Sayonara, Vaio!

— Meu mundo caiu! — exclamei durante um jantar com amigos. — Primeiro a Microsoft compra a Nokia. Depois a Google vende a Motorola para a Lenovo. Aí a Sony se desfaz do Vaio e ele nem será mais vendido fora do Japão pelos seus novos proprietários! E mal entramos em fevereiro. O que é que ainda vem por aí até o fim do ano?!

— Deixa de ser dramática e me passa a salada, por favor — disse a amiga que só usa Apple e não conhece o sentimento de orfandade tecnológica que os fiéis de outras marcas andam sentindo.

Passei a salada e parei com o drama. Eu estava fazendo teatro, é claro, mas mesmo brincadeirinhas têm certa carga emocional quando se referem a produtos tão presentes no nosso dia a dia. No caso da Sony, que vendeu a sua divisão de PCs para o Japan Industrial Partners, a notícia é perturbadora porque, depois de passar alguns anos apresentando máquinas bastante comuns e sem sex appeal — sim, máquinas podem ter sex appeal — ela lançou, no final do ano passado, um Vaio deslumbrante, o primeiro, em muito tempo, a fazer jus à fama da antiga série Z.

Essa série Z foi, num passado recente, o que havia de fino e elegante em notebook. Bem antes da Apple lançar o seu MacBook Air, os Vaios da série Z já eram leves, finos e poderosos. Além disso, como todo aparelho Sony, distinguiam-se pelo design e pelo acabamento primoroso. A tal ponto que, em 2001, o próprio Steve Jobs procurou o presidente Kunitake Ando com um Vaio rodando o OS X da Apple: ele estava disposto a abrir uma exceção, e a licenciar o seu software, que só se encontrava nas máquinas da Apple, para a Sony. A proposta foi estudada, mas não foi aceita porque, na época, as vendas dos notebooks Windows iam de vento em popa. Essa historinha curiosa, aliás, só foi revelada essa semana: o jornalista Nobuyuki Hayashi, que a divulgou, certamente ficou tão abalado pela notícia da venda da divisão Vaio quanto o resto dos fãs da marca…

Ter um Vaio da série Z nos seus áureos tempos não era exatamente ter um notebook — era pertencer a um clube de gente que sabia das coisas. Estive em incontáveis eventos em que uma mesma cena se repetia com regularidade: os participantes sacavam seus laptops da bolsa, cada qual maior e mais espetacular, com telas de 14″ ou 15″ polegadas… e umas poucas pessoas abriam seus pequenos Vaios de 11″. Nós nos entreolhávamos com um sorriso — Ahá! — e, na hora do coffee break, íamos direto bater papo uns com os outros. A escolha do mesmo aparelho leve e discreto significava que alguma coisa nós tínhamos em comum: uma mesma ideia de mobilidade, de beleza e do que devia ser a computação pessoal.

O novo Ultrabook Pro de 11″, que me encantou da última vez em que estive nos Estados Unidos (e que me arrependo muito de não ter comprado então), já chegou ao Brasil. O problema é que, como tudo o que se fabrica nesse planeta e que se importa para cá, chegou a um preço impraticável: a mesma configuração que é vendida na loja da Sony EUA por US$ 1.049 (equivalentes a R$ 2.497,35 pela cotação de ontem) custa, na loja da Sony Brasil, R$ 5.399,99. Não sei o que fizemos de errado como povo para merecer essa desgraça (aliás, até sei), assim como não sei o que fizemos, como consumidores, para que uma empresa como a Sony ache que faz algum sentido nos apresentar um preço com todos esses noves idiotas.
(O Globo, Economia, 8.2.2014)

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5 respostas em “Sayonara, Vaio!

  1. Escrevo este comentário em um Vaio Z58GG comprado em Singapura em 2009, onde morei e trabalhei por 2 anos, pela bagatela de 5.200,00 Dollars singapuranos, equivalentes hoje a cerca de US$4100,00! Toda essa grana, pelo rápido processador, 8Gb de memória e, principal e cara novidade, duas unidades SSD no lugar do hard drive. O equipamento tem sido excelente e poderosa ferramenta profissional que usei para tudo, inclusive para desenhar em CAD. Agora está nas mãos da Arminda e eu tinha (tinha) a intenção de adquirir o dernier crie dos Ultra Book Vaio…

    • Senti-me na obrigação de voltar aqui para corrigir: O meu Vaio, Derner Cri em 2009, custou 4300 Sings e não 5200! Encontrei a nota. E ele foi mais barato porque optei por DVD em vez de Blue Ray. Não foi portanto exatamente o dernier cri…:)

  2. Já não é sem tempo. Tenho dois VAIOs no armário pifados da noite para o dia. ( também tenho um Toshiba ) e tenho sido feliz com o meu ultrabook da Samsung Serie 9 há dois anos… Vamos ver !

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