Lembranças antigas, discussões novas

Em 1999, três rapazes americanos lançaram um serviço que foi, pelos três anos seguintes, uma das experiências mais lindas da internet. O Napster juntava, num só lugar, todos os usuários que gostavam de música. Ele servia como ponto de encontro universal; os arquivos, em MP3, continuavam nas máquinas dos usuários, que davam, uns aos outros, acesso às suas respectivas coleções. Graças a isso, descobri música do mundo inteiro, gêneros que não conhecia, cantores de que nunca tinha ouvido falar. A minha playlist se transformou numa Torre de Babel cantante, com faixas em urdu, telugu, malayalam, pashto, grego, khmer, yorubá, kechua e servo-croata. Havia até alguma coisa em inglês e francês. Em troca, ofereci muita música brasileira para os meus parceiros ao redor do mundo, muito Francisco Alves, muito Nelson Cavaquinho, muito Quinteto Armorial, e mesmo os que já tinham ouvido falar em MPB ficavam admirados, porque, na sua imaginação, os brasileiros passavam os dias na praia jogando futebol e ouvindo Bossa Nova, de preferência na voz do Sinatra.

Essa confraternização espetacular acabou três anos depois. Este foi o tempo que a RIAA, a nefasta Recording Industry Association of America, levou para abater o Napster, num show de maldade, incompreensão e autodestruição poucas vezes igualado. Os processos movidos contra o Napster e usuários aleatoriamente pescados no sistema reuniram alguns dos melhores advogados dos Estados Unidos, e foram acompanhados, como se fossem novelas, por todos os jornalistas e observadores da área. Eu imprimia calhamaços de 200 páginas de argumentação legal que lia avidamente, roendo as unhas, angustiada com a má fé de alguns argumentos, encantada com o bom senso de outros, maravilhada com a sabedoria de um ou outro (raro) juiz. Detalhe: apesar de inglês não ser a minha primeira língua, eu entendia absolutamente tudo o que estava em discussão, e o que eu não entendia — algumas expressões jurídicas, algumas referências à jurisprudência — encontrava imediatamente na rede.

A batalha do Napster me deu vontade de fazer Direito. A defesa brilhante de pontos de vista opostos me encantou num grau que eu jamais experimentara, porque todos os advogados eram muito bons — especialmente o time que se juntou em torno do Napster, e que entendia exatamente o que significava a falta de fronteiras nacionais oferecida pela internet, e a sua importância para a cultura e a liberdade da humanidade como um todo.

Em suma, era tudo muito bem pensado e, óbvio, muito bem escrito.

Era tudo muito, muito CLARO.

o O o

Me lembrei disso ao longo dessa semana, quando me vi no meio de um debate sobre educação provocado pela coluna da última quinta-feira, em que dei voz a uma professora de inglês do estado. Gisele Abreu me escreveu desabafando a frustração que sentira quando, na última semana letiva de 2013, fora apresentada a uma portaria da Secretaria de Educação que tornava a sua matéria virtualmente irrelevante, ao tirar-lhe a capacidade de reprovar alunos com mau desempenho.

Pouco depois, recebi um telefonema do secretário de Estado de Educação, Wilson Risolia. Batemos um longo papo, em que ele tentou me explicar a situação do ensino, em geral, e a dessa malfadada portaria, em particular. O secretário me impressionou bem. O simples fato de me procurar para expor o ponto de vista da secretaria já depõe a seu favor; além disso, ele não é político, o que para mim é um ponto mais do que positivo, e me transmitiu a sensação de ser um homem sério, bem intencionado e comprometido com a causa da educação.

Ele me garantiu que a portaria que tanto ofendeu a Gisele (e mais uma quantidade de professores que lhe fizeram coro, e que me escreveram, igualmente indignados e frustrados) não muda nada em relação à situação anterior, e que uma língua estrangeira até pode, sim, reprovar um aluno, desde que essa reprovação seja decidida pelo Conselho de Classe. A mesma informação me foi transmitida por escrito pela assessoria de comunicação da secretaria:

“A nova Portaria 419 não muda nenhuma regra estabelecida em Portarias anteriores, ela apenas ratifica a posição do Conselho de Classe em relação à aprovação ou reprovação do aluno.”

Também recebi da coordenadora Mônica Marzano cópia de uma circular enviada às escolas, esclarecendo as dúvidas geradas pela portaria.
Vocês devem estar se perguntando: “Tá, e o que tem tudo isso a ver com o processo do Napster?”

Explico. É que, no meio da discussão, me dei conta de como O Sistema se comunica mal no Brasil. Isso não é exclusividade do estado do Rio de Janeiro; isso é geral. Qualquer documento oficial no país, da mais alta à mais insignificante das autoridades, é infinitamente mais complicado do que deveria ser. Quando se chega à Justiça, então, o distanciamento da linguagem usada e compreendida pelo povo é absoluto.

Voltando à Seeduc, não é possível que uma simples portaria, destinada a ratificar uma situação já existente, não consiga ser compreendida pelo público a que se destina (os professores) ou por pessoas razoavelmente alfabetizadas (como eu me acredito ser); não faz sentido que essa comunicação em tese corriqueira cause tanto mal estar que precise ser trocada em miúdos, dias depois, por uma circular que, cá entre nós, também não é um primor de clareza.

