O grande entreposto

Bom, aí tem sempre aquelas descobertas que a gente faz, para variar, no fim da viagem. Hoje, saindo de uma visita aos túmulos saadianos, em plena medina, achei uma loja chamada Complexe d’Artisanat: três andares enormes, ocupando mais de 16 mil metros quadrados, cheios até a tampa de tudo o que um turista queira comprar, não só no Marrocos, mas na Índia, na Turquia e em meio mundo oriental.

Pensei imediatamente na Laura Tausz Rónai, campeã de caça a tesouros em lugares improváveis, e no quanto ela adoraria topar com este entreposto.

Há portas duplas todas trabalhadas para casas de milionários e portinhas pintadas pequenitas para pendurar na parede como quadros, há perfumes, óleos essenciais e garrafinhas de todos os tipos para guardá-los, cosméticos locais, ímãs de geladeira, esculturas suntuosas de mármore para grandes ambientes, esculturinhas miudinhas de plástico, madeira, bronze e osso para levar de presente (só de gatos há uma seção inteira!), cerâmica, copinhos de vidro colorido para chá, bules, tajines de todos os tamanhos, lustres de metal furadinho, velas perfumadas, temperos, açafrão em embalagens luxuosas de um grama e em embalagens ainda mais luxuosas de meio quilo (isso eu nunca tinha visto antes!), mãos de Fátima, jóias variadas, pratarias, instrumentos musicais, antiguidades… que sei eu!

Há babouches de todas as cores, feitas nos mais diversos materiais; e há cáftãs, djelabas e túnicas em todos os panos e preços. Há ainda alfaiates que fazem roupas sob medida para os fregueses em 24 horas.

Só a parte de tapetes tem 5 mil metros quadrados de área de exposição, com uma infinidade de persas, paquistaneses, árabes, magrebinos e africanos, mais kilims turcos, egípcios, indianos e marroquinos, capachos, passadeiras e o que mais se inventou no mundo para pisar em cima.

Nem tudo, obviamente, é da melhor qualidade. Há muita coisa horripilante em exposição, muita coisa xinfrim e mal acabada. Mas o interessante é que todas as incontáveis mercadorias da casa têm preço fixo. Fiquei muito feliz ao constatar que algumas coisas que comprei depois de muita arenga consegui a preços melhores (sobretudo as bandejas e caixinhas de madeira entalhada), e um tantinho desapontada ao perceber que paguei o dobro do que deveria ter pago numas outras tantas (especialmente as da visita ao herborista, único lugar onde me senti realmente roubada no Marrocos).

O Complexe d’Artisanat é uma visita obrigatória para quem vem a Marrakesh — de preferência, no começo da viagem. Não é nem para fazer compras, embora duvido que alguém consiga sair de lá de mãos abanando; mas para ter uma noção dos preços locais. Nenhum turista tem uma ideia muito precisa de quanto valem as quinquilharias que quer comprar, mas nós, brasileiros, somos vítimas de um problema extra: o custo Brasil acabou com a nossa noção de realidade. Quem vive no país mais caro do mundo tende a achar tudo barato, mesmo quando os nativos acham tudo caro.

Mais tarde, andando pela medina, esbarrei com comerciantes que apontavam com desprezo para a sacolinha do Complexe d’Artisanat e me diziam “Made in China!”.

Eles têm toda a razão em chiar. Uma loja como esta é uma ameaça à sua sobrevivência, pelos preços que pode cobrar, e ao seu modo de vida, ao eliminar a barganha da transação comercial.

Eu mesma, que estou só de passagem e não tenho nada a ver com isso, vou ficar muito chateada no dia em que fazer compras no Oriente perder o elemento surpresa e se tornar uma experiência insossa e pasteurizada como é no Ocidente.

Que Alá, o Misericordioso, olhe por suas ovelhas, e não permita jamais que isso aconteça.

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