Casar é para os fortes

Minha sobrinha e o namorado se casaram na semana passada. Optaram pelo civil e a cerimônia, se é que se pode chamá-la assim, foi realizada no Cartório de Botafogo — quem se casa no civil é obrigado a utilizar os serviços da sua circunscrição. Minha irmã Laura contou, no Facebook, como foi a experiência:

“Pessoal, só não postei antes por preguiça de relatar o absurdo. Mas vamos lá: na quarta-feira, a Manoela se casou com o Jefferson. Eles decidiram não fazer festa, só ir até o cartório e casar, na presença das duas mães, da avó, e da Jú e do Gui, que eram as testemunhas. Nada de grandes comemorações. Até aí tudo bem.

Mas voltemos um pouco no tempo: eles deram entrada nos papéis no ano passado. No cartório demoraram mais de um mês para “agilizar” o processo. Não, eles nunca foram casados antes, são ambos solteiros e desimpedidos.

Depois, os gastos: somando só a papelada e reconhecimento de firmas, deu uns R$ 1.000. É, isso mesmo, mil reais! Por um serviço que deveria ser gratuito, ou quase. Aí a gente entende por que é que pobre só junta, não casa.

O casamento em si é uma cerimônia meio surreal. Montes de casais e suas famílias apertados num lugar minúsculo, num segundo andar sem elevador (os velhinhos e cadeirantes acabam ficando em baixo e não podem assistir ao casamento). A única escada é estreita e mal desenhada, um acesso difícil e muito, muito perigoso. Fiquei achando que aquilo lá é um convite à tragédia. Se fosse restaurante, salão de festas ou mesmo cinema já teria sido há muito interditado pela Defesa Civil.

Na parede, enorme, um retrato de Cristo. E eu, bobona, que pensava que casamento civil era coisa laica, para judeus, muçulmanos, umbandistas, ateus…. Que nada, no Brasil todo o mundo é forçado a engolir a religião da maioria. Aí a juíza começa o discurso reclamando de um senhor que estava, por sua vez, reclamando das condições lamentáveis do lugar. Ela diz: “Quem é ele para reclamar?”. E eu penso com meus botões: “É um sujeito sensato, que espera dos serviços públicos, pagos a peso de ouro, um mínimo de decência”.

Não sei como é nos outros países, mas os cartórios, no Brasil, me parecem um retrato do coronelismo, do descaso, do subdesenvolvimento, da soberba com que as “otoridades” massacram o pobre do contribuinte que sustenta suas sinecuras.

Triste.”

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Nos comentários, Anne de Saint Hubert contou a sua experiência na Inglaterra: “A papelada levou uma semana porque tinha que estar exposta em lugar público, o custo foi exatamente 34 libras, o que deve dar uns 100 reais. O local era limpo e luminoso, o edifício era lindo, datando do Século 18, com acesso para cadeirantes por lei. Não havia nenhum símbolo religioso nas paredes ou em nenhum móvel. E nem na cerimônia e nem na certidão se fez referência a qualquer deus. Não tivemos que fazer tradução das certidões de nascimento nem reconhecer firmas ou coisa parecida.” Celia de la Fuente (tem coisa mais chique do que os nomes das minhas amigas de Facebook?) atualizou preços e prazos ingleses, que aumentaram nos 14 anos que se passaram desde o casamento da Anne: 45 libras de taxa, 15 dias para correrem os proclamas. Quem quiser certidão de casamento impressa paga mais quatro libras, no momento do casório, ou sete, se precisar depois.

o O o

Por acaso, estive recentemente num casamento civil na periferia de Londres. O lugar não podia ser mais simpático e agradável, grande, limpo, bem decorado, com cadeiras confortáveis para dezenas de pessoas. Feito para receber bem o público que, afinal, é quem paga pelos serviços. E sim, claro, sem qualquer espécie de símbolo religioso à vista — como deve ser.

o O o

Claudio Hideki contou a sua experiência: “Eu e a minha esposa nos casamos na prefeitura da cidade japonesa de Matsubara, província de Osaka. Não pagamos nada e tudo ficou pronto em 30 minutos. Ah! Em que pese o país ter duas fortes religiões (Budismo e Shintoísmo), as repartições públicas são laicas”. Rosa Emilia Dias casou em Veneza: “Paguei 27 euros com direito à vista do Canal Grande”. Gilda Menasce escreveu que em Maryland, nos EUA, a licença custa U$ 55 e, se o casal quiser cerimônia, mais $25. Maria Duha-Klinger esclareceu: “Nos Estados Unidos não existe cartório — você pode ir no City Hall da cidade para o casamento civil ou casar em casa, clube, igreja, sinagoga, onde for, por uma pessoa credenciada”. Andrea Pozzan, por exemplo, pagou U$ 60 pelo casamento em Las Vegas, com direito a se vestir de noiva e tudo: “A cerimônia é bem breve, mas mesmo assim o Ministro, que faz as vezes do juiz de paz, teve a gentileza de perguntar nossa fé e, depois, se ele podia citar Deus durante os votos. Ele casa pessoas de todas religiões e não podia fazer essa “desfeita”. Quis saber brevemente nossa história em nosso inglês macarrônico, e fez um discurso simpático que eu amei.”

