O varal da semana

Hora de escrever a coluna. Imagino um varal estendido e diversas tinas ao meu redor, cada qual com o seu assunto. Há semanas em que a situação é crítica — não encontro nem um baldinho pequeno, daqueles que as crianças usam na praia, e que pode salvar a crônica com umas conchas, umas estrelas marinhas, uns tesouros miúdos. E há semanas em que, ao contrário, me vejo de frente para o varal com uma profusão de tinas, de todos os tamanhos e densidades atômicas. Pego um tema, abro, é grande demais para o tamanho do varal da vez; pego outro e é um lencinho que mal balança ao vento. Puxo um assunto daqui, espicho outro assunto dali, tento arrumar os acontecimentos, separo as tinas que podem esperar das que contém material perecível. 

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Há duas semanas, por exemplo, estive na Secretária Estadual de Educação, onde fui recebida pelo secretário Wilson Risolia e por sua equipe. Tenho muito o que contar sobre o que vi e ouvi; tenho uma grande quantidade de material, no qual mergulho aos poucos, como quem testa a água com a ponta do pé: há uma mistura explosiva de pedagogia e política no setor que me assusta, e fico com medo de não estar à altura do quebra-cabeças. Este é um assunto que dá para cobrir muitos e muitos varais. Guardo as peças de volta na tina: as férias escolares me dão o intervalo de que preciso para pensar.

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Uma outra tina guarda a continuação da história do cartório onde a minha sobrinha se casou, e que tão má impressão causou à minha irmã. Nela há três longas cartas: uma de Alan Borges, titular do cartório, uma de seu senhorio, e uma do secretário geral da Arpen-RJ, a Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado do Rio de Janeiro (!). O titular ficou compreensivelmente sentido com o desabafo da Laura, e nos enumerou tantas dificuldades, encargos e contratempos enfrentados no exercício da profissão que ainda não entendi por que, em vez de cartório, ele não abriu uma sapataria, que a se crer no que diz lhe daria mais lucro e menos chateação.

Ponto importante nas três mensagens (que talvez saiam da tina mais para a frente) diz respeito a uma imagem de Cristo que causou estranheza à minha irmã. É que ela, como eu, acredita que as repartições que prestam serviços públicos num estado laico não devem trazer símbolos religiosos.

“O que temos na parede do cartório é simplesmente um retrato — escreveu Alan Borges. — Ninguém sabe como foi a face de Cristo. Ganhamos a gravura há alguns anos e, sabendo reconhecer o valor de uma obra de arte, a pusemos para enfeitar o cartório. (…) Não temos símbolos religiosos expostos no cartório. Um retrato desenhado não é símbolo de nada a não ser da habilidade motora do artista.”

Por incrível que pareça, o grifo acima não é meu. É do titular do 5º Registro Civil da cidade do Rio de Janeiro.

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Desde que chegou ao poder, o PT faz questão de frisar a “herança maldita” que recebeu. O partido, ao que eu me lembre, foi eleito para mudar a forma como se fazia política no Brasil. A propaganda era tão  convincente que mesmo quem acreditava que o PT faria um péssimo governo apostava que o que lhe faltava era experiência, e não vergonha na cara. Em suma, o PT poderia vir a ser um atraso de vida do ponto de vista da administração, mas nunca da ética, sua principal bandeira.

Hoje acho uma graça enorme da ingenuidade de quem acreditava nisso — a começar por mim. Acho também que jamais teremos herança tão maldita quanto a imoralidade absoluta que o partido nos legou. Acompanhando na internet a repercussão do rolezinho da Dilma em Lisboa encontrei pessoas corretas, dignas de todo o meu apreço, que consideraram exagerada a indignação dos que se chocaram com o caso.

O que me espanta é que essas pessoas não conseguem mais, genuinamente, perceber o que está em questão. Acham que o problema é  partidário, manifestação de uma “indignação seletiva” que ignora problemas supostamente mais relevantes (todos, claro, da conta do PSDB — mas que obsessão!).

