Uma noite em Miami

Fazia tempo que eu não vinha a Miami. Tenho sentimentos ambivalentes em relação à cidade, um misto de ternura e de boas lembranças com desgosto e vergonha alheia, mais ou menos como se ela fosse uma velha tia de quem gostei muito quando criança mas que ficou gagá, perdeu a compostura com o passar do tempo e hoje abusa dos brilhos e dos decotes, carrega na maquiagem e só anda em más companhias.

É um erro.

Como qualquer cidade mais ou menos viável, Miami é o que a gente quer que ela seja — desde que as férias acabem antes do encanto.

A culpa do erro não é exclusivamente minha. A coitada não goza de boa reputação; ou, por outra, goza de ótima reputação, mas sempre pelas razões erradas. É difícil amar uma cidade que se vangloria dos seus excessos, e em que a principal atividade turística é ir às compras. É difícil amar a cidade em que todos os políticos corruptos da América Latina compram mansões com os lucros dos seus “malfeitos”, como poeticamente se refere a nossa presidente àquilo que nosotros conhecemos em geral por palavras de baixo calão. É difícil amar essa cidade que serve de refúgio para os personagens mais desagradáveis do noticiário, todos os Thors que decidem dar um tempo longe até a poeira baixar.

Mas Miami também pode ser amável. É uma cidade que recuperou com amor os seus edifícios antigos, que tem lindos jardins e uma quantidade de pássaros interessantes. Tem algumas ruas que não dormem, longe dos shoppings tem um comércio engraçado e original, tem vida cultural.

A Miami do meu coração é aquela em que, nessa mesma Collins Avenue em que escrevo hoje à noite, viveu, de 1977 até a sua morte, em 1991, Isaac Bashevis Singer, um dos meus escritores favoritos. Quando passeio pelo Art Deco District esqueço os carros ridículos que passam pela rua e imagino os seus personagens, aqueles judeus de classe média de vidas densas e conturbadas que, fugidos da Europa ou do frio de Nova York, como ele, continuaram, aqui, o que era, afinal, a extensão da antiga vida dos shtetls desaparecidos.

Ninguém pode tirar de Miami a glória de ter visto nascer tantas dessas histórias maravilhosas, os últimos monumentos do Yiddish, uma língua fantasma.

Vim a Miami pela primeira vez em 1967, dez anos antes de Bashevis Singer se mudar para a cidade — o que, confesso, me asssusta um pouco em relação à minha idade. Eu era garota, e meu Pai havia sido chamado para trabalhar como professor convidado na Universidade da Flórida, em Gainesville; Miami foi a primeira parada da família antes de seguirmos para a cidadezinha que seria o nosso lar durante um ano letivo. Não podia haver nada de mais diferente da Miami de hoje do que aquela cidade pequena de grandes hotéis, uma espécie de Copacabana mais modesta, mas com meia dúzia de Copacabana Palaces plantados à beira-mar.

Não consigo me lembrar de jeito nenhum do nome do nosso hotel, mas até hoje me lembro do cheiro. Eu não gostava muito nem de um nem do outro. Enquanto os hotéis glamurosos tinham nomes como Fontainebleau ou Royal Palm, o nosso tinha nome de gente, um Fulano de Tal (ou seria uma Fulana?) que ficaria melhor num hospital. O cheiro era o cheiro decente de um detergente qualquer, que se traduzia em limpeza, e não em aventura — mas para mim, já naquela época, viajar era a expectativa de cheiros novos. Esse gosto não vinha da vida real, naturalmente, porque até então eu mal tinha posto os pés fora de casa, mas dos livros que eu devorava e que me falavam de um mundo de sensações exóticas. Em nenhum deles, mas nenhum mesmo, o Lysoform entrava como elemento de atração.

Mais tarde, durante os anos da bolha da tecnologia, passei a vir a Miami uma ou duas vezes por mes. Não havia lançamento de produto, feira, congresso ou conferência que não se realizasse na cidade, espécie de capital oficiosa da América Latina. Os colegas de viagem era quase sempre os mesmos — não havia tanta gente cobrindo informática ou telecomunicações no nosso continente — mas os hotéis variavam tanto que, ontem à noite, caminhando pela Collins Avenue, percebi que já fiquei hospedada em praticamente todos os vizinhos do The Raleigh, onde estou agora.

A noite estava gostosa, com uma brisa fresca e uma lua cheia, e, a uma distância segura dos shoppings, me senti bem. Andei vários quarteirões, comprei revistas, fiz fotos e, finalmente, me sentei num barzinho para tomar um suco. Em todo o trajeto, não ouvi uma única palavra em inglês. As pessoas por quem passei falavam português, os porteiros dos hotéis e a garçonete falavam espanhol.