Manoela, Jefferson e toda a família presente, em contrapartida, detestaram o discurso previsível e moralizante da juíza.

o O o

Algumas pessoas acharam que a Laura exagerou ao reclamar da imagem de Cristo na parede, para elas perfeitamente normal. Mas não há nada de “normal” num símbolo religioso exposto em repartição que presta serviços públicos num país pretensamente laico, onde existe liberdade de credo e de culto. Como essas pessoas se sentiriam se, em vez da imagem de Cristo, houvesse uma estrela de David no cartório? Ou uma inscrição islâmica? Ou a imagem de um orixá?

“Normal” na alma dos outros é refresco.
(O Globo, Segundo Caderno, 23.1.2014)

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22 respostas em “Casar é para os fortes

  1. Separação de Igreja e Estado deveria assim ser: abolir todos os crucifixos (para não falar nos demais ícones religiosos, seja JC, Nossa Senhora, São Jorge ou… Gurus das mais diversas seitas) nos tribunais e repartições públicas; remover o “Deus seja louvado” das cédulas de Real (que em nada difere do “Allahu akbar” islâmico) ; para citar duas flagrantes intromissões expúrias da Religião em elementos laicos do Estado

    • Pois é! Sendo que o “Deus seja louvado” é duplamente ofensivo, por ser macaqueado do “In God we trust” das cédulas americanas. Como se copiar o que as verdinhas têm de pior pudesse influir na nossa economia quase sempre mal administrada…

  2. Meu segundo casamento foi no cartório aqui de Itaipava. Não me lembro do preço, mas não me pareceu caro na época, lá se vão mais de 20 anos.
    Mais bizarro foi o primeiro casamento. Fizemos um pacto para separação total de bens e para isso tivemos que lavrar uma escritura em cartório. O tabelião queria me convencer a trocar meu sobrenome, quando a lei já permitia que a mulher mantivesse seu nome de solteira. Tive que soltar os cachorros pra que minha vontade fosse cumprida. Os dois gestos me facilitaram muito quando me separei. Não tive que trocar nenhum documento e não tivemos nenhuma discussão em relação à partilha. Recomendo muito as duas coisas.

    • O marido já devia ter desconfiado que o casamento não ia dar certo… Não querer usar o nome de casada ? Quer ser independente ? Deu no que deu. ( risos )

      • O meu caso é diferente. A minha esposa atual e a ex usam o meu sobrenome ! A minha ex brigou na justiça para manter o meu sobrenome ! Isso sim é ridículo !

      • no segundo casamento eu também não quis gtrocar meu nome e estou casada há 26 anos rsss Não se trata de não querer o nome do marido e sim de Não querer trocar o nome que meu pai me deu. Nasci com ele, vou morrer com ele.

  3. não conheço em outros lugares, mas cartório, no brasil, acho um troço meio medieval. quanto à imagem de cristo penso que não pode ser obrigatório, mas se alguém colocou lá porque quis não me incomoda. os que não creem, podem pensar no quadro como se fosse uma paisagem. ou não.
    []’s

    • Qualquer cidadão pode exibir símbolos religiosos na sua casa, na sua loja, na sua oficina mecânica, e ninguém jamais poderá se queixar disso, Nelson. Mas as repartições públicas, que prestam serviço indispensável a cidadãos de todos os credos (e não credos) não têm esse direito.

  4. Vou aproveitar para desejar ao casal tudo o que de melhor se pode desejar!
    A taxa é surreal mesmo, mas faz parte do surrealismo do quadro em exposição.. Eu penso, depois de haver estado muito recentemente num oficialesco lugar desses, tal como descrito pela Laura lá em Curitiba, que vale a pena gastar um pouco mais e contratar o Juiz para vir a um local menos publico…

    • O “Brasil para Cristo” (que já consertei) foi obra do Facebook, que às vezes completa os nomes que a gente digita da maneira mais esquisita. É que eu publiquei primeiro lá, recortei e trouxe para cá, ao contrário do que faço habitualmente…

      • Estou confuso. A Luma Rosa disse “…não é lema da religião da maioria no Brasil”. O Cristianismo é dominante no Brasil, sendo a Igreja Católica Apostólica Romana a de maior quantidade de seguidores. Essa frase não é dos católicos, mas é dos Cristãos. O que entendo é que os lugares públicos não devem ter nenhum tipo de referência a qualquer das religiões ou filosofias religiosas.

  5. Casei no civil em 1993 e custou o equivalente a R$ 30,00… Subiu muito, hein ? Casamos com a juíza Maria Vitoria e foi um espetáculo. Espetáculo que já vai para 21 anos ! Graças a Deus ! E a nosso senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora, sua mãe que sempre passa na frente para resolver todos os problemas !

  6. Cora, eu nem me espanto ao ler o relato do casamento da sua sobrinha. Considerando a incompetência e a má vontade generalizadas nos serviços públicos no Brasil, eu estranharia se a cerimônia tivesse sido barata e eficiente. Cartórios são o retrato mais triste de um país onde o jeitinho impera e todos são desonestos até que provem o contrário. Acho que só aqui devem existir serviços tão bizarros como reconhecimento de firma e xerox autenticado, verdadeiras pragas que infernizam a vida do cidadão e das empresas de bem. Vivemos atolados em burocracia burra o tempo todo e, claro, o casamento não iria escapar dela.

    Quanto à imagem de Cristo, já desisti de acreditar num Estado laico. Depois de um pastor presidindo a Comissão de Direitos Humanos conforme suas crenças, nada mais me choca nesse sentido. Normal aqui é enfiar goela abaixo seus dogmas religiosos na vida dos outros, não respeitar que cada um acredite (ou não acredite) no que quiser. Infelizmente.

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