Decepção virtual

Uma das grandes vantagens das redes sociais é que, nelas, passamos a conhecer melhor as pessoas. Uma das grandes desvantagens das redes sociais é que, nelas, passamos a conhecer melhor as pessoas. Ao longo dos últimos dias, tive — como tivemos todos nós, jornalistas — uma overdose de ambas; e posso dizer, com convicção absoluta, que não estou preparada emocionalmente para conhecer melhor as pessoas.

Pegando o mote do meu amigo João Ximenes Braga, não sei de ninguém que, perto de mim, defenda a violência policial. Como ele, nunca tive um amigo, conhecido, pessoa de qualquer relação, que defendesse que bandido bom é bandido morto. Nunca ouvi essa frase enunciada em ambiente no qual eu estivesse presente, a não ser em tom de brincadeira ou reprovação. Também não tenho amigos que apoiem o Bolsonaro, o Marco Feliciano ou a Rachel Sheherazade — de quem, aliás, eu nunca tinha ouvido falar. Meus amigos e conhecidos tendem a ser pessoas cordiais e afáveis, que fazem o bem, respeitam a lei e o próximo. De modo que, como o João, eu também achava que estava razoavelmente a salvo do convívio com pessoas de má fé, intelectualmente desonestas ou, na melhor das hipóteses, insensíveis e sem noção. Daquilo, enfim, que o João, resumida e apropriadamente, definiu como “gente babaca”. Até que…

o O o

Não, não aconteceu de uma vez só. Foi aos poucos. Quando as manifestações foram sequestradas pelos black blocs, em meados de 2013, passei a conhecer melhor muitas pessoas. Foi um choque. Vi gente que até então eu tinha em alta conta defendendo a violência nas ruas como forma de manifestação legítima; vi pessoas que até então me pareciam civilizadas relativizando comportamentos absolutamente inaceitáveis, como a destruição de bancas de revistas ou o saque de lojas, para não falar na sistemática destruição de equipamentos públicos. Tentei argumentar com alguns (na verdade, muitos); escrevi duas ou três vezes sobre o assunto aqui mesmo, no jornal; usei blog, Twitter e Facebook na tentativa de explicar para onde aquela violência fatalmente nos conduziria. Fui chamada de — como é que vocês adivinharam? — burguesa da Zona Sul, reacionária, elite branca. E jornalista.

É que, àquela altura, já havia começado a caça às bruxas. Com a imprensa transformada em vilã, nós, jornalistas, passamos a ser ofendidos, acuados, agredidos. Tornei a escrever, sugerindo aos descontentes mudar de canal em vez de queimar carros de reportagem. E de novo fui surpreendida pela reação de algumas pessoas supostamente educadas, que justificavam as agressões feitas aos meus colegas porque, afinal, a cobertura das manifestações não estava bem de acordo com o que a Mídia Ninja ou os black blocs imaginavam que deveria ser.

— Mas vocês acham sinceramente que isso justifica bater em repórter e em cinegrafista?! Vocês acham que está certo expulsar jornalista de espaço público?! Vocês querem mesmo um país sem imprensa?!

Os esclarecidos davam metaforicamente de ombros. Naqueles dias em que a Mídia Ninja ainda parecia ser um projeto independente, era cool defender os black blocs que atacavam jornalistas; por outro lado, era muito pouco cool reconhecer que repórteres, cinegrafistas e fotógrafos eram trabalhadores de carne e osso, que estavam sendo hostilizados e feridos, e cujos direitos estavam sendo cerceados.

Jamais esquecerei o video em que uma equipe da Band, expulsa de uma manifestação, só conseguiu chegar ao carro passando por um corredor polonês de imbecis descontrolados, que se achavam ungidos pela Verdade Revolucionária, na definição perfeita do meu colega Fernando Mollica. Nunca vi nada mais parecido com uma cena de filme sobre a ascensão do nazismo, com a diferença de que aquilo era real e estava acontecendo logo ali.

o O o

Quando eu achava que já tinha visto de tudo, e que daquele ponto a decepção não passaria, foi anunciada a morte cerebral do cinegrafista Santiago Andrade. Acredito que estilhaços do rojão que o matou atingiram também a alma de todos nós que somos jornalistas, que nos orgulhamos da nossa profissão e que sabemos da importância da liberdade de imprensa para um país que se quer democrático. Os mais velhos, entre os quais me incluo, nos lembramos bem do que é trabalhar sob censura.

