Marrakech

Marrakech, 5h35m — Ninguém precisa de despertador no quarteirão da velha medina onde fica a Dar Beija, pequena riad (quatro quartos) em que estou hospedada. Há uma mesquita logo ali na esquina, e uma outra um pouco além, e todos os dias, assim que nasce o sol (em tese, porque olho lá fora e ainda está um breu) os muezzins (também conhecidos como almuadens) se agarram aos microfones e desandam a chamar os fiéis para a oração.

Qualquer pessoa que já esteve num país muçulmano conhece este chamado quase cantado, repetido cinco vezes por dia, proclamando Alá como o único deus e Maomé como seu profeta. É bonito, e devia ser ainda mais bonito nos tempos pré-microfone, quando os muezzins subiam ao alto dos minaretes e de lá conclamavam o povo no gogó. Reza a lenda que eram todos cegos, para que não pudessem ver as mulheres que dormiam nos terraços à sua volta.

Em Marrakech, como no Egito e na Índia, países horrivelmente quentes no verão, os prédios não têm telhado. Os terraços são parte integral das casas, e sempre há movimento neles, de moças que lavam e estendem roupa a garotos que soltam pipas, passando por criadores que cuidam dos seus pombais (vi isso sobretudo na parte antiga do Cairo, mas era tradição também na velha Delhi). Nos edifícios comerciais os terraços costumam virar restaurantes e cafés.

Marrakech é uma cidade linda e, na maioria dos pontos que visitei até agora — não muitos, estou há menos de dois dias na cidade — bastante bem cuidada. As calçadas são limpas, há jardins por toda a parte e as ruas são plantadas com laranjeiras que alegram a vista com as suas laranjinhas penduradas: todas amargas, ça va sans dire, ou não sobrava uma no pé. Há muitos pombos, há cegonhas em todas as torres e pontos elevados e há gatos, muitos gatos, todos bem recebidos e, de modo geral, bem tratados.

Como bons turistas que somos, já tentaram nos engambelar várias vezes, mas aceito essas tentativas de bom grado: fazem parte da experiência. Aceito o chá de menta que me oferecem, olho a mercadoria, levo uma coisinha daqui e outra dali. Meu amigo Afonso Costa, que me acompanha na viagem, tem menos fairplay do que eu, e tem economizado muitos dirhans enxotando vendedores insistentes.

Quanto a mim, já comprei um kilim bérbere fantástico de 3m x 2m por cerca de mil reais, uma pequena mesquita azul de barro por 20 euros e um medalhão de prata por 40 euros (vocês já viram um pedaço do tapete numa das fotos que subi ontem). Tudo isso foi bom negócio; onde me senti esfolada foi no herborista, onde comprei ervas variadas para terminar de curar o resfriado, óleos com cânfora e outras plantas para o joelho e para o pulso esquerdo em que dei um mau jeito e… chá para emagrecer! Mas qualquer remédio para emagrecer de qualquer farmacopéia do planeta é tapeação pura and I should know better. Bem feito, Cora Rónai.

O tempo está ótimo. Faz calor durante o dia, mas nada insuportável, e frio — frio mesmo! — à noite. Quando a tarde cai, os marroquinos saem em peso de casa e vão bater perna nas praças, cheias de bancos, palmeiras e as indefectíveis laranjeiras. Há vendedores de petiscos e de chá. Ainda não vi nenhum dos folclóricos vendedores de água, personagens de tantas fotos e cartões postais.

As mulheres vestem-se de todas as maneiras. Muitas usam jeans, outras saias compridas ou saias relativamente curtas com meias e saltos. A maioria usa alguma cobertura na cabeça, nem que seja um lenço, embora as adolescentes em geral andem de cabelo solto. São bem bonitas. As mulheres mais velhas usam djelabas, que são aquelas túnicas compridas, em toda a espécie de modelos, do preto tão comum no Egito a estampados meio incongruentes em rosa bebê. Vi algumas poucas de véus cobrindo o rosto, mas ainda não vi burcas como as do Afeganistão.

