O ninho das águias

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Qual é o sentido da vida? Desde que o mundo é mundo, a humanidade tenta, com maior ou menor criatividade e sucesso, responder a essas perguntas. Na semana passada, em Miami, numa conferência chamada NEST (The Networked Society Forum), algumas das melhores cabeças do setor voltaram a duas delas — de onde viemos e para onde vamos — no contexto da vida urbana. O fato é que, até o ano de 2050, 70% da população mundial estarão vivendo em cidades, e a Ericsson, patrocinadora do evento, acredita que, se alguma coisa pode nos salvar do caos, essa coisa é a tecnologia.

O encontro, do qual participaram nomes tão variados como Jimmy Wales, fundador da Wikipedia, Don Tapscott, que em seus vários livros estuda o impacto social da tecnologia, Steven Levitt, o autor de “Freakonomics”, e Jaime Lerner, nosso urbanista-mor, contou também com o ator Forrest Whitaker, co-fundador do International Institute for Peace (IIP), que desenvolve programas e parcerias estratégicas, a partir da Rutgers University em várias áreas críticas para o desenvolvimento das cidades. Além deles, havia empresários, gente de administração e planejamento e, evidentemente, muitos especialistas em telecomunicações e mobilidade, área de excelência da Ericsson, por cujas redes passam nada menos do que 40% do tráfego móvel global, ou seja, o equivalente a algo na casa de 2,5 bilhões de assinaturas de linhas móveis.

Se você não tinha se dado conta das dimensões desta companhia, que a maioria das pessoas ainda conhece por causa da parceria (já desfeita) com a Sony, não se preocupe. Você não está desatualizado — é que a Ericsson, que presta serviços e fornece software e infraestrutura de TIC às operadoras de telecom, não tem interface com o usuário final.

Durante o NEST, a empresa lançou a edição de 2013 do Networked Society City Index (Índice de cidades com sociedades conectadas), que desde 2011 analisa como 31 centros urbanos com mais de um milhão de habitantes tiram proveito da tecnologia móvel para resolver os seus problemas, e anunciou um acordo de três anos com a UN-Habitat, agência das Nações Unidas para a promoção de cidades socialmente e ambientalmente sustentáveis.

A imprensa e os analistas convidados pela Ericsson, entre os quais eu me encontrava, não puderam assistir diretamente aos debates: acho que os organizadores imaginaram que os vários especialistas e intelectuais reunidos discutiriam com mais sossego e tranquilidade sem a presença da mídia. Em compensação, tivemos um dia de reuniões com alguns deles e com os estrategistas da Ericsson, e um dia dedicado a Miami, cidade que, na medida do possível, está se desenvolvendo de forma bastante inteligente, com parcerias público-privadas muito bem-sucedidas em vários setores.

A ideia básica era, claro, debater propostas e conhecer exemplos do que vem sendo feito pelo mundo; afinal, um encontro como o NEST não é feito para resolver questões, mas para apontar caminhos. Para mim ficou claro, acima de tudo, que mesmo entre os pensadores mais bem esclarecidos, o mundo se divide irremediavelmente em duas partes: os Estados Unidos e o resto. Enquanto nós, os asiáticos, os africanos e os europeus pensamos em bicicletas e em transporte coletivo como solução para o trânsito, por exemplo, os americanos pensam em como tornar os carros mais eficientes. 

Eles discutem obsessivamente automóveis elétricos e autotripulados quando, para mim, pelo menos, os automóveis sequer deviam entrar na pauta como solução, sendo, como são, um dos principais problemas urbanos. Tuitei o que penso sobre o assunto. Algo assim: Um dia, no futuro, a humanidade vai olhar para os carros de hoje e pensar, “Meu Deus, será que os nossos antepassados eram todos idiotas?!”

Mas isso é só a ponta do proverbial iceberg. Na semana que vem tem mais NEST.

(O Globo, Economia, 23.11.2013)

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5 respostas em “O ninho das águias

  1. se eu pudesse só andaria a pé, mas eu simplesmente não posso prescindir do carro. eu estou meio cético, acho que todos querem um mundo melhor, mas esperando que o outro mude. só que gente é o outro do outro…

    []’s

  2. Por mais que me esforce, continuo incapaz de evitar pensar que automoveis não poderão ser sair de pauta, por melhores que sejam os sistemas de transporte publico, muito especialmente na sociedade americana. Tomando a familinha da minha filha Mônica como evidência: Eles moram em Coppell, municipio a 20 ou 30 minutos de Dallas, dirigindo por uma das vias rapidas. A cidadezinha e formada por muitos nucleos residenciais de casas, com muito boas escolas nas cercanias. Porem, para abastecer a casa com generos alimenticios, ha que ir aos muitos nucleos comerciais espalhados, nenhum deles perto. Vejo as enormes vantagens de sistemas de trens de transporte de massa (inexistentes), com estacões dotadas de grandes e baratos estacionamentos, de onde os usuarios podem seguir nos seus automoveis para suas casas, cuja localizacão dificilmente sera muito perto. Os americanos precisam, sim, discutir a eficiência do automovel. Claro que quem mora em Manhattan dificilmente vai concordar que automovel tem toda essa importância.

  3. Imagina RJ e SP em 2050!
    Por enquanto a inteligência brasileira incentiva a indústria automobilística diminuindo o IPI pra quem fabrica, e o IOF, facilitando o crédito que é pra todo mundo poder comprar seu carrinho. Com essas medidas os carros têm mais descontos e a economia avança. O governo federal faz o que bem entende pelo incentivo à economia e os estados não pensam no mesmo ritmo as soluções pro transporte público. Nossas ruas são as mesmas e o espaço que era pra gente, está ocupado de carros, neurose e poluição.
    Pra sair desse nosso ninho de ratos vamos precisar de asas. E no entanto, na minha simplória opinião, acho que a tecnologia ajuda a economia a crescer com a possibilidade de ficarmos mais dentro de casa.
    Por enquanto estou feliz de bicicleta (e celular, ipad e notebook), mas eu não conto. Tenho o privilégio de poder morar a 10 minutos do trabalho na cidade mais linda do mundo.
    O problema dos outros é meu problema também. Um NEST carioca seria uma boa pedida pra pensar as nossas soluções e conscientizar mais a nossa gente brasileira.

    Que legal que você foi lá, Cora. E o Jaime Lerner também!

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