Pois não é que várias pessoas que eu imaginara serem gente de bem escolheram exatamente essa hora para abdicar da própria inteligência? Li coisas de um nível de estupidez indescritível, geralmente associadas à conjunção adversativa mau-caratista que tem sido a marca registrada do país: “Tá, o cinegrafista morreu, mas — e a violência da polícia?”

Isso para não falar nos que acham que a morte de Santiago não foi assassinato, mas “acidente”, e que nós, jornalistas, estamos exagerando ao dar a um crime o nome que lhe cabe. Ora, nunca vi ninguém acender estopim de “acidente”, um “acontecimento repentino, fortuito e desagradável” na definição do dicionário.

Foram pessoas como os assassinos do Santiago que afastaram o povo das manifestações, ao transformar os protestos em batalhas campais; são canalhas assim, que soltam rojões no meio da multidão, que estão enfim dando aos políticos e à polícia, de mão beijada, a carta branca que tanto querem para sufocar de vez os protestos legítimos da população.

Mas quem justifica a violência como “movimento” ou “estética”, e quem tenta diminuir a importância da morte de um jornalista no exercício da profissão, também terá a sua culpa no cartório no dia em que não pudermos mais sair às ruas — rotulados, todos, de terroristas, para indizível gáudio do governo.
(O Globo, Segundo Caderno, 13.2.2014)

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14 respostas em “Decepção virtual

  1. Parafraseando-a:

    Quando um Laboratório de Pesquisas foi invadido pelos pet-blocs, em outubro de 2013, passei a conhecer melhor muitas pessoas. Foi um choque. Vi gente que até então eu tinha em alta conta não repudiando a violência nas instituições, mas defendendo as ações como forma de manifestação legítima; vi pessoas que até então me pareciam civilizadas relativizando comportamentos absolutamente inaceitáveis, como a destruição de laboratórios ou o saque de computadores, para não falar na sistemática destruição de equipamentos de pesquisa. Tentei argumentar com alguns (na verdade, muitos); escrevi duas ou três vezes sobre o assunto aqui mesmo, no blog, na tentativa de explicar para onde aquela violência fatalmente nos conduziria…

    [sigh*] sorry.. 😦

    x-x-x-x-x-x
    em 30/10/2013 conclui:
    É uma situação semelhante a de ativistas ‘Pro-Life’ depredarem uma Clínica de Aborto, perfeitamente legal nos EUA.

    A partir do fato desta violência, fingem discutir ‘seriamente’ a questão, desfiando um arrazoado de razões, ‘científicas’ ou emocionais.

    Não há discussão aceitável com quem não condena a barbárie cometida.

    Todos os que pegam carona na barbárie cometida (saudando-a explicitamente, ou propositadamente ignorando o fato, ‘engatando uma segunda’ para apresentar suas razões) endossam implicitamente a ação das ‘Tropas de Ataque’.

    Não há discussão aceitável com quem não condena e repudia a barbárie cometida. Pois sempre terão ‘Tropas de Ataque’ nas mangas, para agirem ao arrepio das Leis, quando seus interesses particulares forem contrariados.

  2. Eu tenho 38 anos. Não é tanto assim mas já deu tempo de me decepcionar com a população, de forma geral, há algum tempo. Não digo decepcionar diretamente a uma entidade: à polícia, aos políticos, aos manifestantes. É à população mesmo, como um todo.

    Não consigo ver, nesses anos de adulto em que tenho estudo e leitura suficientes sobre o mundo que me cerca, uma coisa coletiva que de fato dê um resultado duradouro no Brasil. Vi, sim, alguns eventos pontuais, mas que se perderam, e feio, ao longo do tempo.

    Não fui do tempo da ditadura mas… acompanhei as “Diretas Já”. Na boa, para mim é inacreditável que um ser como Fernando Collor seja, ainda hoje, alguma coisa na política. Existe memória no Brasil? ACM (R.I.H.), Barbalho, Sarney, Cardoso, e infinitos sobrenomes estão ainda aí. E ainda estarão, nos sobrenomes de seus filhos, netos, bisnetos. E nada muda. E o povo, de maneira geral, ainda os elege. Em troca de que? Talvez de uma pretensa solução para a miséria que vivem gerada pelos mesmos em que votam.

