Tudo lixo — e uma pérola

Uma noite dessas, quando cheguei em casa, abri a mailbox e encontrei duas mensagens desesperadas de uma amiga, enviadas à tarde e acompanhadas de fotos, em que ela me pedia socorro: havia uma equipe da Comlurb em frente à sua casa, “podando” uma árvore que, via-se pelo que ainda não havia sido destroçado, costumava ser linda e frondosa. O “podando” vai entre aspas, é óbvio, porque pode-se chamar o que a Comlurb faz de qualquer coisa, menos de poda — algo que, segundo dicionários e botânicos, favorece as plantas.

A poda ao estilo Comlurb não favorece nada, nem as plantas, nem o prazer de quem se encanta com elas. A ferocidade e a inconsequência com que a empresa ataca as árvores é comparável ao ímpeto assassino de um serial killer que mata a esmo, sem ao menos saber quem está atingindo — vide o caso do açacu da Pompeu Loureiro, uma das árvores notáveis da cidade, que só não veio inteiramente abaixo porque alguns vizinhos, alarmados, impediram o crime. O coitado está se recuperando, e até ganhou nota festiva com direito a foto na coluna do querido Ancelmo, mas sabe-se lá quantas décadas ainda serão necessárias até que volte a ser o que era.

A Comlurb não age sozinha. Ela é o braço armado, por assim dizer, da Fundação Parques e Jardins, a verdadeira culpada, em última instância, pela poda calamitosa das árvores do Rio.

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Para saber como a prefeitura cuida dos nossos parques e jardins, aliás, recomendo uma visita ao Campo de Santana, onde funciona a sede da Fundação. Tomado por pivetes, drogados, mendigos, assaltantes e catadores de lixo, o Campo tem um policiamento tão ineficaz que não consegue conter sequer o abandono rotineiro de animais.

Escrevi uma crônica sobre o estado lastimável do Campo em junho de 2011. Mais ou menos pela mesma época me encontrei, por acaso, com o prefeito, e aproveitei para reforçar as queixas que havia feito aqui no jornal. Ele me ouviu com atenção e chegou a tomar notas num Blackberry. Quem visse a cena de fora poderia até imaginar que alguma providência seria afinal tomada. Pois sim! Passados quase quatro anos, tudo continua na mesma.

O mais triste é que o Campo de Santana é um dos jardins mais bonitos do país. Em qualquer cidade mais ou menos civilizada, seria tratado como a jóia que é, com suas árvores centenárias e seu sofisticado paisagismo do século XIX. Ele tem esculturas, grutas e lagos, fontes francesas de ferro fundido, elevações gramadas e pequenas pontes, mas é impossível curtir qualquer dessas belezas.

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E o Aterro? Lá a destruição sistemática dos jardins conta com o beneplácito e a colaboração ativa das autoridades, que permitem Bailinhos nos jardins tombados do MAM, estacionamento de bicicletas de aluguel em áreas onde já nem cresce a grama (em contraste com outras onde a grama sequer é cortada) e a realização de toda a sorte de eventos de massa para os quais não foi projetado. Os jardins estão detonados — e, como os do Campo de Santana, entregues a assaltantes e moradores de rua.

Ao contrário do Campo de Santana, porém, o Aterro tem, pelo menos, uma vaga esperança: é o grupo Aterro Vivo, organizado por aguerridos moradores da vizinhança. Cansados de serem assaltados na sua área de lazer e de vê-la entregue a todo tipo de baratas, metafóricas ou não, eles têm se mobilizado para chamar as autoridades às falas. Tomara que sejam ouvidos.

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Sinceramente? Eu adoro o Rio e não conseguiria viver em outro lugar mas, a contragosto, começo a reconhecer que a nossa cidade anda muito difícil. Salvo poucas e honrosas exceções, para onde quer que se olhe está tudo feio, tudo mal conservado, tudo um lixo. E a tal da “paisagem humana” vai pelo mesmo caminho. Os serviços nunca estiveram tão caros, tão ruins, tão desaforados. Já temos até restaurante a quilo cobrando dez por cento!