Enquanto esperava a mistura de mamão, laranja, abacaxi e agave (que, pelo que entendi, é o que se usa aqui como adoçante nas lojinhas “verdes”), contemplei as palmeiras da rua, iluminadas com capricho, e os hotéis com a sua velha dignidade restaurada. E senti uma onda de ternura por essa cidade que, afinal, tem tantas qualidades, e tem tanto para ver.

É só olhar.

(O Globo, Segundo Caderno, 21.11.2013)

 

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6 respostas em “Uma noite em Miami

  1. Não faz muito tempo que fui a Miami, cerca de 05 meses, mas realmente é uma cidade que nos envolve de uma forma diferente. Não fui pro circuito das compras, queria conhecer, passear, descansar e ficar tranquilo. Como não conhecia muito da história da cidade e, confesso, não pesquisei o suficiente, saí chateado. O que fizemos foi pegar o carro, dirigir pelas cidades charmosas do entorno, passear pelas ilhas com mansões e jantar sempre algo delicioso, com vinho. Assim eu curti, mas não curti andar pela Collins e ter que gentilmente negar café da manhã ou almoço em todos os hotéis/restaurantes. Queria só andar, e me sinto realmente mal quando alguém me convida a algo e eu tenho que negar, quarteirão após quarteirão.

    Passado essa experiência, sentamos em um café muito charmoso e almoçamos. O jamaicano que serviu nossa comida saiu há alguns dias em uma matéria de um jornal, como feliz e trabalhador, radicado há anos em Miami. Isso sim fez minha viagem, pena que foi só meses depois, já do Brasil, quando me permiti olhar com outros olhos para ela.

  2. Nunca tinha ido a Miami e fui no inicio do ano. Tenho diversos amigos que compraram apartamento por lá. Coisa que jamais farei, pois não tem preço ir às compras e voltar para o seu hotel e estar tudo arrumadinho ! Ficamos no Eloquence by the bay, um aparthotel excelente, com quartos imensos ( o nosso, uma super-extra suite, tinha mais de 100 m2 ) Excelente. Ficamos 25 dias e andamos para todos os lados, mas o que é muito efetivo ( eficaz e eficiente ) é se perder naqueles shoppings onde uma calça Levi´s custa 25 dolares, onde tudo é barato, onde se come um festival de camarões gigantes, com bebida – e refil – por 20 dólares, onde se vê segurança, limpeza nas praias. ( aliás, esta é uma curiosidade curiosa… brasileiro usa sunga na praia no Brasil. Em Miami só se usa short. Homem de sunga é brasileiro ou gay ! Quando via uns 3 ou 4 de sunguinha, eram gays… um ou outro desavisado, era brasileiro ! Levei os dois, para não dar uma de bobo… água morninha e limpíssima ! ) Adoramos ! Voltaremos em breve ! ( também 9 malas de roupas e etc.. não acabam de uma hora para a outra – haja compra ! )

  3. Cora, sempre leio tudo que você escreve com o maior prazer. Adoro! Só não curti o que “O Globo” fez na edição. Não sei se estou atenta demais ou traumatizada pela piada sem graça da Tatá Werneck no programa Amor & Sexo (bullying com judeus). Enfim, o jornal destacou um trecho de seu artigo que pode ser interpretado de um forma enviesada: “Quando passeio pelo Art Deco District esqueço os carros ridículos que passam pela rua e imagino os seus personagens, aqueles judeus de classe média de vidas densas e conturbadas”. Ao ler seu texto, claro que entendemos que você está comentando sobre os personagens do maravilhoso Isaac Bashevis Singer, mas no trecho em destaque não dá para interpretas assim. No mínimo os personagens são do District… A frase ficou incompleta. Por que não destacaram que estes judeus são fugidos da Europa ou do frio de Nova York? Por que não colocaram até a parte do shtetls? Bateu mal. De verdade.

  4. só fiquei preocupado com o suco, não pelo agave, mas pela necessidade de adoçar (mais) uma mistura que já tem (ou deveria ter) a tríplice doçura de mamão, laranja e abacaxi. 🙂 no mais, crônica deliciosa! 🙂

  5. Concordo com tudo! Tenho o mesmo sentimento em relação à feérica Miami! Só não entendo uma coisa: lugar onde as pessoas que cometem “malfeitos” esperam a poeira baixar. Ora, ora, vendo muitos dos filmes americanos onde aparecem pessoas que cometem esses chamados “malfeitos” , querendo se esconder e perguntando: “para onde vamos? Well, let’s go to Rio!!!!!!!! A recíproca vale …

  6. não conhecia miami, apesar de ouvir diversas descrições e ver fotos de parentes e amigos que já foram lá. nada chegou perto dessa crônica. eu adorava minha tia descrita por você.
    []’s

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