Livros para o Natal

Ele viveu a típica história de sucesso da primeira metade do século passado: nasceu na Europa em chamas de 1918, emigrou para os Estados Unidos, deu duro, foi descoberto por acaso, fez sucesso em Hollywood, ganhou um Oscar (depois garfado por Emil Jannings), caiu na obscuridade, reviveu na TV, onde fez mais sucesso ainda do que no cinema, virou lenda e, finalmente, acabou sendo alvo de uma biografia exemplar, não sei se autorizada ou não, que entrou para a galeria dos “livros notáveis” de 2012 do New York Times. Estou falando de Rin Tin Tin, o mais canino e humano dos cães, personificação (ou cachorrificação?) de um ideal de lealdade, valentia e bondade difícil de superar. O livro de Susan Orlean, “Rin Tin Tin, a vida e a lenda” (Editora Valentina, tradução de Pedro Jorgensen Jr.) vai muito além do que promete o título. Gostar de bichos, de filmes e de seriados é até opcional para apreciar esta biografia maravilhosa, ideal para todo mundo que já teve infância.

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Poucos gêneros estão tão em moda quanto o das memórias culinárias — livros de chefs, histórias de cozinha, romances entremeados com receitas, viagens que acabam em cantinas ou bistrôs cinco estrelas. O mais interessante desses livros todos é, disparado, “Pois não, chef!” (Editora Rocco, tradução de Antonio E. Moura) — até porque seu autor, Marcus Samuelsson, tem uma grande história de vida para contar. Nascido em Abrugandana, na Etiópia, com o nome de Kassahun Tsegie, ele foi vítima, aos dois anos de idade, de um surto de tuberculose que atingiu também a irmã e a mãe, que sucumbiu à doença e à longa marcha entre a pequena aldeia e a capital Addis Abeba. Os dois órfãos foram descobertos no hospital por um casal sueco, que os levou para Gotemburgo. Marcus aprendeu a cozinhar com a avó sueca, e ralou muito até virar um dos chefs mais conhecidos dos Estados Unidos (recebeu três estrelas do “New York Times” quando estava à frente do Aquavit, aos — imaginem! — 23 anos; hoje é dono do Red Rooster Harlem e, entre outras coisas, preparou o jantar da posse de Obama). “Pois não, chef!” é uma história de brio, trabalho e temperos. Ideal para quem gosta de comer, para quem gosta de cozinhar e, sobretudo, para quem gosta de ler.

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Gregório Duvivier é o cara. Ele faz o maior sucesso no teatro e na internet, ele assina crônica na “Folha de São Paulo”, ele é um dos cariocas do ano da “Vejinha”; além disso é engraçado, carismático e cativante, e nos apresenta todas essas qualidades embrulhadas em modéstia e gentileza. É pouco? Tem mais: ele é também um grande poeta. De verdade. Repito o que tuitei, no auge do entusiasmo, assim que terminei de ler o seu (já segundo) livro: “”Ligue os pontos”, de @gduvivier, é o melhor livro de poesia dos últimos tempos.” Aqui, longe dos 140 caracteres do Twitter, eu poderia até tentar explicar por quê; mas poesia não é para explicar, é para ler. “Ligue os pontos, poemas de amor e big bang” (Companhia das Letras) é o presente ideal para todo mundo. Até para aquelas pessoas para quem você já comprou presente.

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Outra personalidade fascinante e múltipla, que, feito o Gregório, acerta em tudo o que faz, é a Fernanda Torres. “Fim” (Companhia das Letras), seu romance de estreia, trata da vida de um grupo de velhinhos cariocas comuns, já naquele ponto em que não há ilusões e em que se sabe que nada deu certo. O livro é mesmo tudo isso que estão dizendo: melancólico e engraçado, forte, assombrosamente bem escrito. Ótimo presente para jovens que se acham eternos; e para todos os demais, que já sabem que não são.

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No ano passado, li um livro admirável chamado “Behind the beautiful forevers”, da jornalista americana Katherine Boo. A primeira coisa que me chamou atenção foi o título estranhíssimo, algo como “além dos lindos para sempres”. A expressão refere-se, como mais tarde se descobrirá, aos cartazes colados nos tapumes que separam a favela de Annawadi, em Mumbai, do aeroporto e dos hotéis cinco estrelas, e que fazem propaganda de um piso em porcelanato “lindo para sempre”. Em português, o livro passou a se chamar “Em busca de um final feliz” (Editora Novo Conceito, tradução de Maria Angela Paschoal). Boo, que conviveu com habitantes da favela durante quatro anos e acompanhou a vida de algumas famílias, voltou de lá com uma reportagem colossal sobre a miséria, a corrupção, a esperança e a falta absoluta de perspectivas. Digo “reportagem” porque isso é fato; mas Katherine Boo foi além dos melhores romances. Este é um presente ideal para quem se interessa pelo mundo em que vive e para quem sente saudades, até hoje, de livros gloriosos como “O tigre branco”, de Aravind Adiga, ou “Cidade Máxima”, de Suketu Mehta.

