Bebel Franco, a artista que estampa sua paixão pelas cores

RIO — O apartamento fica num daqueles lindos prédios antigos, cheios de personalidade, na fronteira entre Copacabana e Ipanema: entrada elegante, espaços amplos, metais polidos. Quinto andar. Matias, o cocker spaniel preto e branco, me recebe todo efusivo na saída do elevador e me leva à porta aberta, onde Bebel Franco — ou Maria Isabel Piza da Costa Franco, segundo os documentos — espera. Nós nos cumprimentamos, felizes — somos amigas de internet, mas nunca nos vimos antes — e eu entro num mundo mágico, numa explosão de cores e de objetos sem igual.

Dou umas piscadas para ajustar a vista, como quem sai de uma sala escura para uma tarde cheia de sol. As paredes, pintadas em rosa, vermelho e laranja, estão cobertas de quadros, pôsteres, colagens; há um belo recorte da Analu Prestes, há um jogo de forminhas da Mana Bernardes, há pratos, espelhos, molduras divertidas. Os móveis têm estampas em todas as cores e mais almofadas do que se consegue contar; nas estantes e nas mesinhas de apoio, uma profusão de objetos aparentemente incongruentes, mas tão bem combinados entre si que parecem ter sido feitos de propósito para dividir o mesmo espaço — garrafas térmicas chinesas, incontáveis noivinhos de bolo de casamento, uma miniatura da Torre Eiffel, um gnomo insolente, jarrinhos, móbiles, castiçais, peças de artesanato, snowglobes, flamingos, brinquedos mecânicos. Uma das cadeiras da mesa de jantar é ocupada por um esqueleto mexicano da Festa dos Mortos em tamanho natural, caveira docemente sorridente. No alto, um pequeno cartaz resume tudo: “Seguro morreu de tédio”.

Bebel se diverte com o meu espanto e dá corda à minha curiosidade em relação à sua coleção fantástica de objetos. É óbvio que já está acostumada à reação de pessoas cromaticamente tímidas que, quando pintam uma parede de ocre, acham que fizeram uma loucura. Aponta tesouros que eu ainda não tinha visto, me mostra o resto da casa, me leva até o quarto onde, acima da cama, também cheia de almofadas coloridas, há umas duas dezenas de corações de lata. Vim entrevistá-la para este perfil, mas percebo que o que eu queria mesmo era ficar por lá feito uma tonta, perdida nos mil detalhes, olhando coisa por coisa.

Um espaço singular

Acho que nunca vi casa tão parecida com a proprietária. O trabalho de Bebel, que estampa almofadas, artigos de papelaria, louças, azulejos, estofados e até cangas, é uma continuação do espaço singular que ela inventou para si: cores que conversam, flores, pássaros, cromos, recortes… É tudo tão bonito que chega a dar pena de usar. Uma vez, antes de sequer saber quem era Bebel Franco, comprei umas folhas de papel de presente na Papel Craft, em Ipanema. Elas só saíram do armário em que as guardei tempos depois, porque eu não tinha coragem de cortá-las e dobrá-las para fazer os embrulhos.

Contribuía para isso o fato de Bebel manter fortes raízes na sua atividade de artista plástica. Ao contrário da maioria dos designers de estampas, ela não cria um tema menor que é repetido ao longo do material em que é impresso, mas sim uma imagem única que se estende por toda a superfície. Montadas em quadros, as folhas que eu hesitei em usar teriam funcionado lindamente como gravuras.

Filha de diplomata, Bebel Franco nasceu em Montevidéu, há 47 anos. Não tem nada contra o Uruguai, mas quando precisou tirar a sua primeira carteira de identidade, deu o Rio de Janeiro como local de nascimento. Durante algum tempo foi feliz como carioca de carteirinha, até que, numa renovação de passaporte, um funcionário percebeu a diferença entre a identidade e a certidão de nascimento, e cortou-lhe as asas da carioquice oficial. O castigo foi cruel: ela teve que refazer toda a via crucis da burocracia para a correção da papelada.

Bebel viveu em Brasília, Paris, Washington, Bogotá. Em Paris, estudou moda no famoso Studio Berçot; em Bogotá, conheceu o publicitário Diego Cordovez, teve a filha Gabriela e passou sete anos inserida no mercado de artes plásticas local, fazendo sucesso com a sua característica mistura de kitsch, pop e naif. Nessa fase colombiana contemplava, com olhar crítico e bem-humorado, a mulher manipulada pela sociedade de consumo, e as loucuras que é capaz de fazer para manter um homem a seu lado. Foi apontada pela imprensa local como “happy”, diferente, divertida, excêntrica e sui generis — definições que, com certeza, continuam valendo. Suas exposições eram acontecimentos. Vestiu-se de noiva para apresentar um trabalho sobre bolos de casamento (daí a coleção de noivinhos que guarda até hoje), pintou mimosas calcinhas com delicadas estampas de ovo frito, fez esculturas.

Voltou para o Brasil há 18 anos, encontrou o charmoso apartamento de Copacabana e começou vida nova — sempre mergulhada em cores. Pergunto se essa paixão vem da Colômbia.

— Olha, por incrível que pareça, eu devo muito do meu gosto pelas cores à França — diz Bebel. — As pessoas tendem a achar que Paris é cinza, que tudo se resume a um pretinho básico e a um tom pastel, mas isso é o exterior. Basta você atravessar a porta para entrar num ambiente de cor. Eu acabo de tirar a prova. Voltei no ano passado, e fotografei muito o que me chamava a atenção. Eles são extremamente ousados: as lojas são coloridas, as embalagens coloridíssimas. Até o banheiro do Charles De Gaulle é rosa choque e vermelho! Você já reparou nisso?

