A verdadeira dor de cotovelo

Dizem que a medina de Fez, declarada Patrimônio da Humanidade em 1981 pela Unesco, tem mais de 9.500 ruas e vielas, das quais mais de mil sem saída (e inúmeras com menos de um metro de largura). Eu mal percorri 95 e fiz um estrago considerável nas minhas finanças. É que nesta extraordinária cidade do Século IX encontra-se de tudo, de bumpers para iPhone vindos da China por 15 dirhans (menos de cinco reais) a tapetes extraordinários, tecidos de acordo com técnicas milenares, por dezenas de milhares de dólares.

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Medina, palavra que em árabe significa cidade, é o nome que se dá, na África do Norte, às antigas cidades muradas. Ficar dentro ou fora da medina significa ficar dentro ou fora dos limites das muralhas.

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Ao contrário das medinas de Marrakech e de Essaouira, mais voltadas para o comércio com turistas, a medina de Fez é um entreposto essencialmente local, onde marroquinos fazem negócio entre si como vêm fazendo desde o começo dos tempos. Há antiquários e vendedores de bugigangas e lojinhas de souvenirs, mas há ainda mais alfaiates, armarinhos, açougueiros e verdureiros; há biroscas que vendem petiscos deliciosos por nada, e copos do melhor suco de laranja do mundo a meros três dirhans, equivalentes a alguns centavos de real. Há jarras de carne de camelo cozida e conservada em gordura que Ibn Battuta, o grande viajante marroquino do século XIV, não estranharia; e mais cabeças de carneiro assadas, queijos de cabra embrulhados em folhas de palmeira, doces cobertos de mel e do zumbido de abelhas. Há homens que trazem sacos de chinelas que produziram em casa para vender no atacado para os comerciantes, há serralheiros, tecelões e marceneiros. Há também rapazes que, a cada esquina, me perguntavam quanto custou o meu telefone e quanto eu queria por ele; sabiam tudo a seu respeito, mas ficavam encantados por encontrá-lo ao vivo e a cores, porque este modelo ainda não chegou ao Marrocos. Eu mostrava o aparelho e tirava uma ou outra dúvida dos garotos, mas me sentia como uma viajante do futuro perdida num warp esquisito do tempo.

No meio da caminhada, depois de atravessar um túnel mais baixo do que eu, dei de cara com um palácio de mosaicos fantásticos com um pé direito de quase 20 metros de altura, onde funciona uma cooperativa de tapeceiros e onde ninguém sabe dizer exatamente quantas centenas de milhares de peças estão abrigadas. Na saída, virando à esquerda numa ruazinha onde mal cabem duas pessoas lado a lado, fica uma das mesquitas mais antigas da África, um esplendor escondido por uma parede sem importância, mais ou menos como se a entrada da Candelária ficasse por trás de uma portinhola irrelevante na Rua Senhor dos Passos. No primeiro degrau, uma velhinha berbere de rosto tatuado pedia esmola com dois gatos no colo. E eu pensando que os mendigos que vi em São Francisco, pedindo uns trocados para os seus gatinhos, estavam revolucionando a mendicância…!

Fiquei apenas três dias em Fez, mas poderia ter passado uma vida explorando os seus labirintos. Com exceção de Varanasi, na Índia, nunca toquei no passado tão de perto, e nunca senti, de forma tão absoluta, que o tempo não existe.

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De modo geral, as ruas das cidades marroquinas são bem calçadas. De modo geral. Em Essaouira, delicioso posto à beira mar que os portugueses chamavam de Mogador, uma delas não era. E foi nela, no segundo dia de viagem, que eu tropecei, perdi o equilíbrio e levei um tombo patético e ridículo, como soem ser os tombos. Caí, como dizem os ortopedistas, da minha própria altura, o que não chega a ser grande coisa. Na hora, salvo o orgulho, nada ficou ferido, não me cortei, não ralei nada. Mas, pouco depois, braço e tornozelo começaram a doer horrivelmente.

Resultado: na volta a Marrakech, no fim da tarde, fui direto para a Clinique Internationale, onde me examinaram e me mandaram radiografar o pé. O braço sequer chegou a impressionar a médica que me atendeu primeiro. Nada foi constatado além de uma entorse no tornozelo; o médico que me atendeu em seguida queria por gesso, mas odiei a ideia e, sobretudo, odiei o médico, que além de estar todo vestido de preto ficava coçando uma caspa incongruente na cabeça careca que me encheu de nojo e aflição. Diante da recusa, ele receitou um analgésico básico, uma pomada anti inflamatória e um curativo com álcool, que se desfez assim que deixei o hospital.

Quando cheguei ao hotel, convoquei a Junta Médica do Facebook, que riu do analgésico, deu gargalhadas da pomada e me recomendou o uso de uma boa tornozeleira, mesmo conselho do fisioterapeuta que me atendeu em Rabat dias depois. Passei as duas semanas seguintes com ela no pé, e o tornozelo sarou.

Foi preciso voltar ao Brasil, porém, para descobrir que, além de quebrar o cotovelo, consegui fazer várias coisas sinistras com os músculos e tendões do braço direito — agora já bem tratado e atendido, mas ainda muito dolorido.

Minha primeira reação retroativa foi de irritação com a medicina marroquina. A segunda foi de agradecimento. Se o braço lascado tivesse sido imediatamente diagnosticado, eu não teria como deixar de imobilizá-lo; teria também ficado assustada com o seu estado, e teria evitado fazer muitas coisas interessantes, de fotografar a andar de dromedário no Saara.

A sorte tem formas bem esquisitas de se manifestar.

(O Globo, Segundo Caderno, 3.4.2014)

 

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3 respostas em “A verdadeira dor de cotovelo

  1. Fica a vontade de conhecer as Medinas de Fez. Através dos seus comentários, até andei um pouquinho por lá.

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