Companheiras de viagem

Estou adorando viajar de trem pelo Marrocos. As estações são bonitas, práticas e limpas e os trens, além de confortáveis, cumprem o horário. Hoje viajamos em grand comité — Afonso, Cecília, Fred e eu — e, por acaso, não encontramos quatro lugares juntos na Primeira Classe. Resolvemos arriscar a Segunda, onde os assentos não são marcados — e acabamos viajando todos separados a maior parte do tempo.

A Segunda Classe é quase tão confortável quanto a Primeira, mas igualmente limpa — e, de quebra, é uma viagem no sentido antropológico da coisa, porque entra gente de todos os tipos em cada parada. Achei muito mais divertido e, se tivesse tempo, ainda experimentaria fazer uma viagem em Terceira para ver como é. A diferença de preço entre Primeira e Segunda: 185 e 120 dirhans, respectivamente.

No meio da viagem, passa um camarada com um carrinho vendendo salgadinhos, sanduíches, balas, café, chá, essas coisas. Preço decente.

Sentei ao lado de uma senhora marroquina e logo ficamos amigas.

(Conversamos em francês, segunda língua de muitos marroquinos e espécie de língua ocidental oficial do país; as línguas oficiais de verdade são o árabe padrão moderno e o bérbere, mas já soube que chique mesmo é saber falar o árabe clássico.)

Ela se chama Azmyia, trabalha numa farmácia perto de Casablanca e estava vindo para Marrakesh com duas amigas para passar o fim de semana com tios e primos. Contou que tem dois filhos que criou praticamente sozinha (divorciou-se há 16 anos) e que, se aparecer o homem certo, pode, talvez, quem sabe, eventualmente, pensar em se casar de novo. Tem 50 anos.

Perguntei como as pessoas encaram o divórcio aqui no Marrocos e ela respondeu que é tranquilo, que nunca foi discriminada ou criticada isso. A separação foi pedida por ela: o marido passava longas temporadas na Europa trabalhando, voltava por duas ou três semanas a cada seis meses e aí ficava criando caso. O tribunal lhe deu ganho de causa e lhe concedeu o divórcio diante dessas circunstâncias e da diferença de idade entre os dois filhos (sete anos); o marido faltoso dançou. Achei pitoresco a diferença de idade entre os filhos ser levada em consideração no processo.

— É lógico que a mulher divorciada precisa se dar ao respeito, como, aliás, qualquer outra, — explicou. — Eu me visto direito, trabalho, não levo uma vida fútil. Os meus filhos me respeitam, a minha família e os meus vizinhos também.

Azmyia se veste à maneira tradicional marroquina, com cabelos cobertos e djelaba. Sua amiga mais velha se veste da mesma forma, mas a filha da amiga, que as acompanhava, e que ainda é solteira, estava vestida à ocidental, de calça comprida e cabelo solto.

Passamos o resto da viagem fofocando sobre as dificuldades da vida a dois, e constatamos que homem é tudo igual, só muda de nome e endereço. Ela me mostrou fotos dos seus filhos e netos (filhos da filha) e eu lhe mostrei fotos da Bia, do Paulinho e de todos os meus netos. Mostrei também uma foto da Mamãe nadando, que a deixou extremamente admirada, e uma foto da Matilda com os seus olhos mágicos.

Antes de chegarmos a Marrakesh, ela abriu um pacote que estava trazendo para os parentes e me deu um salgado delicioso feito de massa folheada, peixe e camarão chamado pastilla. Me ofereceu a casa e disse que, se eu quiser visitar seus tios aqui na cidade, serei muito bem-vinda.

Trocamos emails, nos desejamos mutuamente uma boa viagem de volta — inshallah! — e nos despedimos feito velhas conhecidas.

Anúncios

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s