Dois jantares e alguns bilhões

Para quem achava que já tinha visto de tudo na vida quando a Nokia foi comprada pela Microsoft em setembro do ano passado, 2014 começou com um terremoto: a venda da Motorola, um dos ícones da indústria americana, para a Lenovo, empresa chinesa que atraiu a atenção do mundo há nove anos, quando comprou a linha ThinkPad da IBM. É difícil dizer qual aquisição causou mais espanto (e decepção) entre os usuários das respectivas marcas, mas o caso da Motorola é certamente mais melodramático — afinal, a empresa mudara de mãos há apenas dois anos, e a compra pela Google havia sido muito bem recebida por todos.

A marca Google rejuvenesceu a velha Motorola que, sob a nova administração, lançou dois aparelhos excelentes (Moto X e Moto G) e mostrou ao mundo Android que lindo ficava o seu sistema operacional sem as insuportáveis customizações feitas pelos demais fabricantes. Vi muita tristeza e revolta nos foruns e eu mesma não fiquei particularmente alegre com a entrada da Lenovo em cena; gosto tanto da Motorola quanto gostava dos ThinkPads, e não sei se gosto da ideia de ver ambas nas mãos de uma empresa chinesa com nome paraguaio e carisma zero. Mas, ora, estamos falando de um universo de negócios, onde palavras como “tristeza” e “carisma” não têm lugar — ou será que têm? Alguém disse Apple por aí?

Objetivamente, a venda da Motorola faz sentido. Hardware nunca foi a praia da Google, que sempre esteve mais interessada nas patentes da empresa do que nos seus produtos. A Lenovo, por outro lado, em que pese a sua total ausência de “fator cool”, produz e vende hardware com rara garra e competência, e já havia manifestado intenção de entrar no mercado ocidental de smartphones. Seus executivos informam que a linha e a marca Motorola serão mantidas, em paralelo com os aparelhos desenvolvidos pela Lenovo sob sua própria marca.

O CEO Yuanqing Yang, de 49 anos, retrato da “nova China”, é uma das estrelas do universo corporativo do país: filho de médicos perseguidos pela Revolução Cultural, cresceu pobre e começou por baixo na Lenovo, com um salário mensal de U$ 30. Numa rápida entrevista à Fortune, ele contou os bastidores da compra da Motorola:

— Foi uma história de amor muito, muito interessante. Nós já estávamos interessados na Motorola há tempos, antes mesmo da sua divisão em Motorola Mobility e Motorola Solutions, em 2011. Assim que a Google comprou a Motorola, eu convidei Eric Schmidt (diretor executivo da Google) para jantar na minha casa. E disse a ele, “Se você acha que quer tocar o hardware tudo bem, fique com o hardware, mas se você não estiver interessado nessa parte, nós temos o maior interesse em assumi-la”. Ele se lembrou disso e, há dois meses, me mandou um email. Eu liguei de volta, e ele me perguntou: “Vocês ainda estão interessados na Motorola?” e eu disse, “Com certeza”. Começamos a discutir o assunto. Fui ao Vale do Silício várias vezes. Larry Page (CEO da Google) me convidou à sua casa para jantar. E assim, muito rapidamente — em apenas dois meses — fechamos o negócio.

Com a compra da Motorola, a Lenovo, que já tem uma boa participação no mercado chinês de smartphones, passa a ter uma fatia de 6,4% do mercado mundial. Ainda está longe dos 17% da Apple e dos 29% da Samsung, mas não custa lembrar que, até a compra da divisão de ThinkPads da IBM, ninguém tinha ouvido nela fora da China — e hoje a Lenovo é, simplesmente, a maior fabricante de PCs do mundo.

Vai ser no mínimo interessante observar como essa história se desenrola.
(O Globo, Economia, 1.2.2014)

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9 respostas em “Dois jantares e alguns bilhões

  1. Curiosos valores de mercado: a Motorola vale os mesmos US$ 3B oferecidos [e recusados] à Snapchat?

  2. sei lá, não me lembro de a Lenovo oferecer algo de novo ao mercado, só sustos.
    quando penso nessa marca, imagino fábricas sem imaginação, altamente produtivas.
    penso nisso e em coisas mal acabadas, feiosas.

    quando penso em Motorola, penso em rádio de pilha antigo e muito bom e no A45 Eco: o pior celular de todos os tempos, com bateria que dura 15 minutos de conversação e nunca foi encontrada à venda como acessório, separada do quadradinho, no Brasil.

    resumindo: penso que a Motorola encontrou, finalmente, um dono que a merece.

    • Não sejamos tão injustos, Claudinho. Eles não têm imaginação, mas fazem máquinas muito boas. E, ao que consta, oferecem um suporte técnico respeitável aos seus usuários. Vamos torcer pelo melhor!

      • imagina, não a desmereci. são máquinas mal acabadas mas são limpinhas. 🙂

        a Lenovo é (conceitualmente) o que a GM já (ou sempre?) foi: uma fabricante sem muita imaginação. dizem que a GM deu uma volta nessa história, não sei, tenho meus motivos particulares (na garagem) para desconfiar. quanto à Lenovo, virou a queridinha dos patrões que encontram em seu portfólio o similar econômico (e feioso) do que o mercado anda produzindo.

        não é demérito, é visão empresarial. assim que se ganha dinheiro.

        🙂

        torçamos!

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