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A Editora Zahar publica uma série de clássicos que a gente tem vontade de abraçar e pedir em casamento. Os livrinhos têm capa dura, tratamento editorial impecável e, eventualmente, até ilustrações. Seus títulos são velhos conhecidos, como “Alice no país das maravilhas”, “Vinte mil léguas submarinas”, “Os três mosqueteiros”. Qualquer um deles é um presente maravilhoso para quem ama livros, mas destaco uma pérola muito especial: “O lobo do mar”, de Jack London, em tradução de Daniel Galera, com apresentação de Joca Reiners Terron e notas de Bruno Costa.

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Para finalizar, rapidinho: um grande complemento para “Zelota”, de Reza Aslan, que recomendei semana passada, é “Jerusalém, a biografia”, de Simon Sebag Montefiore (Companhia das Letras). Um pacote com os dois é um presente imbatível.
(O Globo, Segundo Caderno, 19.12.2013)

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11 respostas em “Livros para o Natal

  1. Fui apresentado ao Gregorio há tempos. O que acho interessante é que ele tinha uma aparente deficiência capilar que já tomava uma boa parte do seu cocoruto. Ele estava ficando careca ! E era tão novo ! Pois bem.. o tempo passa, já vão uns 8 ou 10 anos e ele está….. cabeludo ! Será que ele conhece algum medicamento milagroso que resolve estas coisas ? Quanto à Fernanda, a considero over-brilhante, pois continua atuando ( o que significa que decora textos e mais textos ) e ainda sobra tempo para tantas atividades literárias ! Sua mãe deve ficar orgulhosa ! ô garota brilhante !

  2. Amazon aqui vou eu rss
    Fiquei aborrecida essa semana na Nobel – praticamente a única livraria aqui em Itaipava – quando procurava um livro pro Richard, menino que vai fazer 8 anos, filho do meu caseiro, um doce de criança. Queria Monteiro Lobato pra começar uma coleção de livros pra ele. A moça me traz umas coisas grandes, parecendo gibis, cheios de ilustrações e pobres de texto. Perguntei pelas Reinações de Narizinho, pelas Caçadas do Pedrinho e depois de procurar muito, tirou lá de trás O Minotauro. Será que crianças já não ganham livros? Tem que ser em formato de gibi? Tem que ser resumo?

    • Marise, eles destrincharam os livros de Lobato ” num grau” , acho que pensam que assim as crianças dos tempos “mudernos” terão menos preguiça de ler…bobagem, quando a leitura é boa, vale de qualquer jeito, até um Almanaque Capivarol ,capa com Shirley Temple ,historinha do jeca Tatu…lembranças da meninice da minha mãe…

      • Pois é, eu quero estimular o moleque a gostar de ler, apreciar as palavras, pra olhar figurinha não precisa de treinamento. Ele, apesar de ter pai e mãe com pouco estudo, fala super certinho, desde pequenino. Ele quer ser veterinário, adora os animais, gosta de estudar – passou direto em todas as matérias – quero ajudar na educação e gosto muito dele, mesmo não sendo a pessoa mais ligada em criança. Ele me conquistou desde cedo!

        • Que lindo, Marise! O verdadeiro espírito de Natal -independente da data- incentivar uma criança a conseguir seus sonhos e a ser feliz. Olha, trabalho com crianças, sou apaixonada por elas, e acho sim , que “revistinhas” são o máximo, AMO Maurício de Sousa e sua turma, o Walt Disney brasileiro,compre o Lobato “destrinchado” , o guri vai gostar, se os tempos são outros, né, temos que nos render, rs, beijos , um Natal abençoado pra vc e sua família e para o garoto que q quer ser doutor do bichinhos tb, 🙂

          • Comprei o Lobato por extenso rssss Tenho certeza que o Richard vai curtir e vou discutir o livro com ele, depois que tiver lido. Acho que ele pode viver esses outros tempos, mas também pode gostar de ler. O pai pediu que nós comprássemos um tablet pro papai noel dar a ele. Já está lá em casa, ele vai ter o livro e o tablet. 🙂 Um ótimo e abençoado Natal pra você e sua familia também!

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