Tenho muita pena dos turistas mal aconselhados que, com tantos destinos amáveis, escolhem de vir logo para cá. Tenho também muita vergonha de ver a minha cidade tratar tão mal os seus visitantes. Tudo o que eu queria é que as pessoas saíssem daqui maravilhadas, tristes de ir embora e certas de que passaram as férias num dos melhores lugares do mundo.

É que conheço bem a amargura de ser maltratada como turista. Em que pese a beleza da cidade, nunca mais ponho os pés em Praga, onde fui tão sistematicamente roubada em táxis, hotéis e restaurantes que por pouco não desisti do resto da viagem. A lembrança daqueles dias miseráveis contaminou, para sempre, todo o carinho que eu tinha pela cultura tcheca.

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Mas nunca consigo ficar de mal com o Rio por muito tempo. Fiz as pazes com a minha cidade na segunda-feira, assistindo à estréia do novo espetáculo da imbatível dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, “Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos” — a história de uma trupe mambembe costurada por canções que fazem parte da história de todos nós.

Este musical nascido de outros musicais é denso, engraçado, comovente — numa palavra, imperdível. Gostei de tudo: da luz linda, do cenário que não pesa, dos figurinos quase irônicos. O elenco é ótimo e afinadíssimo em todos os sentidos. Eu nem esperava outra coisa de um autêntico Möeller & Botelho, ainda mais com a diva Soraya Ravenle na escalação. Mas gostei, sobretudo, de ver Claudio Botelho em cena, provando que ninguém precisa ter um vozeirão quando tem tanto carisma e inteligência.
(O Globo, Segundo Caderno, 16.1.2014)

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11 respostas em “Tudo lixo — e uma pérola

  1. Olá Cora,
    Aqui em Belo Horizonte é muito pior.Funcionários da CEMIG, a Famigerada, chegam em sua casa como se fossem da prefeitura e podam até árvores do seu jardim, ou seja, dentro da sua propriedade.Outro dia, chegando em casa surpreendi peões podando a pitangueira do meu filho(meus filhos, cada um, têm uma arvore plantada no jardim com seu umbigo enterrado).Gritei esbravejei, fiz ameaças, chamei a polícia e fiz ocorrência, parecia a louca da rua, e não adiantou nada.Diz a secretaria do meio ambiente que tem um processo correndo contra o aleijamento da pitangueira.Vou entrar no MP do meio ambiente.Brigo até onde meus direitos permitem, mas a pitangueira está lá , completamente aleijada.

  2. Cara,

    Um dado a mais, a respeito da poda destrutiva: não é só isso que o Departamento de Parques e Jardins não sabe fazer. Há algo ainda mais grave: a inação desse senhores estará brevemente desfigurando as mais belas ruas da nossa cidade.

    Veja como: a.maioria das árvores das ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro já estão chegando ao final do seu tempo de vida. Após o que elas se tornam vulneráveis a doenças e começam a apodrecer. E daí tem que ser cortadas para evitar que caiam.

    Ora, árvores – como gente – ficam velhas e morrem. É da natureza. O problema é que, como em geral foram plantadas ao mesmo tempo, ficarão velhas e terão que ser cortadas também ao mesmo tempo. E então as ruas que hoje são maravilhosamente sombreadas e, por isso, frescas, ficarão completamente sem sombra.

    Como impedir isso? A providência para impedir que isso aconteça é até simples. Mas demanda inciativa. O Deparamento de Parques e Jardins deveria retirar (infelizmente cortando) metade das árvores já antigas, uma árvore sim outra não, colocando outras árvores, novas, com 1m a 2m de altura,.no mesmo lugar que as velhas ocupavam.