Confesso, envergonhada, que não; eu estou entre as pessoas que acham que a França é cinza. Não tenho o radar da Bebel, afinado para descobrir os mais remotos traços de cor.

— Eu já gostava de cores antes da Colômbia. Quando era criança, o meu quarto era amarelo, as roupas que eu escolhia eram sempre estampadas.

(Continuam sendo: o seu armário é uma alegria, um baile de vestidos coloridos e esfuziantes. Não há uma peça básica, monocromática, com um mínimo de gravidade.)

— É claro que quando cheguei à Colômbia foi uma festa para os olhos — observa. — Assim como quando fui à Festa dos Mortos, no México, há três anos. Essa viagem era um sonho antigo, que demorei a realizar porque a Gabriela nasceu no dia 4 de novembro, então sempre passei o dia 2 às voltas com a festinha dela. Finalmente, quando fez 18 anos, achei que já podia deixá-la sozinha no aniversário. Assim que cheguei à feira de artesanato da Cidade do México tive uma taquicardia. Para onde quer que eu olhasse era tudo lindo, tudo cor.

Na nova vida carioca, Bebel Franco começou trilhando o caminho familiar das artes plásticas. Fez algumas exposições, mas acabou chegando à sua clientela através do boca a boca. As pessoas viam as suas telas maravilhosas, se apaixonavam, queriam algo parecido; Bebel fazia, as novas telas eram vistas por mais gente, rendiam novas encomendas — e assim teria continuado a ser por muito tempo se, há quatro anos, num encontro em casa de amigos, ela não tivesse encontrado o designer de móveis Fernando Jaeger. Ele já conhecia o seu trabalho, e perguntou se ela não estava interessada em criar estampas para os seus estofados.

— É que um tecido tem a capacidade de mudar o caráter de um móvel — diz Jaeger. — A Bebel usa a cor de uma forma muito original, e ainda assim consegue agradar a todos, mesmo às pessoas mais conservadoras. É impressionante.

A ideia nunca tinha passado pela cabeça de Bebel, mas lhe pareceu interessante; Regina Kato, sócia carioca de Jaeger, se encarregou de fazer com que vingasse.

— Eu sabia que ela faria aquilo como ninguém, e fiquei dando força — lembra Regina. — Conheci a Bebel assim que chegou da Colômbia e fiquei muito impressionada com ela, com o seu entusiasmo, com a capacidade que tem de tomar conta do espaço. Ela não está nem aí para tendências ou para modismos, trabalha movida a paixão. Era óbvio que, se se apaixonasse por fazer estampas, ninguém faria estampas como ela.

Sucesso instantâneo

Bebel, àquela altura com 43 anos, foi ao Senai/Cetiqt para aprender como se fazia estamparia. Lá descobriu que só seria aceita se soubesse usar Illustrator e Photoshop, dois programas de computador bastante complexos. O desafio, que teria desanimado muita gente, pilhou Bebel — que, quando deu por si, estava mergulhada até a raiz dos cabelos num universo para o qual, sem perceber, sempre se encaminhara.

— Quando eu estudava moda em Paris tive uma professora que insistia que eu devia seguir por este caminho — lembra Bebel. — Ora, eu tinha 18 anos, achava que sabia tudo e nem prestei atenção. Mas no ano passado, quando estive lá, fui procurá-la. Levei alguns trabalhos e disse, “Olha, não é que a senhora tinha razão?”

O seu sucesso na área foi instantâneo. À parceria com Fernando Jaeger seguiram-se outras com Joana e Julia, as descoladas gêmeas do ateliê Lá na Ladeira, com a Papel Kraft, com a H. Stern Home, com a Stickeria, com a Bali Blue e com todo um leque de empresas produtoras de tecidos e objetos. Há dois anos, quando realizou a semana do Brasil, a Macy’s encomendou a ela o pôster do seu Flower Show, que ocupou toda a fachada da loja. Ficou um escândalo de bonito.

Algumas pessoas torcem o nariz para o lado designer de Bebel Franco. Acham que a estamparia não tem o prestígio das artes plásticas e que ela não deveria assinar esses seus trabalhos tão populares. Bebel dá de ombros e segue em frente: a verdade é que poucas coisas lhe dão tanta satisfação quanto ver as suas criações soltas no mundo. Trata as suas almofadas como pequenos quadrinhos, fica emocionada quando vê uma sacola sua na rua, adora chegar à praia e encontrar as suas cangas enroladas no corpo das moças. A praia é, aliás, o seu segundo lar. Com o calor que tem feito, passou a marcar encontros de trabalho no Arpoador. Enquanto conversa e acerta detalhes, vê o movimento e todas as cores do mundo.

Bebel, que já chorou quando viu trabalhos seus impressos com a tonalidade errada, tem uma espécie de ouvido absoluto para cores. É capaz de distinguir entre tons que, para qualquer outra pessoa, parecem exatamente iguais.

— É, eu tenho esse dom das cores — reconhece. — Não é nada pensado, acontece. Sei também que, de alguma forma, consigo transformar excesso em harmonia, criando um over que funciona. É que não tenho medo de mau gosto: eu aprendi com aquela minha professora do Studio Berçot que mau gosto só existe quando você se apropria do que não entende.

(O Globo, Rio, 9.3.2014)

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