    Estou cansado das mesmas histórias, das mesmas promessas. Pago meus impostos, não dou trabalho a ninguém, não meto meu nariz onde não sou chamado, acho que faço a minha parte. Mas cansei de ver o povo na rua protestando para… nada. Nada. As passagens subiram. De novo. Mas… e todo o resto? Se tivesse que haver protesto para tudo de errado no Brasil, eram 365 dias de protesto. 366 nos anos bissextos.

    O que deveria mudar era a atitude pessoal de cada um em direção ao todo. Cada um trabalhe direito: político, polícia, engenheiro, médico, analista de sistemas. Cada um pense nas consequências de seus atos em relação a todos. Cada um viva para melhorar o lugar onde nós todos vivemos. Cada um pare de olhar somente para seu umbigo e tente ver que há outras pessoas no que, teoricamente, chamamos de “sociedade”.

    Aí, sabe quando parece que tudo isso que você pensa é um daqueles sonhos incríveis, que só funcionam mesmo em um romance? Ou então em algum país civilizado, menos no Brasil? Então, é assim que me sinto hoje, em relação ao Brasil e em relação aos brasileiros, de maneira geral.

    Talvez haja solução para isso tudo. Mas aí eu também acredito que somente as minhas futuras gerações verão. Porque eu já vou ter partido para outra há muito tempo.

    Beijo,
    (Seu fã desde a primeira folha de informática do Globo) Rodrigo

  3. Fiquei estarrecido, porem não totalmente surpreso, quando ontem no JN pela primeira vez (pra mim pelo menos) falou-se claramente e com todas as letras no patrocinio da violência em protestos públicos. A quem interessa a vilanização dos protestos pacíficos? Como Watergate nos ensinou, basta seguir o dinheiro sendo pago a esses delinquentes para saber.

  4. impossível descrever melhor o que eu sinto. só vou repetir o que eu disse à época do aparecimento dos bb.
    há três tipos de pessoas:
    – os que acham que a violência nunca se justifica
    – os que acham que tem que botar mesmo para quebrar
    – os que, a princípio, são contra a violência, mas…
    é desses últimos que eu tenho mais medo.
    []’s

  5. Há pouco tempo desabafei (http://mukandasdonelsinho.wordpress.com/2014/01/29/rolezinho/) a minha revolta contra os epítetos açucarados de pessoa por quem nutro hora admiração hora profunda decepção, sobre os que fazem esses absurdos tumultos em centros comerciais.
    Sim, como você escreve nesta crônica, os atos de violência com quebra-quebra, têm toda a semelhança com o controlado descontrole nazi pelas ruas daqueles terriveis tempos. Tudo a ver com as destrutivas e sangrentas badernas promovidas pelos bolchevicks. Sabemos o que se lhe seguiu – Deportação, limpeza étnica, milhões passados friamente pelas armas…
    A memória é muito curta e a gente vê que as sementes do totalitarismo estão bem vivas e prontas a medrar.
    Obrigado pela coluna

    • O exagero dramático do meu comment tem a ver com recentíssimas leituras que me “refrescaram” a memória da pavorosa tragédia europeia/mundial do século 20. Mas a verdade é que é dessa forma que começa…

  6. Sua tristeza e lucidez na medida certa me fizeram sentir menos só. Torço para jornalistas como você não se deixarem abater pelo cansaço. Perfeito, Cora.

  7. Tempos tristes. Não acredito que o Santiago fosse o alvo. Pelo que entendi o morteiro aceso foi colocado no chão e poderia ter acertado jornalista, manifestante, policial ou até um cachorro que estivesse passando, ou mesmo várias pessoas ao mesmo tempo. Mas tenho plena convicção de que o objetivo era ferir ou matar alguém, não importando quem fosse.
    Sou da turma que não apoia a violência e que participou dos protestos pacatos.
    Lamentável que a turma da violência – aliciada ou não – está conseguindo abafar os protestos legítimos e assustar os que só querem um Brasil melhor.

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