Há muita gente acima do peso — beeeeeem acima do peso! — em Marrakech, e estou me sentindo em casa: aqui sou apenas mais uma senhora com o peso condizente com a idade, ou quase isso. Mas não vou pensar em fazer regime nas férias, né?

Por falar em regime: come-se muito bem por aqui! Não há restrições a carnes, há muito cuscuz e tajines (que têm este nome por causa do tipo de panela em que são feitas, e que são, no fundo, uns ensopados que podem ter várias combinações) e muita comida mediterrânea. As sobremesas, surpreendentemente, não são doces demais. Nos mercados há vendedores de frutas secas que têm figos, tâmaras e damascos deliciosos, mais nozes e grãos de todos os tipos, entre eles um amendoim caramelado com gergelim que é um fenômeno. O café é forte e o chá de menta, servido em toda a parte o dia inteiro, já vem doce mas, pelo sim pelo não, o pessoal ainda traz mais açúcar na bandeja.

Agora são 6h27m. Os muezzins já se calaram há tempos, e eu vou tentar dormir novamente, para ver se pego um soninho a mais antes de começar um dia que promete ser puxado, com visitas a monumentos e souks, arapucas de turistas e confeitarias.

 

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13 respostas em “Marrakech

  1. O Marrakech é um lugar incrível mesmo! Os cheiros dos temperos no mercado ♥
    As árvores por todo lado dão laranjas ou tangerinas? Achei que eram as frutas de Tânger, também no Marrocos…
    Relato maravilhoso! Aproveita a viagem!

    • Sra Cora,

      quando estive na Turquia, em Istambul, soube que o Ministério que cuida das religiões,
      baixou uma norma ou decreto em que estabelecia que as os chamados às orações deveriam
      ser sincronizados com o Ministério. (Na modernidade os muezins são eletrônicos).
      Ou seja à mesma hora em todo o país os alto falantes teriam o mesmo som e entonação.
      Segundo eles era para evitar as diversas vozes de taquara rachada e infinidades de
      sons e variedades de vozes, às vezes irritantes.
      Acorda-se quer queira ou não de madrugada.
      Muito interessante.

  2. Muito embora não tenha nada a ver com o assunto, gostaria de alertar os possíveis candidatos a irem à FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty, que neste ano homenageará o inesquecível Millor Fernandes:
    1 – É bom começarem a se coçar, porque a maioria das pousadas da cidade está lotada. ( e olha que a FLIP irá de 30 de julho a 3 de agosto )
    2 – Uma ou outra ainda tem vaga, como a péssima Pardieiro, que já foi do Paulo Autran e hoje em dia está nas mãos de um casal que faz de tudo menos gerenciar a pousada.
    E com um agravante: Acham ruim quando algum hospede reclama.
    Se vocês forem ver no TripAdvisor, há diversas críticas simpaticíssimas de hóspedes, só que a maioria é de europeus que só de estar naquele ambiente rústico ( e bota rústico nisso, cheio de baratas ) já acham uma maravilha.
    3 – Os preços durante a FLIP vão à estratosfera, esta pousada acima está cobrando R$ 5.600,00 por 4 dias de hospedagem e não é das mais caras…
    4 – Há algumas pousadas simpáticas com vagas, como a “Casa de Maria”, que não fica no centro histórico mas é mais barata.
    Esta tinha apenas UMA vaga na semana passada. E muitas outras…
    5 – Além disso tudo, precisam estar atentos para a compra dos ingressos que acontecerá em breve. ( assinem a lista em http://www.flip.org.br/ )
    Abraços,
    Carlos Alberto Silva e Souza

  3. É sempre muito bom ler seus textos; eles conseguem até aliviar a tristeza que sentimos na última semana por conta dos acontecimentos por aqui…

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