Até mesmo entre os que estão contra Dilma há quem erre o alvo, apontando o tamanho da comitiva, discutindo se o pagamento da conta do restaurante saiu ou não do bolso dos comensais, se o Ritz e o Tivoli seriam mesmo os hotéis mais recomendados para hospedar uma praga de gafanhotos às custas do contribuinte.

Tudo isso é sério, sem dúvida, mas não é grave. O país é rico, e não vai à falência por pagar os luxos da dona Dilma — que, aliás, para socialista, mostra-se bem chegada a uma vidinha burguesa. Grave mesmo é que as despesas de mordomia fiquem ocultas sob a rubrica de “segurança nacional”, assim como é grave a tentativa de esconder uma escala planejada, marcada com dias de antecedência, pretendendo que foi uma decisão técnica — porque, pelo visto, até mesmo nesse governo há quem perceba a imoralidade da gastança. Grave, ou para lá de grave, é ver um ministro de estado mentir — oficialmente — para o país.

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“Amor à vida” teve mais furos do que uma peneira e alguns dos personagens mais chatos da teledramaturgia nacional, mas teve também o melhor casal de qualquer novela que eu me lembre de ter assistido. Félix e Niko fizeram história, e vão deixar saudades. Mateus Solano e Thiago Fragoso, vocês são o máximo!

 

(O Globo, Segundo Caderno, 28.1.2014)

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9 respostas em “O varal da semana

  1. Cora,a questão da imagem de Cristo no enlace de sua sobrinha não deveria ter aborrecido sua irmã, não. Moça inteligente que é, Laura deveria , isso sim, estar bem feliz da vida por ver a filhota iniciando um novo (e esperamos) tempo, bem feliz .Tanta (desculpe o termo) porcaria de marido que se vê por aí, mau carater ao extremo, que um genro com boas qualidades já é o suficiente para fechar os olhos para imagens e que tais que porventura não nos agradem no local do casamento. Bom, é o que penso.

    Quanto ao seu “varal”, que imagem bonita você criou em seu texto! Fez-me lembrar de uma música do (sumido, em todos os sentidos) Belchior, chamada “Galos , noites e quintais”, de letra mui linda. E um varal pra mim, só os de quintais, varais “legítimos”, sabe? Como suas opiniões…suas crônicas. Bj, Cora

  2. Este varal está muito curto Cora para tanta roupa a ser lavada. Sugiro que você acrescente um anexo ao blog chamando-o exatamente assim ” Varal “. Nesse repositório ficariam todas as peças com marcas de graxa, sangue e suor, aquelas manchas difíceis de sair. Acredito também que você estaria dando uma contribuição enoorme à população. Ah, mas esqueci, você trabalha em um jornal e pode ser que o jornal não permita sua livre expressão. Ou estou errado?

    • Ih, Andre, eu acho que você deve ser novo por aqui. O blog é da Cora Rónai pessoa física, ela fala do que quiser, como quiser. O jornal não interfere na vida privada de seus funcionários. Se você frequentasse o pedaço, já teria percebido isso.

      • Sou não Marise. Leio o blog da Cora há…desde…quando mesmo? 1997? Talvez, acho que foi quando me conectei a primeira vez. Eu sei que o jornal não interfere. Mas eu não sei até quanto o jornal não interfere no que seus jornalistas dizem, e não estou falando da Cora apenas que exibe sempre uma independência invejável.
        O que estou perguntando é se, de forma não explícita, o empregador deseja não vê-la envolvida em certos assuntos. Obrigado.

        • O jornal não interfere nem no que escrevo lá, quem dirá aqui, Andre Junqueira! Tenho uma liberdade de expressão no Globo que nunca tive em nenhum dos meus outros empregos — e é por isso, justamente, que estou lá há tanto tempo.

          Este outro varal que você sugere já existe, de certa forma, no Facebook, onde me manifesto a respeito de tudo, inclusive assuntos que não acho merecedores de coluna. O blog hoje é basicamente um repositório do que escrevo no jornal; a minha atividade online está na rede social.

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