Vou voltar a esse assunto e, principalmente, vou voltar à questão da educação pública no nosso estado. Já tenho um encontro marcado com o secretário e com membros da sua equipe — que, como ele, também me impressionaram bem. Dizem que é conversando que a gente se entende, e eu quero entender o que está acontecendo nas escolas. Essa tarefa seria muito facilitada, contudo, se a comunicação oficial brasileira, a partir do próprio Ministério da Educação, fosse escrita de forma clara, sem o uso de fórmulas burocráticas arcaicas que induzem mais ao sono do que à circulação de ideias.
(O Globo, Segundo Caderno, 9.1.2014)

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7 respostas em “Lembranças antigas, discussões novas

  1. essa nota do mec, de 28/11/13, é um bom exemplo:
    “Análises realizadas pela equipe técnica da DAEB constataram que em todos o casos, as escolas tiveram na base de inscritos do Enem 2012 mais estudantes concluintes que o total de estudantes concluintes presentes no Censo escolar 2012, o que gera uma taxa de participação superior a 100%, o que impediu o cálculo da média”.

    []’s

  2. Prezada Cora Rónai,
    Estou ajudando Daryle Williams, editor do livro intitulado THE RIO DE JANEIRO READER: HISTORY, CULTURE, POLITICS, a ser publicado pela Duke University Press. Eu gostaria entrar em contato direito com você para que podemos solicitar permissão para reproduzir um artigo que escreveu no Jornal do Brasil em 1981. Se prefere, pode entrar em contato comigo pelo site linkedin.
    Atenciosamente,
    Shawn Moura
    University of Maryland Department of History

  3. Pingback: Substantivo Plural

  4. Cora, mais uma vez você me fez rever o que penso do nível de civismo e mobilização política no Brasil. Com uma ponta de esperança, vejo que política também se faz como você provocou no seu blog: com debates sérios, fundamentados na experiência de profissionais de cada área específica, através de canais de comunicação independentes e sem interesses partidários. Vou acompanhar de perto o desenrolar dos seus contatos com o secretário de Estado de Educação e torcer muito para que algum resultado positivo saia daí. Obrigada por fazer o que muitos de nós deveríamos estar fazendo, mas não sabemos como.

  5. Oi Cora, se me permitir, gostaria de lembrar um pouco do caso Napster. Escrevi um artigo para a ENANPAD em 2001 (link: http://www.portinho.com/pdf/Artigo%20ENANPAD%20-%20Resumo%202001.06.11.pdf), abordando o tema através do raciocínio sistêmico.
    Muitos anos depois, creio ter intuído um princípio que poderia “guiar” essa luta entre o mundo free e o mundo do copyright.
    É bem simples. O detentor do copyright teria o direito de me processar SE E SOMENTE SE ele me garantir a opção de compra na mídia que me interessar. Enquanto não puder fazê-lo, não poderá processar.
    A justiça do princípio é bem clara. Eu quero ver o filme novo. Mas, por algum motivo, não gosto de sair de casa, não quero venda casada (cinema, pipoca, estacionamento, outras lojas), tenho claustrofobia, durmo durante o filme etc.
    Eu quero uma música, um livro, uma gravura etc., mas está fora de catálogo.
    Todos esses itens receberam algum tipo de esforço de propaganda para que eu me interessasse, seja hoje, seja no passado. Eu quero e não posso ter, nas condições de conforto desejadas.
    É razoável processar alguém que poderia comprar um filme lançado no cinema por R$ 30,00 em casa, mas prefere baixar de graça. Ele tem opções equivalentes.
    Mas não é razoável processá-lo por baixar, se a opção seria gastar 100 – 150 reais, pegar um trânsito infernal (2-3 horas), enfrentar um ambiente desagradável (lotado e com filas) etc.
    Se assim fosse na época do Napster, em vez de gastar 4 bilhões de dólares com o processo (advogados e a compra do napster), que foi dinheiro jogado no lixo, talvez a BMG já tivesse criado algo como o itunes anos antes e estaria nadando de braçada no mercado.
    O futuro foi o óbvio, decadência das grandes gravadores e distribuidoras.
    É importante entender que toda a indústria que permitiu e estimulou a troca de músicas é LEGAL. Gravadores de CD, modens roteadores, provedores de internet etc. E, na maioria das vezes, são conglomerados que também controlam essas gravadoras (phillips por exemplo).
    Uma coisa é eu baixar o que posso ter pagando, nas mesmas condições de facilidade, outra coisa é baixar algo que não posso ter, nas mesmas condições de facilidade.
    Dar ganho irrestrito ao lado da indústria, é um tiro no próprio pé da indústria. E realmente ficaram lentos e foram atropelados pelo pessoal originário da informática.
    Enquanto brigavam com o Napster, Steve jobs criava um dispositivo que facilitaria ainda mais o uso dos arquivos baixados… e deu no que deu. Apple é a empresa mais valiosa do mundo.
    Abraço!

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