncio absoluto e muita vontade de virar para o outro lado e continuar dormindo; mas lá fora havia o Saara. Levantei, acendi a lanterna do celular, vesti o casaco por cima da camisola comprida e saí da tenda. A areia estava tão fria que quase tive a sensação de pisar na neve; voltei para pegar as sandálias e arrisquei uns passos para além dos limites do meu confortável casulo.

Sempre ouvi falar nas noites amplas, geladas e cheias de estrelas do deserto. Confirmo a amplidão e o gelo, mas nada posso dizer sobre as estrelas. Na noite em que dormi no Saara o mundo que os meus olhos alcançavam estava iluminado por uma lua cheia esplendorosa, brilhando através do ar mais puro e seco que se possa imaginar; e entendi, retrospectivamente, o que os personagens de tantas histórias que li diziam quando se propunham a aproveitar a lua cheia para levantar acampamento de madrugada.

Permaneci alguns minutos parada, muito quieta, admirando a imensidão e tentando absorver o fato extraordinário de estar onde estava, no deserto dos desertos, no cenário de livros e filmes que me encantaram a vida inteira. Olhei a noite, igual às noites que viram milhares de caravanas ao longo do tempo; tentei discernir algum barulho, por mínimo que fosse; mas a noite do deserto não é só ampla e gelada, é muito, muito silenciosa. E é também destituída de qualquer cheiro — perfume, ranço ou fedor — qualquer coisa, enfim, que se comunique com as narinas humanas.

Voltei para a tenda vencida pelo frio. Antes de adormecer de novo, sonhei acordada com T. E. Lawrence, com tuaregues e beduínos, com a Legião Estrangeira, com as Mil e uma noites. Dormi assombrada com o Grande Mar de Areia e tudo o que ele representa, na História e na lenda, mal acreditando que estava mesmo lá.

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Desde criança eu tinha a curiosidade de saber como se chega ao deserto. Camelos e homens não aparecem do nada nas dunas de areia; eles saem de algum lugar, percorrem caminhos, atravessam cidades… Onde termina o mundo habitável e começa o deserto? Como é essa fronteira?

A primeira coisa que descobri é que, ao contrário do que eu imaginava, o deserto não é feito unicamente de dunas. Na verdade, elas cobrem apenas 15% da sua extensão — mas 15% de uma extensão como a do Saara, comparável em seu total à da China, ainda é muita coisa. A maior parte do deserto é feita de um solo árido, coberto de pedras: uma paisagem agressiva, sem o esplendor, o colorido ou o ondulado das areias. Nessa paisagem despontam, aqui e ali, uns arbustos e árvores retorcidas, e encontram-se leitos de antigos rios hoje desaparecidos. Muito de vez em quando, saídos sabe-se lá de onde, há pastores de cabras com pequenos rebanhos, que acenam quando os jipes passam, levantando poeira.

Para chegar ao deserto com que sonhamos, àquelas dunas que através dos séculos encantaram e apavoraram viajantes em igual medida, é preciso percorrer muito chão. O Marrocos tem ótimas estradas, mas elas acabam nos limites do razoável, nas pequenas cidades erguidas às margens do Saara; dessas aldeias saem estradas de terra que correm por algumas dezenas de quilômetros, e que aos poucos desaparecem na vastidão lunar que — subitamente percebemos — já é o deserto.

Num determinado momento, indo em direção ao acampamento, o motorista do nosso 4 x 4 fez meia volta. Perguntamos o que havia acontecido, e ele explicou que havia pegado o caminho errado. Olhamos em volta, perplexos: que caminho? Tudo o que os nossos olhos destreinados viam era um mundaréu de chão e pedra, chão e pedra, chão e pedra. Os guias que vivem na beira do Saara, os tropeiros de dromedários e os motoristas de jipes ganham um bom dinheiro resgatando turistas idiotas que acham que podem dirigir sozinhos até os seus bivouacs.

Alguns quilômetros e horas depois, chegamos finalmente ao Saara tal como o vimos em “Lawrence da Arábia” e em “O céu que nos protege”, para mim os dois filmes que têm as mais lindas cenas de deserto da história do cinema. O sol já ia baixo quando saltei do jipe, descalça, sentindo a areia fina e ainda morna na sola dos pés.

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Há acampamentos para todos os gostos e bolsos no Saara do Século XXI. Nossas tendas, com o chão forrado de tapetes e lindas como quartos de luxo, tinham água corrente (trazida por caminhões-pipa) e luz elétrica (fornecida por geradores movidos a energia solar). Dizem que na Líbia e na Jordânia há acampamentos que têm até sinal de celular e acesso à internet, mas gostei do “meu” deserto estar de fato isolado do mundo.

Tomamos chá, conversamos sentados em pufes dispostos sobre tapetes e, mais tarde, depois de um jantar simples mas delicioso, nos reunimos em torno da fogueira, ouvindo os quatro guardiões do acampamento cantarem músicas berberes que falavam de viagens e de longas separações. Ali no escuro, entre o nada e o lugar nenhum, percebi, mais do que em qualquer outra ocasião, o valor de um bom músico ou contador de histórias; e imaginei a mesma cena, repetida do mesmo jeito, na longa noite dos tempos.

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Trouxe garrafinhas da areia fina e avermelhada do Saara para a família. Nina, que vai fazer cinco anos em agosto, estendeu a mãozinha. Bia derramou um pouco do deserto na palma aberta. Nina olhou, mexeu, revirou:

— Nossa, mamãe! Como é leve!
(O Globo, Segundo Caderno, 10.4.2014)

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13 respostas em “Uma noite no Saara

  1. Belo texto! Me senti revivendo as paisagens vistas em “Lawrence da Arábia” e “O sol que nos protege”.
    Cora, você tem a habilidade de descrever da visão geral ao detalhe em cada uma de suas viagens. Ler essas descrições são sempre saborosas.

  2. “Inmensa región arenosa, hermana de Egipto y Arabia,
    Infierno de sol y espejismo, Sahara eres tú,
    Sahara, aquí va mi caravana,
    Estéril tierra africana, cuna en que reposa el sol.

    Allá el sol comienza a morir,
    Y va esta oración para ti,
    Y la luna parece un turbante de plata perdido de Alá…

    Sahara, harén de luna y estrellas,
    Jardín de Alá, flor de arena, la favorita del sol,
    Sahara, templo de la diosa amada,
    Flor del desierto quemada,
    Sacerdotisa de amor,
    La favorita del sol.”
    +++++

    “Camiño de Sahara”, era um dos numeros que eu curtia quando a tocávamos na bandinha lá atrás, nos já longinquos meados dos anos 60. Canção “para constituir família”, eu dizia! Cheia de de efeitos vocais, suaves como uma noite de luar no deserto… 🙂
    Parabéns pela experiência!

  3. Ai, meu Deus, pergunta horrorosa, mas lá vai; e o banheiro, Cora? Tem algum? Parecido com os “normais”? Dormir, qualquer “edredonzinho” faz as vezes de cama, comida , umas tâmaras e semelhantes mais a abençoada água ,confortam bem, mas e o banheiro? Você não comentou e sabe,” a curiosidade matou o gato”,…

  4. Eu fui uma das inúmeras acompanhantes dessa tua vibrante viagem, via Facebook. Mas, o presente texto veio coroar ‘nossa’ viagem mostrando um pouco dos bastidores e como o Saara físico ‘bateu’ na nossa Globetrotter favorita. No aguardo da próxima aventura e preservando a preciosa definição da Nina: “Como é leve!”., agradeço a companhia, Norma Cardoso

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