Os cidadãos do futuro

Para sediar o NEST (The Networked Society Forum), de que falei na semana passada, a Ericsson construiu um “ninho” ao lado do W, hotel que hospedava os participantes dos debates em Miami: um octógono muito interessante, desmontável, que, embora tivesse pisos em diferentes níveis, não tinha sequer vestígios de um auditório tradicional — a tal ponto que, num primeiro momento, ninguém sabia muito bem onde se sentar. Havia uma espécie de palco, identificado apenas pelo microfone, mas ele ficava misturado aos conjuntos de mesinhas e cadeiras que compunham o ambiente — mais ou menos como num café concerto. A diferença é que, ao longo de todas as paredes, havia monitores formando uma larga faixa, de uma ponta a outra, que permitia a qualquer um ver o que estava sendo apresentado, de onde quer que estivesse sentado. Do lado de fora do octógono, num lounge enorme, praticamente à beira-mar, sucos esquisitos com nomes engraçadinhos, café expresso, comidinhas.

Numa cidade cheia de centros de convenções e centenas de ótimas salas para palestras, para que criar ainda mais uma estrutura? Pensei nisso um bocado — antes de entrar no octógono. Depois, a ficha caiu. Para um encontro em que a meta é partir para o novo, faria muito pouco sentido um auditório ou a velha sala semiobscurecida de sempre com alguém apresentando mais um power point. No óctogono, porém, era como se estivéssemos todos num café, conversando livremente. Ambientes são determinantes na formação e na circulação das ideias, e foi interessante observar o cuidado da Ericsson em relação a este detalhe.

Também foi muito interessante, para não dizer instrutivo, visitar a St. Thomas the Apostle Catholic School, cujos alunos ganham, há cinco anos, as regionais do Future City, um concurso de planejamento urbano promovido em todo o país entre crianças de sexta, sétima e oitava séries por uma sociedade de engenharia semelhante ao nosso CREA.

As crianças trabalham em times coordenados pelos professores e por um engenheiro voluntário, e passam praticamente o ano todo quebrando a cabeça na solução de problemas de urbanismo. O objetivo final é construir uma cidade para o futuro, descrita em monografias, operada no SimCity e montada numa maquete que use materiais reciclados. Vi duas dessas maquetes na St. Thomas, e fiquei admirada não só com a criatividade — afinal crianças são, por definição, criativas — mas com a forma como esta criatividade fora canalizada para a solução de problemas que, obviamente, lhes haviam sido muito bem explicados. Tudo havia sido pensado minuciosamente, das fontes de energia às questões de circulação, transporte e recolhimento de lixo. Os alunos levaram em consideração até a direção dos ventos para construir as suas áreas industriais. E, numa das maquetes, a biblioteca e o museu haviam sido reunidos no mesmo edifício já que, no futuro, segundo as crianças, livros em papel não farão mais parte do cotidiano, e as pessoas precisarão ir aos museus para ver como eram, mais ou menos como, hoje, vamos aos museus ver antigos códices e pergaminhos. Espero, de coração, que elas estejam enganadas em relação a isso!

Os projetos que vencem as regionais vão no começo do ano para Washington, onde participam da final com concorrentes de todo o país. Mesmo que nenhuma ideia revolucionária venha a sair deste concurso (mas nunca se sabe!), a sua própria realização já é suficientemente transformadora. Crianças que passam tanto tempo envolvidas com os problemas de uma cidade, ainda que imaginária, serão, sem dúvida, adultos muito mais conscientes em relação ao ambiente em que vivem. Serão, em suma, cidadãos na mais ampla acepção do termo.
(O Globo, Economia, 30.11.2013)

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Uma resposta em “Os cidadãos do futuro

  1. Cora:
    Não seria uma boa idéia aplicar esse conceito a jovens de alguma comunidade (Rocinha, Alemão,…) do Rio mesmo que em escala menor de $$$$ e patrocinada por uma grande do setor como o exemplo do seu ótimo artigo.
    Fernando

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