O passado do futuro

Onde fica o futuro? Atrás da esquina, naquela mancha de óleo em que vamos tropeçar, cair no chão e quebrar a perna? Na estação espacial que gira incansavelmente em torno da Terra, e que cada vez nos parece mais chinfrin e antiga? No elevador, onde vamos esbarrar com o amor para sempre? No Akademik Shokalskiy, que está preso no gelo? Nas feiras de tecnologia? Nos livros do Isaac Asimov? No relógio parado da cozinha que mostra sempre a mesma hora?

(Já tentei consertá-lo algumas vezes, e nada. Ele funciona um pouco e pifa novamente. Como é muito bonito, não tenho coragem de pô-lo no lixo, que é para onde deveria ir se eu fosse mais prática e menos emotiva. Não sei se está atrasado ou adiantado. Não sei se ficou em 2010 ou em 2011, ou se — sem que ninguém à sua volta tenha se dado conta — já foi para 2020 e lá nos espera, imóvel, às seis e quinze da tarde.)

Se Isaac Asimov fosse vivo, eu apostaria todas as minhas fichas nele. Há cinquenta anos — meio século! — ele escreveu sobre o futuro para o “New York Times” com uma impressionante margem de acerto. No artigo, chamado “Visita à Feira Mundial de 2014”, e relembrado essa semana pelo Huffington Post, ele fazia algumas previsões muito interessantes. Eu já existia naquela época, e posso garantir que essas não eram ideias correntes então.

“Em 2014, painéis eletroluminescentes serão de uso comum.”
Hein? “Painéis eletroluminescentes”? Esqueçam a definição, já que a tecnologia nem sempre usa para as novas invenções expressões cunhadas no passado. Pensem, em vez disso, em telas planas. Bingo! Estava certíssimo o nosso Asimov. Só à minha volta, nesse momento, há cinco delas: duas nos smartphones, uma no tablet, uma na TV e outra no computador. Isso num home office que nem ao menos é o que há de mais sofisticado.

“Aparelhos continuarão a liberar a humanidade de tarefas tediosas”.

Com certeza. Acabei de tomar um espresso, que preparei pondo uma cápsula numa máquina. Se tivesse que fazer café à antiga, teria perdido um tempo considerável.

“As comunicações terão som e imagem, e você não só ouvirá, como verá a pessoa para a qual telefonou.”

Na época em que Asimov pensou nisso, havia tempo de espera para interurbanos. A gente ligava para a telefonista e pedia a chamada, que era completada — mal! — muitas e muitas horas depois.

“A tela será usada não apenas para ver as pessoas que você chamou, mas para estudar documentos e fotos e ler trechos de livros.”

Como ele teria gostado de ver um tablet, não?

“Os robôs não serão nem muito bons nem muito comuns em 2014, mas existirão”.

Verdade. A falha não está na previsão, mas na concepção que temos do que é um robô. Para quem imagina um humanóide eletromecânico servindo uísque para as visitas, Asimov errou; mas aqui em casa mesmo, enquanto escrevo, há um aspirador de pó zanzando sozinho pelos cômodos.

“Paredes e tetos vão brilhar suavemente, e numa variedade de cores que mudarão ao toque de um botão.”

O Huffington Post acha que Isaac Asimov errou essa previsão. Eu não acho. Paredes e tetos não precisam brilhar sozinhos, embora não faltem tecnologia e materiais para isso — vide qualquer festinha um pouco mais produzida. Aí estão os leds para quem quiser usá-los. Até o pobre do Cristo Redentor brilha, ainda que não suavemente, banhado em cores escolhidas a um toque de iPad.

Por outro lado, Asimov previa para nós uma vida mais fácil do que a que efetivamente temos: ele acreditava, por exemplo, que as cozinhas seriam capazes de preparar comida sozinhas, fritando e mexendo ovos, fazendo torradas e assim por diante. Ele também imaginava, naqueles idos de 1964, que estaríamos vivendo, hoje, numa sociedade de “lazer forçado”, e que a palavra mais gloriosa do dicionário seria a que definiria uma atividade em tese extinta: “trabalho”.

Tudo bem. Valeu a intenção. Afinal, ninguém é capaz de acertar tudo sempre, não é não?

Dito isso, vamos ao trabalho.
(O Globo, Economia, 4.1.2013)

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3 respostas em “O passado do futuro

  1. “Paredes e tetos vão brilhar suavemente, e numa variedade de cores que mudarão ao toque de um botão.” Mestre Asimov continua presciente

    Smart Lamps (cuja tonalidade é controlada via SmartPhones):
    LIFX
    LumenBulb
    Philips Hue (e mais outros ‘Related Stories’)

    Painéis de OLED (placas luminosas revestindo as paredes e tetos):
    Philips Lumiblade
    Konica Symfos

    😉

  2. Está excelente, o começo então, maravilha!
    Sou sua fã, mesmo.
    Agora paredes que brilham e não ter trabalho, só lazer; bom, um sossego para os olhos é essencial e trabalhar na medida certa é bom, no meu pensar faz muito bem a mente.
    E eu tenho três relógios na sala que não funcionam, mas são tão lindos! Um de parede, um de mesa e um de corrente de bolso, eles marcam um tempo infinito onde posso ir sonhando, todos marcando nove horas, nem sei porque coloquei nesse numero, ficou bonito ao olhar…

  3. bem, há uma empresa aí que até inventou esse negócio de luzes que trocam de cores e, assim, mudam a vibração dos ambientes, mas a moda não pegou. não me lembro agora… acho que foi a Philips. mas… tudo bem: minha árvore de Natal, há alguns anos, é daquelas com fibra de vidro que fica trocando de cor em cada pontinha e, desde o primeiro dia de dezembro está colorindo a sala. até o dia de Reis, pelo menos aqui em casa, a previsão das luzes está certíssima. 🙂

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