    Por que fazer isso? Simples. Por que assim, quando chegar a hora final das árvores antigas (no máximo daqui a uns 5 anos em muitas ruas), e elas tiverem que ser cortadas por estarem apodrecendo, as novas árvores estarão grandes o suficiente PARA QUE AS RUAS NÃO FIQUEM TOTALMENTE SEM SOMBRA.

    Aliás, é isso que já começou a acontecer: as árvores entre os números 100 e o 300 da Barão da Torre eram da mesma espécie e foram plantadas ao mesmo tempo. Ficaram velhas velhas ao mesmo tempo… foram atacadas por fungos… apodreceram… e tiveram que ser cortadas TODAS AO MESMO TEMPO . … Resultado? Experimente andar nesse trecho da Barão da Torre em dia de sol… Depois mande um bilhete a respeito para a Cora…

  3. Dois comentários:
    1 – A poda de árvores é um processo lucrativo para o pessoal da Comlurb e companhia. Eles saem destruindo tudo, mas se você der um “por fora” trabalham direitinho e com cuidado. Lamentavelmente esta é a verdade: É o famoso jeitinho brasileiro. Aconteceu com um apartamento em Botafogo que tinha uma frondosa árvore, quase assassinada pelos Jason da Comlumrb.
    2 – O Rio de Janeiro é lamentável. Com a criação do ECA pelo desembargador Darlan, que teve a melhor das intenções, criou-se uma total impunidade de menores e quase-menores e maiores que se fazem passar por menores. Como o RJ é cercado de favelas, a coisa complica nos dias ensolarados nas praias maravilhosas… Como diz Arthur Dapieve, digressiono, digressiono… Acho o RJ terrível em tudo e olha que moro no Leblon !
    3 – Falei estas sandices todas para mencionar que a cidade do RJ é propagada como péssima, porque é mesmo.. A prestação de serviços é ruim, comparada com São Paulo, por exemplo. Evidentemente que não podemos comparar com Paris ou Lisboa, que aí será brincadeira, pois por lá a coisa é péssima ao cubo, mas como é na Europa todo mundo acha chique..
    Vou contar uma pequena história: Fui aos EUA e entrei em uma loja gerenciada por um americano típico ( e raro atualmente ) um senhor idoso, cabelos brancos e olhos azuis. Saí perguntando algumas coisas sobre os produtos e o homem não me dava bola, se fazia de desentendido. Achei que ele não entendia o meu inglês escorreito, mas… chegou uma senhora WASP e ele fez o mesmo, A senhora deu-lhe um passa-fora imenso com diversas palavras de baixo calão e foi embora. Imediatamente, ele se virou para mim, pediu desculpas e perguntou o que eu desejava… Ou seja, atendimento quase nota zero. Mas como é nos EUA, adoramos !

    • Coach: Ninguém gosta de ser mal atendido, não importa as coordenadas geográficas. O atendimento em lojas no Brasil, Rio incluso, é mais dinâmico, eu ousaria dizer, que em qualquer outro lugar do mundo. Porém, há muitos lugares em que o povo gosta e prefere entrar na loja sem ser interpelado, mesmo que com um simples e simpático “Posso ajudar?”. Os atendentes são instruidos nesse sentido. Para brasileiro, esse tipo de estática é bastante antipático.
      Poda de árvores em cidades onde a distribuição eletrica/telefônica continua como há 100 anos em “linhas aéreas”, é sempre destrutiva, sem qualquer critério mesmo que primário como por exemplo, cortes oblíquos para que a água da chuva não penetre no que fica. Entre o melhor que tive ocasião de apreciar, destaco Singapura. Não existem linhas aéreas em lugar algum, mas há a necessidade da poda até mesmo simplesmente para desimpedir a iluminação pública. A poda é criteriosíssima!

  4. Adoro a Soraya Ravenle, lembro-me dela na novela Laços de Família, era aquela dona de casa meio estressada (como todas, rs) e amicíssima da Vera Fischer; a novela foi ótima e nessa vibe os atores eram ótimos tb. Mas não foi para discorrer sobre novelas que resolvi escrever aqui e sim sobre o descaso de firmas reconhecidamente boas com seus consumidores. O prefeito não cuida bem da cidade , né, o que dirá os bambambãs da Brastemp, que até hoje não me ressarciram de um débito indevido em minha conta, há mais de um mês, apesar dos meus rogos em telefonemas (grátis, só que não), enganada que fui na história de “experimentar” por 30 dias um purificador de água. O tal aparelho era ótimo, mas grande por demais e logo tratei de devolvê-lo. Mas nunca havia técnico para retirá-lo , quando eu ligava erravam meu nome,(mas pra debitarem da minha conta acertaram direitinho)e com isso , após váaaaaaarios telefonemas, ficaram de resolver essa semana, ufa. Sexta-feira, vamos ver…e rezar, …e ter fé que a Brastemp, tão conceituada , tenha enfim dado tratos a bola e me ressarcido…Quem viver, verá…

  5. A Fundação de Parques e Jardins é uma calamidade. Na época em que a sede ficava na Lagoa, acordei um dia com a “poda” de uma árvore centenária em excelente estado (acredito que “a poda” foi providenciada pois, na véspera, uma outra árvore havia caído em cima de um carro que passava pela Curva do Calombo). Liguei imediatamente para a Fundação (na época, localizada em frente à árvore que estava prestes a ser “assassinada”) e nenhuma providência foi tomada.
    Sou carioca, mas, atualmente, confesso-lhe que estou cansada de viver nesta cidade e, se fosse estrangeira, preferiria ver o Rio em vídeo.
    O espetáculo é maravilhoso, mas, nem ele me fez fazer as pazes com esta maltratada cidade…

    • Quando criança, meu pai me levava todos os domingos ao Campo de Santana, para entre outras coisas, ver as cotias…

      Em tempo: acabei de receber o carnê do IPTU…

  6. “A lei da hospitalidade é mais importante do que qualquer outra lei, inclusive as do Corão. ” (“Tuareg” – Alberto Vázquez-Figueroa)
    Enfim, se o ‘Rei” esta nu, o Rio se apresenta em (quase) andrajos numas áreas e totalmente esfarrapado em outras, ainda que ostente alguns valiosas ‘joias’ (em regra geral, oriundas de veios artísticos).
    Li o teu Post e a menção ao Campo de Santana (concordância total – kd as cotias?) e lembrei-me da Elizabeth Bishop: “O Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade. – pena que os minhocas da terra e seus governantes não promovam continuados “Dias de Princesa”, para essa linda…
    Obrigada, Norma

  7. É impressão minha ou existe uma campanha generalizada contra o turismo no Rio? É um massacre diário só falando das mazelas da cidade, é só noticiário ruim, só críticas induzindo contra o turismo na cidade, os problemas que aconttecem aqui acontecem em todas as grandes cidades brasileiras, mas a mídia só fala do Rio, o mais estranho é que a mídia de outras cidades omitem seus problemas e só criticam o Rio, isso é uma campanha velada contra o turismo no Rio.

  8. eu sempre achei que o rio deveria ter um prefeito que funcionasse como síndico, mantendo as coisas prontas que existem e construindo somente onde efetivamente há necessidade: asfaltando ruas hoje sem pavimentação, que são muitas, e urbanizando áreas abandonadas. mas todos fazem exatamente o contrário, vide demolição da perimetral, rio orla, rio cidade, etc, obras que dão visibilidade. infelizmente, parece que dá certo (para eles), já que são sempre eleitos e reeleitos com esse tipo de atuação. o campo de santana é, realmente, a representação cabal disso: sempre achei uma piada pronta a fundação parques e jardins estar sediada lá.

    estou com muita vontade, mas não sei se vou conseguir ver o novo espetáculo da dupla (não consegui saber até quando fica em cartaz), mas tenho certeza de que deve ser maravilhoso, eles são geniais.
    []’s

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